A audição de James Comey no Comité de Serviços Secretos do Senado não tirou Donald Trump das cordas — onde estava desde que começou a ser acusado de obstrução à justiça — mas também não resultou num KO final. Não aumentaram os pedidos de impeachment, nem os protestos nas ruas, nem os pedidos de demissão nas colunas de opinião dos jornais. A audição durou 2h45 e ficou provada a inabilidade de Trump a lidar com assuntos de Estado, bem como cuidado de Comey (meticuloso ao deixar tudo escrito) e, a espaços, destemido: “Lordy! Se houver gravações, divulguem-nas”, chegou a dizer.

Comey teve sempre uma postura institucional e vestiu várias vezes a camisola do FBI, que, garantiu, será “sempre independente”. Teve igualmente um registo espirituoso, como o momento em que conta que tinha um jantar marcado com a mulher, mas o presidente ligou-lhe à hora de almoço a convidá-lo para um jantar na Casa Branca. Não foi totalmente formalista: dispensou reler o statement inicial que já todos conheciam.

Dois ataques

Trump”simplesmente” mentiu

Não é muito habitual, mas James Comey disse-o claramente: o Presidente dos EUA mentiu. Não se trata de uma referência à investigação sobre a Rússia, mas a um assunto de que o ex-diretor do FBI diz não abdicar: o seu brio profissional e a dignidade da instituição que liderou.

Comey disse claramente que a Administração Trump mentiu aos norte-americanos quando afirmou que o FBI estava à deriva, ingovernável, e que os agentes tinham perdido a confiança no diretor. “São mentiras, pura e simplesmente”. Ao longo do depoimento, o ex-diretor do FBI visou várias vezes Trump e a sua administração: “A Casa Branca escolheu difamar-me. E, pior, difamar o FBI.”

O ex-diretor do FBI disse ainda que ficou “confuso” por ter sido demitido, já que Trump sempre elogiou o seu trabalho. Comey contou até um episódio em que estava a entrar para um helicóptero e o Presidente o chamou para dizer que estava a fazer um excelente trabalho.

Mais tarde, a porta-voz da Casa Branca confessou que Donald Trump viu parte da audição de Comey, mas também esteve ocupado com outros assuntos. Sarah Huckabee Sanders foi questionada numa conferência de imprensa na Casa Branca sobre a acusação de o Presidente ter mentido e respondeu indignada: “Posso dizer definitivamente que o Presidente não é um mentiroso e, francamente, estou insultada com essa pergunta“.

“Fui demitido porque Trump ficou irritado”

James Comey foi alternando entre tiros a Trump e declarações em que tentava não se comprometer. O presidente do Comité, Richard Burr, perguntou-lhe diretamente: “O Presidente pediu-lhe que parasse a investigação à Rússia?”. Comey foi claro: “Não. No meu entendimento, não”. Mais tarde, o senador James Risch voltou a fazer a mesma pergunta. Comey repetiu: “Não. Literalmente, não.” Ao perceber a fragilidade, o senador insistiu:

Risch: “Mais uma vez, essas palavras não são um pedido? Ele disse: ‘Espero’.”
Comey: “É essa a razão pela qual eu continuo a dizer que entendia as palavras [de Trump] como uma orientação [não uma ordem direta]. Ele é o Presidente dos EUA. Eu tomei [a declaração] como uma orientação.”
Risch: “O senhor conhece alguém acusado por ‘esperar’ alguma coisa?”
Comey: “Enquanto estive aqui sentado, não.”

Pouco depois, o ex-diretor do FBI explicou que, na sua opinião, foi “demitido porque a forma como estava a conduzir a investigação à Rússia o pressionou [a Donald Trump] de alguma forma, e de alguma forma o deixou irritado”.

E o carregar na tinta não ficaria por aqui. O senador republicano Tom Cotton questionou-o diretamente: “Acredita que Donald Trump esteve em conluio com a Rússia?” Comey fugiu à questão: “Essa é uma questão a que eu penso que não devo responder numa reunião aberta.” Deixou a suspeição no ar.

Foi essa “nuvem” que Trump lhe terá pedido para afastar publicamente. Comey defendeu que, enquanto líder do FBI, não deveria vir a público dizer que Trump não está sob investigação. Além disso, acrescentou, “embora seja, literalmente, verdade [que não está a ser investigado], preocupava-me a leitura errada dessa declaração, porque a dimensão da investigação era tal que, obviamente, iria chegar à campanha e à liderança da campanha.”

O ex-diretor do FBI volta a falar sobre a referência de Trump à investigação sobre a Rússia como uma “nuvem”. A “nuvem” podia ser afastada, pensou Trump, caso Comey viesse dizer publicamente que o Presidente não estava a ser investigado pessoalmente. Foi isso que lhe pediu ao telefone. Comey respondeu algo como: “Vamos ver o que podemos fazer”. No Comité, admite que esta foi uma “maneira ligeiramente cobarde” de terminar a chamada.

Três defesas

Os tweets do filho

Para desilusão dos clientes dos bares que abriram para festas “covfefe” — que ofereciam happy hours por cada tweet de Donald Trump — o Presidente dos EUA não tweetou. Mas o filho, Donald Trump Jr., esteve bastante ativo, publicando vários tweets a atacar James Comey.

Sobre o facto de Comey ter pedido a um amigo para passar informações à imprensa, o filho de Trump questionou: “Isto é uma piada?”.

Donald Trump Jr. escreveu ainda no Twitter que “esperar” e “dizer” são duas expressões “muito diferentes” e que seria de esperar que “um tipo como Comey soubesse isso”.

Donald Trump Jr. escreveu ainda que os factos que Comey descreve estão “muito longe de qualquer tipo de coação ou influência e certamente não obstrução!” E acrescentou: “Conheço o meu pai há 39 anos, quando ele ordena ou diz para fazer alguma coisa, não há ambiguidade, sabe-se exatamente o que ele quer dizer”.

“Ele é novo nestas andanças”

Também durante a audiência, o republicano Paul Ryan, líder da Câmara dos Representantes, tentou desculpabilizar aquelas que terão sido as falhas de Trump: “O Presidente é novo nestas andanças. É novo no governo. E então ele provavelmente não conhece de forma profunda os protocolos que há muito estabelecem as relações entre o diretor do FBI e a Casa Branca”.

Os desmentidos do advogado

Entretanto, o advogado pessoal de Trump, Marc Kasowitz, reagiu ao depoimento de Comey com um comunicado:

  • Negou que o Presidente alguma vez tenha dito ao ex-diretor do FBI “Preciso de lealdade, espero lealdade”;
  • Deu a entender, segundo a BBC, que Comey pode ser processado por divulgar aos jornais documentos confidenciais;
  • Disse que Trump “nunca deu ordens ou sugeriu” que Comey parasse a investigação fosse contra quem fosse;
  • Sublinhou que do depoimento de Comey resulta que Trump não está a ser investigado nem tentou obstruir a justiça.

Duas revelações

Procurador especial já tem os memorandos

Uma das revelações da audição é que James Comey garantiu que já entregou os seus relatórios — onde reproduziu ao detalhe todas as conversas que manteve com Donald Trump — à equipa do procurador especial Robert Mueller, que está a investigar a eventual ligação entre a equipa de Trump e a Rússia no caso da interferência nas eleições presidenciais. No Senado há quem veja a demissão do diretor do FBI como um caso de “obstrução de justiça”, um dos motivos possíveis para um possível impeachment do Presidente dos EUA.

O ex-diretor do FBI admite a falta de confiança no Presidente Trump, dizendo que estava “genuinamente preocupado” com o facto de ele poder “mentir” sobre os encontros entre os dois. Quanto ao porquê dessa desconfiança, o ex-diretor do FBI justificou-se com um “misto de coisas: as circunstâncias, o assunto e a pessoa com quem estava a interagir “. Daí que tenha considerado importante “documentar” tudo.

Já na declaração escrita revelada na quarta-feira (que optou por não repetir presencialmente), Comey tinha revelado: “Tive necessidade de documentar a minha primeira conversa com o Presidente-eleito num memorando. Para garantir que o fazia com precisão, comecei a escrevê-lo num portátil dentro veículo do FBI que estava no exterior da Trump Tower logo após o fim da reunião. A reprodução em registos escritos logo após as conversas individuais com o Sr. Trump passou a ser uma prática minha a partir deste momento.”

Na audição, Comey já lembrou já ter trabalhado com três Presidentes – e só ter sentido necessidade de tomar notas com Trump. Falou uma vez com George W. Bush e duas com Barack Obama. No statement que enviou no dia anterior ao Comité de Serviços de Inteligência do Senado já o tinha dito: “Esta não tinha sido a minha prática no passado. Falei a sós com o Presidente Obama duas vezes pessoalmente (e nunca ao telefone) — uma vez em 2015 para discutir questões relacionadas com a aplicação da lei e uma segunda vez, muito breve, para ele se despedir no final de 2016. Em nenhuma dessas circunstâncias eu memorizei as conversas. Recordo-me de nove conversas individuais com o Presidente Trump em quatro meses — três pessoalmente e seis ao telefone.”

Amigo de Comey colocou informações na imprensa

O antigo diretor do FBI contou na audição como fez chegar à imprensa a conversa que teve com Trump — onde o Presidente lhe disse que “esperava” que a investigação a Michael Flynn não continuasse. Comey explicou que, quando viu o tweet de Donald Trump a dizer que era bom que não existissem gravações das conversas que tiveram, acordou a meio da noite e percebeu que ia ter de fazer chegar a sua versão à imprensa.

Comey explicou que precisava de tornar a conversa que teve com Donald Trump pública. “Decidi que a informação devia chegar à imprensa. Então, pedi a um amigo para partilhar o conteúdo do memorando com um repórter. Não o fiz eu mesmo por várias razões, mas a principal é porque pensei que, se não fosse eu fazê-lo, era mais fácil provocar a nomeação de um procurador especial. Foi por isso que pedi a um amigo próximo para o fazer.”

A história foi publicada a 16 de maio no site do The New York Times e no dia seguinte na edição impressa. No texto o jornal atribuía a informação a “duas pessoas que leram o memorando”, sem as identificar. Ao longo da audição, Comey acabou por revelar quem terão sido as duas fontes: ele próprio e o amigo.

Questionado pela senadora Susan Collins (republicana do estado do Maine), Comey não identificou o amigo pelo nome, mas disse que se tratava de “um bom amigo que é professor na Faculdade de Direito da Universidade de Columbia”. Minutos depois, a CNN revelava que Daniel Richman, professor de direito na Columbia, confirmava que foi ele próprio a passar a informação ao The New York Times.