Tiê entrou em palco a pigarrear e começou por dizer que sentia uma impressão na garganta, como quem deixa um aviso. Mas nada. A voz saiu-lhe sempre limpa, doce, sem sinais de hesitação ou dor. Mesmo quando pediu a André Whoong para baixar o tom do piano para cantar um dos temas do novo disco, com saída agendada para agosto. Nada, a voz sempre linda, se dor havia era a das palavras que escolheu escrever e cantar.

Natural de São Paulo, é referida como uma cantora e compositora da nova vaga da música independente brasileira, algo que não nega mas de que não faz uso. Não a reconhecem na rua mas todo o Brasil conhece uma canção chamada “A Noite”, incluída no álbum Esmeraldas (2014).

Tiê não se importa que lhe chamem “cantora de um hit”, mas ambiciona mais, não tem problemas em dizer que “quanto mais sucesso tiver, melhor”, não tem manias de se manter indie. Descreveu-nos o impressionante que foi ter 50 mil pessoas no Estádio do Maracanã a cantar esta canção, no dia em que fez a primeira parte do espetáculo dos Coldplay, no ano passado. “Foi muito emocionante”, mas disse-nos que os concertos com poucas pessoas são muito mais difíceis. Porquê? “Porque custa mais olhar as pessoas nos olhos.”

Parece ser só assim que sabe estar quando atua, está ali para as pessoas mas também com as pessoas, olhos nos olhos; anda pelo meio delas, senta-se nos braços das cadeiras como se estivesse em casa. Canta para todos, um a um.

Na passada quinta-feira estreou-se em Portugal (em nome próprio) no Espaço Espelho d’Água, em Lisboa. Na próxima semana atua no Espaço Cultural CRU, em Famalicão, no dia 15, e no dia seguinte na Casa da Música, no Porto.

D.R.

André Whoong e Tiê, esta quinta-feira em Lisboa

Já a tínhamos visto, poucos dias antes, no Primavera Sound em Barcelona, onde atuou com uma banda completa, num concerto integrado no programa Primavera Pro. Aqui em Portugal, faz-se acompanhar apenas por André Whoong, num formato em que ambos cantam e tocam piano e guitarra. Durante uma hora e meia, Tiê percorreu os três álbuns que tem publicados e apresentou o novo, ainda sem nome definitivo e de onde já conhecíamos o tema “Mexeu Comigo”.

Também partilhou protagonismo com o músico, cantor e compositor André Whoong, convidando-o a tocar duas canções do disco que está agora a lançar. O à vontade é total, Tiê fala muito, é uma contadora de histórias, tem a postura e segurança de quem já fez cerca de 600 espetáculos em 11 anos de carreira. Mas nem sempre foi assim.

Em entrevista ao Observador, confessou ter crescido “muito tímida e insegura”. Tiê canta desde os 15 anos de idade mas só aos 25 assumiu a capacidade de fazer vida da música, altura em que começou a colaborar com artistas que foi conhecendo numa loja de artigos “vintage” de que foi proprietária. Antes da música e da loja, Tiê foi modelo, profissão que lhe pagou todos os estudos até se formar em Relações Públicas.

Define-se, também por isso, como uma lutadora, uma mulher que construiu a carreira a pulso, praticamente sozinha. Contudo, por detrás da força está o seu ponto fraco: tem fases em que quer desistir de tudo. “Eu oscilo muito. Fico muito forte muito forte, fico um cavalo, mas às vezes fico três dias chorando na cama”, contou-nos.

Todos esses traços de personalidade estão nas letras que escreve. Tiê é mulher, mãe, artista e gestora da sua própria carreira, “é tudo uma só pessoa”. Isso justifica, explicou-nos, o facto de manter um registo musical autobiográfico, uma necessidade fundamental que a salvou. Literalmente.

Isto porque há uns anos Tiê esteve muito doente e esse episódio acabou por ser uma espécie de “sacrifício” que lhe permitiu dar o passo que faltava para começar a compor as suas próprias canções, já depois de fazer 29 anos – hoje tem 37. O registo autiobiográfico acabou por ser a solução que a pacificou. “Quem me conhece sabe o que quer dizer cada palavra”, garantiu-nos, ela está em todas as frases, uma catarse.

Tiê começou como artista independente mas depressa passou para a Warner Music Brasil, logo depois da edição do primeiro disco, Sweet Jardim (2009). Com o segundo álbum, A Coruja e o Coração (2011), veio a segunda filha e uma produtora discográfica chamada Rosa Flamingo. Estes anos trouxeram-lhe uma “família”, os músicos e amigos que trabalham com ela desde há nove anos.

O quarto álbum sai no próximo mês de agosto, continua a ser autobiográfico e muito feminino, porque “trata das minhas questões de hoje, sou uma mulher a chegar aos 40, tenho duas filhas e tenho contas para pagar como qualquer pessoa”. Recentemente perdeu uma avó (a atriz Vida Alves), passou por um processo de separação, enfim, “os artistas são pessoas como as outras”. Tiê diz estar muito feliz com este novo álbum, “foi muito intenso. São sempre. Fazer disco é igual a fazer filho, com a diferença que quando você faz um filho ninguém fala que ele é feio”.

Este toque de humor passa com facilidade para a música que faz, seja nas letras que cantam a vida que pode ser a de qualquer pessoa, seja quando escreve uma canção sobre uma máquina de lavar porque, num determinado dia, lhe faltou melhor assunto (terceira faixa do álbum Esmeraldas).

Tiê vai a todas, viver é aprender com os outros, é essa a linha por onde conduz. Talvez por isso olha nos olhos do público quando canta, uma entrega que é, acima de tudo, uma procura. A partilha de uma vida escrita em canções.