Para quem, como nós, gosta de conduzir, a possibilidade de “conduzir” um automóvel que não necessita de condutor é uma sensação, no mínimo, estranha. Mas a verdade é que há momentos, como aquelas deslocações em auto-estrada em que nada acontece, excepto ultrapassar ou ser ultrapassado, em que talvez não fosse má ideia deixar que o carro assumisse o controlo total, se isso nos deixasse livres para ler, conversar mais à vontade ou até ver um filme. É para isso mesmo que existe o Jack.

Se está a pensar quem diabo é o Jack, saiba que é um automóvel de testes da Audi, inserido no programa Audi Piloted Driving, que é capaz de agir como um ser humano ao volante, em determinadas condições, assumindo por completo o controlo total do veículo. E até mesmo a responsabilidade em caso de acidente.

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O Jack tem mais dois irmãos (um nos EUA e outro na Europa, que por vezes dá um salto à China, onde optimiza o comportamento nos imensos nós das auto-estradas locais), todos eles encarregados de fazer evoluir a condução autónoma do Grupo Volkswagen, que será em breve disponibilizada nos modelos de produção em série. E mais cedo do que pensa, pois o futuro A8, disponível ainda este ano, já é capaz de se comportar como o Jack, mas apenas até aos 60 km/h, enquanto que o veículo a que a Audi recorre para desenvolver esta tecnologia funciona na perfeição até aos 240 km/h.

Um computador sobre rodas

A possibilidade de conduzir – ou melhor, de nos sentarmos atrás do volante – do A7 a que a Audi chama Jack surgiu ontem na Alemanha, mais precisamente na auto-estrada que liga Munique e Berlim, onde não há limite máximo de velocidade, excepto em casos pontuais, e que foi escolhida pelo Governo alemão para servir de zona de testes para o desenvolvimento da condução autónoma. A auto-estrada em causa, além de estar em bom estado de conservação, bem pintada e com sinalização vertical recente, não difere em nada das outras vias rápidas modernas, sejam elas alemãs ou até portuguesas. Tem apenas muito trânsito, e daí que tenha sido escolhida como “vítima” para os testes em que os veículos autónomos dos fabricantes germânicos interagem com os condutores de carne e osso.

Depois de umas breves explicações sobre o sistema, lá nos permitiram arrancar para a nossa curta viagem em que, apesar de estarmos ao volante, estávamos condenados a desempenhar o papel de passageiro, pelo menos em parte do percurso. O Jack – a Audi decidiu humanizar o veículo que, em abono da verdade, revelou conduzir melhor do que muita gente –, é um A7 de 2013, com mais de 100.000 km, equipado com um motor 3.0 V6 TDI de 245 cv, no qual foram instalados oito câmaras de vídeo, quatro radares, dois scanners de laser e 12 sensores que lhe permitem “ver” e analisar tudo o que se passa à sua volta. E tomar decisões, com base nos seus instintos. Perdão, na programação. Sim, porque o Jack é um verdadeiro computador sobre rodas, uma vez que na sua bagageira estão montados oito computadores, todos eles com processadores i7 e 8 gigabytes de memória RAM, tudo para realizar as mesmas funções de um adulto recém-encartado. Curiosamente, o futuro A8 vai ser capaz de realizar as mesmas funções recorrendo apenas a um computador do tamanho de pequeno tablet. E viva a miniaturização!

Olha, sem mãos!

Depois dos primeiros quilómetros a bordo do Jack, entre o aeroporto de Munique e a auto-estrada A9, em que assumimos o habitual papel de condutor, fomos avisados que o sistema Autobahn Pilot estava disponível para assumir o comando do “nosso” A7, cujo habitáculo é em tudo similar aos restantes, não fosse por uns botões para controlar e fazer reset aos diferentes dispositivos, todos eles concentrados no local onde habitualmente é possível encontrar o cinzeiro.

Há mais uma diferença entre o Jack e os outros A7, uma vez que o Audi autónomo possui um pequeno ecrã digital sob aquele de maiores dimensões no centro do tablier, destinado a comunicar ao condutor o estado no Autobahn Pilot e o seu funcionamento, deixando livre o ecrã principal para que o condutor se possa deliciar com um filme, assim que o sistema de condução autónoma assumir os comandos.

Sem mãos, mas também sem ter de dar atenção ao trânsito, à sinalética da auto-estrada ou aos limites de velocidade

Depois do Jack nos avisar que podia ser ele a conduzir, através de um avisador acústico e visual, limitámo-nos a pressionar em simultâneo os dois botões que existem nos braços inferiores do volante e já está: passámos a passageiros. O volante recuou em direcção ao tablier, deixando-nos mais espaço para nos movimentarmos e, nos primeiros minutos, fizemos de tudo um pouco, desde reclinar o banco para nos sentarmos mais confortáveis, a pegar numa revista para… ver os bonecos, uma vez que era em alemão, língua que não dominamos.

Como o sistema é capaz de “ler” os sinais, o Jack reduziu a velocidade assim que avistou uma zona com obras, onde o limite começou por ser 80 km/h, baixando depois para 60 km/h, tendo ainda abandonado a faixa mais à direita, precisamente aquela em que os trabalhos decorriam.

Mais à frente, num nó da auto-estrada algo confuso, o Autobahn Pilot deu-nos 15 segundos para assumir o volante, o que fizemos, para depois nos pedir de volta os comandos assim que a dificuldade ficou para trás. E assim continuámos até nos aproximarmos da nossa saída, rumo ao aeroporto de Munique, onde o Jack nos passou a bola, que é como quem diz, o volante, já depois de se encostar à direita e abrir pisca.

Um “betinho” ao volante

Sem nada para fazer, o que passou por consultarmos, pela primeira vez de forma legal, os emails e as redes sociais no smartphone, dedicámo-nos a avaliar o desempenho do Jack. E o “homem” revelou-se um condutor exímio e extremamente respeitador. Talvez em demasia, pois antes de mudar de faixa para realizar uma ultrapassagem, esperava pacientemente que o espaço entre os veículos fosse mais do que suficiente para ele “caber” sem problemas. Na realidade, até lá cabia um camião TIR. Ou mesmo dois.

Capaz de circular até 130 km/h, uma vez que éramos nós que íamos sentados ao volante – com os técnicos o carro é testado até aos 240 km/h, a sua velocidade máxima –, o Jack provou ser o condutor mais certinho daquela auto-estrada, o que nos levou desde logo a sugerir um upgrade do sistema para o tornar mais afoito e menos “betinho”. Sem ser irresponsável, é claro.

Depois de nos impressionar positivamente pela forma como se mantinha religiosamente no centro da faixa de rodagem – revelando aqui um desempenho muito superior ao que os modelos mais recentes da Audi dão provas quando se recorre ao Lane Assist –, bem como pela suavidade com que manobrava, mudando de faixa quase sem se dar por ela, o Jack mostrou-nos também o que acontece quando temos de mudar de auto-estrada e o nó rodoviário é muito confuso: recorreu ao já habitual avisador sonoro e acústico, dando-nos 15 segundos para assumir o controlo, com o volante a regressar à posição original para sermos nós a realizar manobra. À pergunta óbvia “o que aconteceria caso não assumíssemos o volante?”, os técnicos que nos acompanhavam responderam quase em coro: “O Jack começaria a reduzir a velocidade e a mudar de faixa, até atingir a mais à direita e, por fim, estacionar na berma.” Esperto, hein? Curiosamente, trata-se da mesma solução que testámos recentemente no Volkswagen Arteon.

Além de ser exímio em auto-estrada, o A7 da Audi Piloted Driving é igualmente capaz de ser deixado junto a um parque de estacionamento e entrar, encontrar um lugar e arrumar sozinho

Vai mas é estacionar. Sozinho

Já que estava em maré de mostrar as suas habilidades, o Jack – ou melhor os seus técnicos – “falou-nos” da sua capacidade de estacionar sozinho. O objectivo é fazer com que, depois de parar à porta do parque de estacionamento, junto ao escritório, cinema ou restaurante, o condutor apenas tenha de accionar o comando e lá vai o Jack à sua vida: entra no parque, escolhe um local que se adapte às suas dimensões, e estaciona, sem roubar tempo ao condutor.

Pareceu-nos prático, e certamente representará uma ajuda importante para nos permitir chegar a horas a um encontro. Mas nem tudo são rosas: o sistema requer um parque preparado para o estacionamento autónomo, com linhas bem desenhadas no solo para que os radares, e especialmente as câmaras, funcionem correctamente.

Auto-estrada já está. E o resto?

Para já, o sistema Autobahn Pilot, como o nome indica, funciona bem em auto-estrada (autobahn, em alemão). Isto além do parqueamento automático, sempre que existam garagens preparadas para interagir com este tipo de automatismos. Para circular em condução autónoma fora de vias rápidas, em que o número de surpresas é infinitamente inferior ao que pode esperar os automobilistas nas estradas normais e nas grandes cidades, vai ser preciso esperar mais uns tempos, com os técnicos da Audi a avançarem que nunca será antes de 2020 ou 2021.

Sem mapas de alta definição e capacidade de comunicação entre os veículos, ou entre o automóvel e as infra-estruturas (car2x), não vai ser fácil conseguir que um automatismo de nível 3 seja seguro fora das auto-estradas, onde a Audi já provou que isto pode ser alcançado.

Para que o Audi Piloted Driving passe a funcionar igualmente em estrada e nas cidades, é fundamental que as infraestruturas sejam capazes de comunicar com os veículos, como acontece aqui, nos EUA, com o modelo a saber de que cor está o sinal de que se aproxima

Tesla ou Audi: qual o melhor?

Ora aqui está uma questão a que não é fácil de responder. Primeiro, porque se a Tesla já oferece hoje um sistema que denomina de Autopilot 2 (o mais avançado e que, segundo a marca americana, já está equipado com o hardware necessário para a condução autónoma, que pensa oferecer no espaço de dois anos), a Audi apenas possui ainda vários veículos de teste. Contudo, é bom realçar que, após o Verão, a marca alemã vai iniciar as vendas do A8 já com a mais recente versão do Traffic Jam Pilot, que realiza as mesmas funções do Jack em auto-estrada, desde que seja até 60 km/h e exista um fluxo denso de trânsito (e daí o termo Jam).

No capítulo das diferenças, de salientar ainda que a tecnologia que a Tesla oferece hoje corresponde ao nível 2 da condução autónoma (a responsabilidade é do condutor e não do carro), ou quando muito um 2,5, enquanto o Jack já é um nível 3 (desde que accionado o sistema, o carro tem a responsabilidade de qualquer acidente) em auto-estrada. E o A8 também, quando chegar em Novembro, ainda que com as já mencionadas limitações.

Em resumo, a Tesla oferece hoje um sistema menos sofisticado e de ajuda ao condutor (e promete para breve uma solução 100% autónoma), enquanto a Audi demonstrou estar em condições de produzir, assim que a legislação o permitir, um modelo capaz de operar sem recurso ao condutor em auto-estrada.