Rui Moreira faltou ao primeiro debate das autárquicas, na TVI24, para ir ver a seleção ao Estádio do Bessa. Mas, terça-feira à noite, esteve no Salão Árabe do Palácio da Bolsa a debater, em direto na SIC, durante hora e meia, o passado, o presente e o futuro da cidade com quatro dos outros candidatos à presidência da Câmara do Porto. Não pediu maioria absoluta e não deixou garantias de que os atuais inquilinos do Teatro Sá da Bandeira se mantenham. Já para Manuel Pizarro e Álvaro Almeida, um bom resultado nestas eleições é ganhar.

A primeira pergunta foi dirigida ao autarca. “Sente falta de Manuel Pizarro?“. “Com certeza”, respondeu Moreira, sem hesitar. “Desde logo em termos pessoais, tenho muita consideração por Manuel Pizarro”, continuou, lembrando também as competências entregues aos vereadores do PS e que tiveram de ser reorganizadas. E enfatizou: “Claro que não fui desleal”, disse, sobre a decisão de ter decidido terminar, em maio, o acordo com o PS para a governação do município.

“Este assunto não interessa nada aos portuenses”, disse João Teixeira Lopes, do Bloco de Esquerda, sobre o que levou à quebra do acordo de governação entre Rui Moreira e o PS. “Politiquices”, desvalorizou, preferindo colar durante todo o debate o PS e Rui Moreira como duas faces da mesma moeda. “Tenho pena que Manuel Pizarro diga que 87% do seu programa é o programa de Rui Moreira, porque ele está a desistir de ser uma alternativa para o Porto”, lembrando a entrevista que o candidato socialista deu ao Observador, onde admite coligar-se “com quem for necessário”.

A CDU foi a alternativa única no Porto” nestes quatro anos, afirmou Ilda Figueiredo, criticando os vereadores do PS, que votaram “a favor da privatização dos serviços de limpeza, do Pavilhão Rosa Mota, dos parcómetros”. Álvaro Almeida, da coligação PSD/PPM, acusou os vereadores dissidentes do próprio PSD Porto de terem apoiado Moreira “sabe-se lá em troca de quê”, provocando a interrupção e o desmentido do autarca.

Tem vindo a concentrar poder de uma forma verdadeiramente inaudita. Tem 7 pelouros“, acusou João Teixeira Lopes. “Isto não é saudável para a democracia e faz falta na Câmara do Porto alguém que tenha um poder de fiscalização efetivo porque, infelizmente, o PS abdicou desse poder.”

Sobre o que fica na cidade após quatro anos de governação, Ilda Figueiredo foi muito crítica. Salvo “uma certa abertura no início”, por contraste com a governação “de crispação” de Rui Rio, considerou que o resto das obras “está por fazer”. “O Bolhão não saiu do papel, o mercado da Sé não saiu do papel, mesmo o arranjo do Rosa Mota, o Matadouro e obras fundamentais como o Aleixo.” Álvaro Almeida concordou, novamente, com a candidata da CDU. “Não há nenhuma obra relevante” ao fim de quatro anos.

“Não conseguimos concretizar tudo”, reconheceu Rui Moreira. “Mas não houve nada que eu fizesse que fosse contrário ao que eu tinha dito.” Seria mais tarde contradito por Álvaro Almeida. “Fez uma coisa contra aquilo que prometeu: aprovou a linha de metro rosa, que não é a que prometeu. Insisto na linha do Campo Alegre para resolver o trânsito na zona ocidental da cidade.”

Rui Moreira mostrou-se confiante na avaliação dos munícipes: “Acho que verificaremos no dia 1 de outubro que não desiludimos os portuenses”, disse Rui Moreira, confiante, para logo depois João Teixeira Lopes dizer que “este foi o mandato das PPP [parcerias público-privadas], Rui Moreira foi o presidente PPP”. “A marca desta dupla foi menos 5.000 pessoas no Porto e menos 2.000 pessoas no centro histórico. Esta é a marca Pizarro-Moreira.”

Moreira: “O caso Selminho não está encerrado porque convém a estes senhores fazerem uma campanha suja”

Como seria de esperar, o caso Selminho foi discutido, e, pela primeira vez, num debate com Rui Moreira. A CDU fez uma queixa na justiça, entretanto arquivada. “A CDU considera que é uma questão criminal, nós consideramos que é uma questão administrativa e ética. O caso esteve parado 15 anos e avança quando Rui Moreira chega à Câmara”, lembrou Teixeira Lopes, que por um par de vezes quase conseguia enervar o adversário no poder. “É uma espécie de negócio euromilhões, um terreno que valia zero passa a valer 10 a 12 milhões.” Para além de criticar em Moreira “um papel de vitimização, de amuado”, o candidato do Bloco de Esquerda não deixou passar a oportunidade de criticar Pizarro, seu concorrente na captação de votos à esquerda. “Faltou poder de fiscalização na Câmara, Pizarro fez mal em ter ficado silencioso sobre esta questão.”

Antes de argumentar, Rui Moreira teve uma pequena altercação com o candidato do BE.

Disse que não ia [ao primeiro debate]
Foi ao futebol.
Não fui à Grécia passear!
Ó dr. Rui Moreira, está-se a irritar! Eu estive num congresso académico, sabe? Não estive a ver um jogo de futebol e a desprezar os adversários. Não faça esse sorriso que lhe fica mal, é um sorriso de soberba que os portuenses não perdoam. O senhor acha que já ganhou.

O caso Selminho não está encerrado porque convém a estes senhores fazerem uma campanha suja“, concluiu Rui Moreira, depois de ter lido a resposta do Ministério Público à queixa da CDU, que considera que Rui Moreira não interferiu de modo a prejudicar a autarquia.

Já Álvaro Almeida classificou de “muito pouco ético que um candidato que tem um diferendo com a Câmara do Porto se apresente sem revelar que esse diferendo existe”, e, mais ainda, tome decisões “que envolvem uma empresa que é parcialmente sua e só mais tarde é que viemos a saber. O Porto merecia saber disso desde o início“.

Manuel Pizarro não quis esmiuçar as ações de Rui Moreira nesta questão e preferiu deixar uma promessa, caso seja eleito. “Irei promover todas as diligências para que seja reconhecido que o terreno é da Câmara do Porto.” “E foi isso que a Câmara fez, coisa que nunca tinha feito nos 12 anos em que o dr. Rui Rio foi presidente”, respondeu o presidente. “Ao fim de 16 anos, os serviços da Câmara sentiram-se livres para descobrir uma coisa, e muito bem.”

Sobre a ausência no primeiro debate, Rui Moreira diria no final que foi convidado para 10 debates no total e que, por se manter em funções, “não era possível fazer mais do que quatro”, o dobro dos que fez há quatro anos. E, sem nunca justificar porque é que preferiu ir ver a seleção à mesma hora em vez de aceitar o convite da TVI24, disse apenas: “Quem viu o outro debate na outra estação compreenderá melhor porque é que eu escolhi a SIC.”

© Observador

“A coligação que o dr. Manuel Pizarro propôs à esquerda não vai ser fácil”

Sobre os problemas provocados pelo crescimento do Turismo, o debate seguiu na linha do primeiro. Foi, aliás, passados 36 minutos de debate que o futuro da cidade foi discutido pela primeira vez. Manuel Pizarro voltou a lembrar a promessa do programa “Habita Porto”, que prevê a construção de três mil casas para a classe média e os mais jovens, que não têm rendimentos para arrendar habitações na cidade. João Teixeira Lopes viu nessa medida especulação imobiliária. “A coligação que o dr. Manuel Pizarro propôs à esquerda não vai ser fácil“, comentou Moreira, ao ver o diferendo constante entre João Teixeira Lopes e o candidato socialista.

Antes de partir para a construção de casas para resolver o problema da oferta e da procura que existe atualmente na cidade, Rui Moreira defendeu que a fiscalidade é uma solução, para incentivar os proprietários de casas abandonadas e devolutas a fazer obras e colocá-las no mercado, “a preços controlados”. Não chegando, então, sim, o município “tem de usar os seus terrenos atuais para construir habitação social”, sob modelo de PPP.

Ilda Figueiredo e João Teixeira Lopes defenderam que a Câmara devia repensar as autorizações para a construção de hotéis. “Devemos ter a coragem de fazer o que Barcelona fez, suspender por um ou dois anos licenças de hotéis no centro. Há 19 hotéis preparados para os próximos tempos. É insustentável”, disse o bloquista.

“Parece que Pizarro e Moreira não tiveram quatro anos para fazerem tudo aquilo a que se propõem agora”, comentou o candidato do PSD. Discorda da construção de três mil casas porque “o Porto é uma cidade que já está densamente povoada” e que precisa é de espaços verdes e pavilhões gimnodesportivos, e que a solução passa por dar incentivos fiscais para reabilitar os “cerca de 25 mil alojamentos vagos,” espalhados pela cidade. Por outro lado, critica a Câmara por exercer o direto de preferência em alguns negócios. “Privilegia a especulação imobiliária.”

Rui Moreira admite que atuais inquilinos do Teatro Sá da Bandeira não se mantenham no futuro

A crítica serviu para Álvaro Almeida questionar Moreira sobre a compra do Teatro Sá da Bandeira — que ainda aguarda visto do Tribunal de Contas –, em vez de deixar que o atual inquilino comprasse o edifício. Moreira afirmou que o arrendatário não exerceu o direito de preferência — “senão ele tinha-o exercido antes de nós termos sabido” –, e que, tendo percebido que o edifício não estava classificado, decidiu comprar para que não corresse o risco de ser demolido ou desvirtuado por um comprador futuro.

– Quer tirar a empresa que lá está? Então porque é que não se pode deixar a empresa comprar o edifício?, insistiu Álvaro Almeida.
Não, sr. dr.. O sr. não compreende o interesse patrimonial e histórico, é o teatro mais antigo da cidade, temos de assegurar que aquilo é classificado e depois reabilitado e depois quem está lá pode provavelmente continuar lá a exercer, respondeu Moreira.
Provavelmente? Então não é garantido que continuem lá.
Não.
Então vamos acabar com o Teatro Sá da Bandeira, o único teatro comercial do Porto vai deixar de ser comercial?
O Rivoli já não é comercial. Isso, tenha paciência. O Rivoli já não é comercial, respondeu Moreira, aludindo à concessão do Rivoli que Rui Rio fez a Filipe La Féria.

Nas considerações finais, Clara de Sousa quis saber se Rui Moreira ia pedir maioria absoluta. “Não. O que é importante é ganhar as eleições”, sublinhou. Perante o pedido de uma resposta mais clara, o autarca esclareceu que, embora seja mais fácil governar em maioria, “desde o dia 7 de maio que estou em minoria e mesmo assim, com exceção de uma questão ligada à cultura, que o dr. Pizarro ainda não esclareceu, temos conseguido governar.” Até mesmo sem alianças formais no futuro. “Espero que sim”, respondeu. “Tenho conseguido [os equilíbrios necessários para governar com tranquilidade].”

Para Manuel Pizarro e Álvaro Almeida, não há dúvidas. Um bom resultado é ganhar as eleições, responderam ambos. Procurando captar os votos dos socialistas mais à esquerda, João Teixeira Lopes assegurou que o Bloco de Esquerda nunca fará uma coligação com o independente apoiado pelo CDS. “Os nossos votos não vão para o bolso de Rui Moreira, nem para as PPP.” Ilda Figueiredo terminou o debate dizendo que a CDU não faz “acordos com partidos de direita”, embora a CDU tenha, no passado, estado coligada com Rui Rio.