Enid Blyton. O nome, só por si, já traz alegria. Traz o charme inglês dos dias de Verão aventureiros, com pausas para chás em que as crianças bebiam uma desconhecida cidra, o prazer infantil de vaguear por cottages e vilórias no encalço de vilões, traz um sem número de truques, disfarces e mundos apetecíveis, profissões exóticas e crianças heróicas.

Talvez seja injusto contar em duas penadas a vida de quem escreveu oitocentos livros. No entanto, só pela quantidade o leitor pode imaginar qual foi a grande ocupação da sua vida. Desde que publicou os seus primeiros versos para crianças numa antologia, apadrinhada por G. K. Chesterton, até à sua morte no fim dos anos sessenta, desdobrou-se em colecções e personagens, escreveu vidas de Jesus, histórias sobre circo, cenas de colégio, mundos inventados e sonhos de criança. A biografia sugere e os livros confirmam: Enid Blyton tinha uma vida pacificada, talvez um apetite nostálgico pela infância de que guardou os fascínios e os medos, e uma mente simples, maternal, pedagógica mas não a ponto de querer educar mais do que no bom-senso e capaz de se divertir com uma peripécia aventureira. Blyton esteve para ser pianista, mas o único vestígio desta profissão falhada na sua obra é uma espécie de musicalidade luminosa, simples e de harmonia fácil, que repassa os livros. Há outras profissões, no entanto, que pareceu ter exercido um fascínio duradouro sobre a mente de Enid Blyton: o circo, palco de mistérios, base para uma série inteira e profissão misteriosa dos pais de uma aluna de Santa Clara; as professoras e, acima de todas as outras, os detectives.

A capa da primeira edição do número 1 na colecção d’Os Cinco, de 1942

As grandes histórias de Enid Blyton são histórias de aventuras, ao género de Stevenson, mas também de busca. Há sempre um mistério a respeito de um sítio ou de uma pessoa, mesmo nos inocentes colégios das Quatro Torres ou de Santa Clara, mesmo na terra dos brinquedos de Noddy, que aguçam o interesse pela história. Blyton, por muito que lhe criticassem a repetição de certos truques ou as semelhanças entre os enredos, conservou um olhar infantil que dá aos livros o fascínio que eles exercem. As grandes ambições infantis: a independência, a descoberta de tesouros e o combate de vilões, o encontro de segredos, os clubes, o mundo só de divertimentos como a terra dos brinquedos, tudo isso é concretizado nas histórias de Enid Blyton e sem decepção. Quem não sonhou com colégios internos ou com clubes secretos que desvendassem mistérios e precisassem de senha para entrar? Quem não pensou, anos depois, em como eram mitificadas as suas imagens de detectives ou do circo. Blyton tem interesse porque respeita o mito. Ao contrário do que é costume, em que de uma ideia nasce um problema que tem de ser resolvido pelo enredo, nos livros de Enid Blyton à ideia segue-se o prazer. Os problemas vêm depois de já todos se terem divertido com as mascaradas de Frederico Trotteville, dos Sete já terem marcado o símbolo do clube na porta da garagem e de Os Cinco se encontrarem alegremente ao fim de um período escolar sem se verem.

Cronologicamente, a ordem não seria esta; no entanto, é possível fazer uma história do mundo de Enid Blyton a partir de algumas das suas colecções mais representativas. Blyton escreveu para várias idades, num crescendo que também reflecte as mudanças de interesses e os fascínios renovados.

Noddy

É a personagem de Blyton mais conhecida. Com tanta produção fora dos livros, ganhou uma vida independente de Blyton. No entanto são as histórias da sua criadora que o tornam uma personagem tão querida. Fora o desenho delicado, as cores vivas e a forma deliciosa como desenho e texto se vão misturando, o grande interesse do Noddy, mais do que nas histórias, está no mundo.

A primeira história de Noddy, de 1949

Não em personagens específicas, como o sábio Orelhas Grandes, ou o mais sisudo polícia; a ideia de um mundo criado a partir dos brinquedos, além de tocar no íntimo das crianças, que brincam constantemente com eles, como se tivessem de facto vida, tem um pressuposto interessante. Blyton não quer mostrar que o mundo é bom ou que devemos ser bons uns com os outros; o mundo de Noddy é mais prático e mais claro para as crianças: se queremos um mundo bom, vamos fazê-lo das coisas boas. A ideia de um quotidiano feito de brinquedos, além de tentadora, tem qualquer coisa de humilde que também é bonita: não são os brinquedos que são usados para fingir que são como nós, somos nós que entramos no mundo dos brinquedos. A medida passa a ser outra, não nós mas aquilo que usamos. A vida que os brinquedos ganham – apesar de tudo com os seus limites de brinquedo – tem esta curiosidade de manter o prazer dos objectos mas, ao mesmo tempo, mudar o foco: vamos à boleia dos brinquedos, já não o contrário.

Os Cinco e os Sete

Estes dois clubes (um formal e outro não) foram as grandes criações de Enid Blyton. Se Noddy foi uma criação independente, uma personagem que ganhou vida, os Cinco e os Sete estarão para sempre ligados a Enid Blyton. O Clube dos Sete, com o seu barracão de reuniões e a intrometida Susana a querer fazer parte, são mais detectivescos. Os Cinco, quatro crianças e o seu cão, são mais aventureiros. Apesar de Os Cinco serem para crianças um pouco mais velhas do que os sete, há nas duas séries uma forma de olhar para o mundo igualmente encantadora.

A estreia original em inglês d’Os Sete, de 1947

Por muito simples que sejam os encontros dos vilões – homens antipáticos geram desconfiança, confirmada depois pela tentativa de um crime de qualquer espécie – por muito que os dramas de criança tenham a sua parte (quem nunca teve um amigo com uma irmã chata que queria sempre intrometer-se nas brincadeiras, enquanto as desdenhava?), o mundo dos Cinco e dos Sete é já um mundo de adultos. Ou melhor, é o mundo dos adultos visto por crianças. A crença na importância e um certo mistério nas actividades dos crescidos, um gosto pela imitação dos heróis e a ideia de que, por todo o lado se pode encontrar um mistério fascinante. Já não é, como no Noddy, um mundo das crianças; é, porém, um mundo em que as crianças é que estão atentas ao mistério e vivem numa espécie de subterrâneo do quotidiano em que acontecem coisas fantásticas debaixo dos olhos de todos.

Os Colégios

Quando as gémeas entram em Santa Clara, entram a contra-gosto. Diana, porém, entra nas Quatro Torres com grandes expectativas. Umas decididas a serem mal-comportadas, outra, pelo contrário, a querer polir a honra da sua personalidade. Os perfis trocam-se rapidamente; Diana cai nas boas graças de Alice, uma doidivanas, as gémeas vão aprendendo a gostar do colégio, de lacrosse, das professoras (com a louca mam’selle à cabeça) e das suas colegas.

Blyton trouxe à imaginação das crianças uma imagem dos colégios internos que nem as saudosas memórias de Kipling em Stalkey & Co. conseguiram. A profusão de partidas, a camaradagem, as intrigas, o empenho nos desportos e nas pantomimas trouxeram uma imagem curiosa destes colégios ingleses. Se nos sete e nos cinco já havia uma espécie de lição das crianças, que descobrem mistérios, aos adultos que não os vêem, em Santa Clara e nas Quatro Torres a ideia é a de um mundo dominado pelas crianças e jovens. Quando a ordem funciona, até a anarquia é autorizada. Que nos colégios se ande em constantes farras inocentes, se tema os mais velhos e se congeminem planos para os fintar, que se faça gato sapato das professoras e, mesmo assim, o mundo nunca nos pareça fora de ordem é um caso curioso. Enid Blyton não tinha a mínima veleidade progressista para fazer das histórias de colégios histórias de subversão; estas histórias são, aliás, histórias de ordem, de um mundo com pouca presença adulta, em que a pouca que existe é suficiente para manter a carruagem nos eixos, mas sem ver o que vai lá dentro.

Mistério

Frederico Trotteville é provavelmente a criança mais complexa que Enid Blyton bosquejou. É mimado, é convencido, quer atenção, mas é também muito mais inteligente do que os amigos, tem um manancial de recursos que nenhum outro tem e é de uma generosidade sem par. Os defeitos e as qualidades misturam-se constantemente, com a generosidade a servir para conquistar os amigos e a empáfia a lutar com um verdadeiro carinho por todos. As histórias de Frederico (ou Gordo) e do seu grupo já são histórias de mistério, mais do que de aventura.

Primeiro título da colecção que revelou a personagem de Frederico Trotteville (1943)

Sempre perseguidos por um polícia (O Arreda) sisudo a quem pregam partidas inocentes, as crianças divertem-se com os disfarces de Frederico, com os seus dotes de ventríloquo e com os mistérios que surgem à volta deles. Este é já um mundo mais perigoso, em que às crianças não basta encontrar mistérios – é preciso resolvê-los. É frequente o vilão desconhecido ou escondido, que tem de ser encontrado pelo grupo, e muitas vezes capturado à custa dos truques do Gordo. O Gordo não teve o êxito dos Cinco e dos Sete; no entanto, são suas as histórias mais desenvolvidas de Enid Blyton e aquelas em que aparecem verdadeiros truques detectivescos (da tinta invisível ao sair de um quarto trancado) que o leitor pode experimentar em casa.

O Segredo

Em Portugal, a colecção dos segredos – a primeira colecção de Enid Blyton com verdadeiro êxito – foi publicada como Colecção Mistério. A capa dura e o desenho evitavam a confusão com a colecção anterior. No entanto, o nome original é mais adequado, porque, do ponto de vista infantil, estes livros tratam mais de proteger um segredo do que de encontrá-lo. A Ilha Secreta, verdadeiro torrão para o imaginário infantil, trata de um grupinho de crianças que encontra por acaso uma ilha deserta e ficam – para alívio das suas cabeças chagadas por uns tios que substituem os pais pretensamente mortos – a viver nela.

A Colecção Mistério em Portugal

Toda a ideia de independência, a construção da casa, o arranjar alimentos, fazem da estadia na ilha uma verdadeira aventura de refundação de uma sociedade. Os miúdos estão a começar um mundo, a aproveitar o que a Natureza lhes dá e a viver do selvagem; o mais importante, porém, é a difícil preservação do segredo, já que são procurados por toda a parte. A ideia de fazer parte de um segredo, a ideia de posse de um território, a ideia de independência, tudo isto faz da série uma das mais apetitosas colecções de Enid Blyton. Não tem artistas de circo, grandes vilões, ou partidas loucas. Tem apenas tempo e um pedaço de terra. E isso, como Enid Blyton bem mostrou, basta para entreter uma criança.

Carlos Maria Bobone é licenciado em Filosofia. Colabora no site Velho Critério.