A frase feita

“Não faltem com o vosso voto. Não o desperdicem com forças inconsequentes. Não troquem o certo pelo incerto.” (Jerónimo de Sousa)

Querem saber se um político está preocupado? Então, ouçam-no. A frase em cima mostra que Jerónimo de Sousa acha que o eleitorado comunista pode estar a escapar mais depressa do que um preso em fuga do Linhó. Primeiro, nas legislativas, os comunistas tiveram menos 85 mil votos do que o BE. Depois, na “geringonça”, o PCP tem visto o Bloco a roubar-lhe as suas bandeiras tradicionais, sem cerimónia nem hesitação.

Sobram as autarquias. Até hoje, o Bloco só conseguiu governar num município — e correu mal. Por isso, os comunistas podem dizer, com indisfarçável felicidade, que o BE é um partido de elites que não tem uma real implantação na “classe trabalhadora”.

Se até isso mudar, uma irritação política pode transformar-se numa ameaça existencial. A sondagem do JN sobre Lisboa, que mostrava o PCP a perder um vereador e o BE a ganhar um, deve ter sido lida por Jerónimo de Sousa com susto e pavor. Caso a 1 de Outubro os comunistas sejam humilhados, segue-se uma guerra civil.

A frase desfeita

“Ainda estamos a tapar buracos das trapalhadas que vocês fizeram” (Teresa Leal Coelho)

Já se sabe que uma eleição autárquica não é um concurso para Miss Simpatia. Mas, mesmo assim, alguém poderia explicar a Teresa Leal Coelho que também não é um concurso para Miss Antipatia.

A candidata do PSD deu vários sinais de que é uma fervorosa adepta do estilo bulldozer. E há dias mostrou que essa tendência não se limita a adversários (que já deviam estar à espera) ou a jornalistas (que já deviam estar habituados) — inclui também transeuntes inocentes.

Numa acção de campanha, Teresa Leal Coelho cruzou-se com um homem que recebeu um panfleto do PSD mas avisou: “Somos adversários, sou CDU”. Uma hipótese seria sorrir e seguir em frente. Mas Teresa Leal Coelho optou por outra resposta: “Ainda estamos a tapar buracos das trapalhadas que vocês fizeram”.

João Soares disse em tempos uma frase que ficou célebre sobre um dos seus adversários (que, aliás, foi a primeira escolha do PSD para a campanha deste ano): “Santana Lopes tem mel”. Não diria seguramente o mesmo sobre Teresa Leal Coelho.

A frase perfeita

“As pessoas ainda me chamam: ó presidente!”. (Isaltino de Morais)

É a descrição perfeita de como Isaltino de Morais olha para Oeiras, para a campanha e para si próprio. Na prática, ele julga-se o legítimo proprietário de Oeiras e pensa que foi injustamente espoliado e exilado por forças ocultas.

Todas as suspeitas, acusações e condenações são irrelevantes. Aliás, não são irrelevantes: são, apenas, uma punch line. Um dos seus apoiantes percebeu na perfeição que, onde uns vêem gravidade, outros podem encontrar descontração, ao dizer numa acção de campanha: “Eu tenho conta na Suíça. Na pastelaria Suíça. Não se ria. Uma vez fui lá roubar uma caixa de bombons e fiquei lá com uma conta por pagar”.

Se um adversário diz uma coisa destas, o problema é de Isaltino; se um apoiante diz uma coisa destas, o problema é nosso. Porque quer dizer que já nem se sente a necessidade — que seria básica — de disfarçar.