A atriz Mira Sorvino garantiu que nunca mais irá voltar a trabalhar com Woody Allen, numa carta aberta à filha adotiva do realizador, Dylan Farrow — que há anos o acusa de abuso sexual –, a quem pede desculpas por não ter acreditado nas suas acusações.

“Desculpa, Dylan! Não consigo sequer imaginar como te sentiste, todos estes anos, enquanto vias alguém que disseste que te tinha magoado em criança, uma criança vulnerável ao seu cuidado, a ser tantas vezes enaltecido, incluindo por mim e por tantos outros em Hollywood que o admiravam e te ignoravam. Enquanto mãe e mulher, isto parte-me o coração. Desculpa!”

Sorvino trabalhou com Woody Allen no filme “The Mighty Aphrodite” (“Poderosa Afrodite”), em 1995, com o qual venceu o Óscar de Melhor Atriz Secundária. Na carta divulgada no Huffington Post, a atriz começa por explicar que, quando trabalhou com o realizador, era “uma jovem atriz naive” e que acreditou nos media, que consideravam as acusações de Dylan uma “consequência” do conturbado divórcio dos pais: Mia Farrow e Woody Allen.

Mira Sorvino — uma das atrizes que acusou o produtor Harvey Weinstein de assédio sexual — refere ainda que cresceu a admirar o trabalho de Allen. Durante as filmagens, acrescenta, a relação entre ambos era “amigável” e o realizador nunca “ultrapassou os limites”.

“Pessoalmente, nunca vivi aquilo que agora é descrito como um comportamento inapropriado para com jovens raparigas. Mas isso não desculpa o facto de ter ignorado a tua história porque queria desesperadamente que não fosse verdade.”

“Estamos numa altura em que tudo tem de ser reexaminado. Este tipo de abusos não pode continuar. Se isto implica destruir velhos deuses, que seja. (…) Envio-te amor e inclusão e admiração pela tua coragem durante todo este tempo. Eu acredito em ti!!! Estou-te agradecida e admiro a tua integridade e coragem, uma mulher que ficou só todos estes anos a contar a sua dolorosa verdade. És uma verdadeira heroína e estou contigo”, concluiu Mira Sorvino.

Num artigo para o Los Angeles Times, publicado a 7 de dezembro, Dylan Farrow disse que foi abusada sexualmente por Woody Allen quando tinha sete anos e criticou a atitude de Hollywood perante o realizador, apesar das acusações.

“Não é apenas o poder que permite aos homens acusados de abuso sexual continuarem com as suas carreiras e com os seus segredos. É também a nossa escolha coletiva de olhar para situações simples como se fossem complicadas e para conclusões óbvias como se fossem dúbias. O sistema funcionou durante décadas para Weinstein. Continua a funcionar para Woody Allen.”

Também a atriz Greta Gerwig, que trabalhou com Woody Allen no filme “To Rome With Love” (“Para Roma com Amor”) em 2012, disse que não voltaria a trabalhar com o realizador. “Se tivesse sabido o que sei hoje, não teria participado no filme. Não voltei a trabalhar com ele e não voltarei a trabalhar para ele novamente”, afirmou a realizadora de “Lady Bird” — filme que venceu dois Globos de Ouro — numa entrevista ao jornal The New York Times. “As duas peças de Dylan Farrow fizeram-me perceber que aumentei a dor de uma outra mulher e fiquei de coração partido com essa constatação.”

Woody Allen sempre negou as acusações da filha adotiva.