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Congresso do PSD

Rio informa Costa que já tem parceiro de tango (mas não de Governo)

Rui Rio está disponível para acordos de regime com o PS, mas rejeita formar Governo com os socialistas. Avisa mesmo o PS que, enquanto partido menos votado, terá de procurar PCP e BE.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Primeiro aviso do novo líder do PSD: Costa não terá em Rio um parceiro de Governo, mas um parceiro de pactos de regime. Rui Rio arrancou o maior aplauso da noite quando disse que falar em Bloco Central era como “discutir o sexo dos anjos“, já que o PSD jamais aceitará ser parceiro de Governo de um PS que não ganhou as eleições. “Não existe, nem existirá [Bloco Central]“, chegou a dizer o novo líder. Pelo menos, nas atuais circunstâncias. Coisa diferente é ser parceiro de tango para pactos de regime. Aí, Rui Rio defendeu que o PSD seja um “partido disponível para, em nome do superior interesse nacional, procurar dialogar e resolver com os outros, o que sozinho jamais conseguirá com a indispensável eficácia.”

Mas se não discute o sexo dos anjos, Rio também avisa que não será ‘anjinho’: ” Uma coisa é estarmos disponíveis para dialogar democraticamente com os outros e cooperarmos na busca de soluções para os graves problemas nacionais que, de outra forma, não é possível resolver. Coisa diferente é estarmos disponíveis para nos subordinarmos aos interesses dos outros“. A última vez que o PSD deu a mão ao PS foi precisamente no início da liderança de Passos Coelho, que José Sócrates considerou um parceiro de tango — “são preciso dois para dançar o tango”, disse então — por o líder do PSD o ajudar a viabilizar Programas de Estabilidade e Crescimento na Assembleia da República.

O novo líder do PSD visou depois os “dirigentes do PS e dos outros dois partidos de extrema-esquerda, quando se apressam a referir que a coligação parlamentar está segura e que não há qualquer hipótese de um Bloco Central. Perdem tempo com o que não existe nem existirá”. Rui Rio adverte que “na ânsia” de quererem marcar presença no “teatro mediático”, PS, PCP e Bloco de Esquerda “até se esquecem do mais óbvio: que não ganharam as eleições e que, em nenhuma outra circunstância, o PS pode liderar um Governo, em face dos resultados das últimas legislativas“.  Ou seja: se não ganhar eleições, o PS só pode ser poder se voltar a montar uma “geringonça” com PCP e Bloco de Esquerda.

Outro dos grandes aplausos da noite foi quando Rio, numa clara resposta aos que o acusam de falta de ambição e de não ter um discurso vencedor, explicou que não quer ser segundo e colocou como fasquia ganhar as eleições legislativas de 2019:

O PSD é um grande partido de poder. Por isso, o seu objetivo é sempre ganhar. Sempre que nos candidatamos, o nosso imperativo é sermos os primeiros”.

Costa “governa mal, mesmo quando parece que governa bem”

Mas para ser primeiro, Rui Rio precisa de vencer o PS e por isso também não poupou o Governo de António Costa. Começou, desde logo, por dizer que o que “distingue” o PS do PSD é olhar mais para “uma construção sólida e segura do futuro coletivo” e menos para “o presente” e a “popularidade imediata”.

Rui Rio acrescentou ainda que um Governo que “não aproveita um ciclo económico positivo” é um Governo que “governa mal, mesmo quando pode parecer que governa bem”. O novo líder do PSD deu depois o exemplo da vinda da Google para Portugal, em que, num primeiro momento, o Governo “anunciou que conseguiu trazer para Portugal um grande investimento estrangeiro”, mas quando questionado sobre a localização, confessou que “nada teve a ver com a vinda desse investimento”.

Para o antigo autarca do Porto, este é um “exemplo de uma governação bem mais preocupada em mostrar-se do que em fazer” e “em mostrar como seu, mesmo aquilo que não o é.” Rio aproveitou até para uma farpa em jeito de falácia à dialética do PCP: “Não sei se, no caso concreto do investimento estrangeiro, estamos perante uma política patriótica e de esquerda ou se de uma cedência ao grande capital“.

Rio quer reformar Justiça

Rui Rio teve nas críticas à justiça uma das maiores polémicas da sua candidatura à liderança do PSD. Mas, no arranque do Congresso, não abdicou do tema. Defendeu que é preciso reformar a justiça para que tenha “mais celeridade, mais meios e melhor gestão, melhor qualidade legislativa, melhores conhecimentos técnicos, mais recato no seu funcionamento, melhor cumprimento do segredo de justiça, melhor escrutínio democrático e mais transparência.” O novo líder do PSD defendeu ainda que é necessário “combater a politização da Justiça, assim como temos de evitar a judicialização.”

Neste ponto, Rio não resistiu a mais uma farpa, desta vez à comunicação social, colocando uma série de questões: “Quantas vezes, ao abrigo de uma suposta liberdade não se agridem os direitos dos mais vulneráveis? Quantas vezes, nesta sociedade que se quer democrática, cidadãos não viram impunemente a sua condenação ser feita na comunicação social, em vez dos tribunais, que é o lugar certo e legal para se fazer os julgamentos no momento próprio?”

Aquele que foi sempre apontado como um dos grandes defensores da regionalização no partido, defendeu outra “grande reforma” que continua por fazer: a “descentralização”. Esta é uma das matérias de regime que quer discutir com o PS, já que é “uma exigência democrática que o desenvolvimento e a igualdade de oportunidades sejam uma realidade para todos o os portugueses na mesma medida”.

Elogios a Santana, a Passos (e ao CDS)

Rui Rio não deixou de reconhecer a importância da governação de Passos Coelho em que ,”juntamente com o CDS — que daqui saúdo em especial“, o PSD foi “chamado a cumprir patrioticamente um exigente programa de austeridade, desenhado e negociado por outros”. Ou seja: o PS, que deixou “o país no buraco financeiro mais negro do pós-25 de Abril“.

Para Rio, o que fica da liderança de Passos é um “trabalho de governação que a história reterá como de salvação nacional em face da situação que, sem qualquer responsabilidade, herdou”. E acrescentou: “O tempo é o melhor juiz da nossa passagem por este mundo”.

Arrancando aplausos do Congresso — com quase todos os delegados de pé — Rui Rio enviou um “cumprimento particular” a Santana Lopes “não tanto” por ter sido presidente do PSD, mas “porque teve a coragem e a humildade democrática de disputar as recentes eleições diretas“. O novo presidente quis ser conciliador, acrescentando que “parte da vitória de um qualquer vencedor, pertence sempre aos seus adversários.”

Enviou ainda uma última farpa a Miguel Relvas, Miguel Pinto Luz e até Luís Montenegro, quando disse que parte da sua vitória é daqueles que estiveram de “forma digna e sincera” com Santana Lopes. Ou seja: sugeriu que houve quem não tivesse estado e, mesmo sem os nomear, deixou esta ideia nas entrelinhas. E voltou a visar outros “inimigos” internos, tal como tinha feito na noite eleitoral:

Vamos ser realistas. Houve quem falhasse. Houve quem se tivesse afastado dos valores éticos que todos professamos, mas não podemos confundir a árvore com a floresta”. Mais uma vez sem nomear.

Acabar com “vetos de gaveta” a novos militantes

Num discurso para dentro do partido, Rui Rio — que enquanto secretário-geral fez uma das maiores revoluções na organização do partido desde a fundação — promete fazer novas mudanças. O novo presidente defendeu que é necessário “substituir os vetos de gaveta à entrada de novos militantes por medo de se poder perder a pequena influência local, pela entrada livre de todos os portugueses (…) que pretendam militar de forma séria e desinteressada no PSD”.

Rui Rio defende ainda um “funcionamento administrativo moderno” para o PSD com “regulamentos eficazes e uma fiscalização interna independente, capaz de garantir aos seus militantes em particular e, a toda a sociedade em geral, uma completa transparência em todo o seu funcionamento”. E também quer “contas equilibradas” no PSD.

O novo presidente social-democrata discursou com o seu sotaque do norte (muito diferente do de Passos Coelho), mas com um discurso com o tempo médio de Passos Coelho: 40 minutos.

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