“Tessa e Scott acabaram de patinar. Os Jogos Olímpicos de Inverno chegaram ao fim, eles derreteram o gelo. Todos nós somos canadianos a partir de agora”, dizia um dos milhares e milhares de tweets após a final da prova de dança no gelo. Que, por si só, foi das mais comentadas. Pela segunda medalha de sempre de uma dupla de irmãos (americanos), Maia e Alex Shibutani; pela prata conquistada pela azarada Gabriella Papadakis (com Guillaume Cizeron), que ficou sem parte do vestido no programa curto; pela excelência desportiva das atuações em causa. Mas, bem acima de tudo, pela consagração total de Tessa Virtue e Scott Moir, os eternos campeões da especialidade que continuam a apaixonar os canadianos e não só.

Juntos, são os melhores. E comecemos pelos números, que são arrasadores: foram três vezes campeões mundiais (Torino em 2010, Nice em 2012 e Helsínquia no ano passado), além de terem ainda somado três pratas (2008, 2011 e 2013) e um bronze (2009); foram oito vezes campeões nacionais entre 2008 e 2018, onde confirmaram a hegemonia em Vancouver; ganharam um ouro e uma prata em Mundiais de Juniores; somaram inúmeros pódios em Grand Prix; e conquistaram já cinco medalhas em Jogos Olímpicos, entre três ouros (dança no gelo em 2010 e 2018, além do primeiro lugar por equipas nesta edição) e duas pratas (ambas na edição de Sochi, em 2014, na dança no gelo e por equipas). Daqui, estamos tratados.

No entanto, não foi esse o currículo que mais impressionou em Pyeongchang, mas sim a química perfeita entre ambos durante os seus programas. Tanto que, navegando um pouco pelas redes sociais, fala-se tanto ou mais do “quase beijo” no final da prova livre, da saída do pódio e da possibilidade de assumirem uma relação do que propriamente da medalha conseguida.

https://twitter.com/yagirldin/status/965827530954563584

E para se perceber melhor o que está em causa, aqui fica o esquema com o som do Moulin Rouge que valeu o oitavo triunfo em campeonatos nacionais e que foi também utilizado na consagração da dupla em PyeongChang.

https://www.youtube.com/watch?v=hO2xBr5EmSo&t=4s

Atenta ao fenómeno, a revista Time foi explorar a ligação entre o par que faz furor na Coreia do Sul. E que se conhece há pouco mais de duas décadas, por “influência” da tia de Scott, hoje com 30 anos, que era treinadora de dança no gelo de ambos e achou que o emparelhamento com Tessa, de 28, poderia funcionar. Acertou na mouche. Nessa altura, quando tinham nove/dez anos, tiveram um namorico durante alguns meses que terminou. Em termos amorosos, claro; no resto, ainda hoje estão juntos (não se sabendo, todavia, por quanto mais tempo apenas por causa da idade).

[Veja aqui o vídeo sobre a história de amor platónico de Tessa e Scott]

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Mesmo depois de dois anos de separação após os Jogos de Sochi, em 2014, voltaram para conquistarem de novo o ouro, mas o amor que todos reclamam continua a ser algo “platónico”. Scott já teve as suas namoradas, Tessa considera-se uma péssima companheira porque tem o foco a 100% no desporto. “Somos grandes amigos, os melhores amigos”, dizem. “É uma parceria especial”, defende Tessa Virtue. “Tem tudo a ver com amizade, a nossa ligação profissional é fortíssima e temos muito orgulho nisso”, acrescenta Scott Moir, prosseguindo: “Estamos sempre a contar histórias. Reagir no gelo, como homem e mulher, é algo romântico, mas o que temos é mesmo uma excelente relação”. Ainda assim, basta atentar num título dos canadianos da CTV News para se perceber a reação geral: “Eles estão apaixonados: a internet não acredita que não tenham uma relação”. Ou mesmo a BBC: “Será esta a maior história olímpica de amor alguma vez contada?”.

https://twitter.com/ionicasmeets/status/964883193441775616

No rescaldo do segundo ouro em PyeongChang, foram muitas as conferências, zonas mistas e entrevistas. E foi daí que saiu a grande revelação de todas (e que não tem nada a ver com o que as pessoas mais queriam ouvir): Tessa nem sempre quis fazer dupla com Scott mas sim com o seu irmão mais velho, Danny Moir. “Nunca pensei tornar-me a mulher com mais medalhas de sempre na dança no gelo, apesar de ter escrito no jornal da escola que um dia gostava de ser uma atleta olímpica com o Danny Moir. Sendo assim, fiquei perto”, contou sobre o também patinador (sem tanto sucesso) que tem hoje 37 anos. O Huffington Post fez também uma compilação com as melhores imagens do par nos últimos 20 anos.

Numa das primeiras paragens na zona mista, a cumplicidade entre ambos era evidente. E com um pormenor engraçado: quando lhe foi perguntado qual a primeira música que mais ouviam (como forma de inspiração), Scott respondeu Unstoppable, de Sia, enquanto Tessa olhava surpreendida e dizia “Eu também!”. Mesmo sem combinar, estão talhados um para o outro. Na pista de gelo, claro. E apenas por aí, como ambos continuam a confirmar. “Adoramos trabalhar juntos, adoramos perceber como é que podemos fazer as coisas. O estado da nossa relação é ‘não tens nada a ver com isso’ mas posso dizer que nos últimos dois anos estivemos numa relação estreita com o nosso desporto”, disse Scott Moir numa conferência de imprensa.

Nascida em Ontario, Tessa Virtue chegou a viver durante um ano nos Estados Unidos (no Michigan) e estudou psicologia na Universidade de Windsor, tendo acabado a licenciatura na Universidade de Western Ontario. Nascido em Ontario, Scott Moir esteve desde pequeno ligado à patinagem por influência da família (a mãe e a tia são treinadoras, os irmãos tiveram também carreira na patinagem e os primos participaram no Campeonato Nacional de Patinagem Sincronizada em 2007) mas teve formação em eletrónica no ensino secundário. Juntos no gelo, são os melhores. Tanto que todos querem que fiquem juntos. Mas cada um vai seguir o seu caminho, ficando para sempre na história como o par que revolucionou a modalidade.

Como? Nem tudo se resume ao amor platónico. A CBC conta um episódio que ocorreu antes do início da competição: quando já todos os pares tinham saído do gelo porque acabara o tempo de treino, os canadianos por lá continuavam a trabalhar as suas manobras — e tiveram mesmo de ser chamados à atenção para pararem. Depois, foi uma questão de talento e fibra: sabendo da grande nota que o par francês tinha obtido, e que encurtava por completo a margem de erro, Tessa e Scott mostraram a ténue linha que separa os campeões dos grandes patinadores, aguentaram os nervos e fizeram um esquema tão bom que juntaram ao recorde mundial do programa curto (83.67) o recorde mundial combinado (206.07).

“Temos muito orgulho em sermos canadianos e em podermos inspirar os outros. Mas também sabemos que existe uma nova geração a aparecer no nosso país que vai conseguir ultrapassar os nossos resultados. Somos tão afortunados por termos uma relação tão especial durante 20 anos, por termos tanto prazer em ir trabalhar todos os dias porque vamos estar um com o outro. Já passámos por tanto juntos, aprendemos muitos, ainda nos rimos juntos… Tivemos dois dias genuínos. Se teremos agora uma relação? Essa pergunta é sinal de que fazemos bem as nossas ‘personagens’ na atuação mas é apenas isso. Se foi o final, também não sabemos, mas se tiver sido foi algo que saiu do fundo do coração. Talvez seja tempo de sermos apoios e modelos para a nova geração, vamos ver”, destacaram depois da medalha. Mas esta é uma história longe de estar acabada.