Gabriella Papadakis descreveu o episódio com apenas quatro palavras: “Foi o pior pesadelo”. E compreende-se. Mas nem tudo nesta história tem de ser visto como um pesadelo, até porque o sonho das medalhas continua em aberto para um par que é tetracampeão europeu e bicampeão mundial (em 2015 e 2016, somando ainda uma prata no ano passado).

Tal como nos Jogos Olímpicos de Verão, também nos de Inverno existe uma intensa preparação antes da competição. Ou, como se destaca entre os atletas em relação a muitas provas, são dois/três anos de privações (muitos deles ainda na casa dos 20, o que torna a situação ainda mais “custosa”) para dois/três minutos que se querem de glória. E que, muitas vezes, vão por água abaixo em dois/três segundos por uma falsa partida, uma lesão ou uma decisão errada. Aqui, foi simplesmente azar (e como conta o The Guardian, um azar que já aconteceu com outros atletas noutras edições).

No início da qualificação da prova de dança no gelo, a francesa de 22 anos, que faz par com Guillaume Cizeron há alguns anos mas só agora conseguiu alcançar os Jogos de Inverno (na edição de 2014, em Sochi, a França foi representada por Nathalie Péchalat/Fabian Bourzat, que terminaram no quarto lugar, e Pernelle Carron/Lloyd Jones, 15.º posicionados), parte do vestido saiu do sítio durante um movimento do programa com músicas de Ed Sheeran (Shape of You e Thinking Out Loud) e ficou com o mamilo à mostra, numa imagem que não demorou a tornar-se viral.

Ainda assim, e apercebendo-se do que se passara, Gabriella conseguiu recompor-se, endireitou o vestido e cumpriu o resto do programa curto com sucesso, tanto que acabou com a segunda melhor pontuação entre as 24 duplas presentes, apenas superada pelos canadianos Tessa Virtue/Scott Moir, medalha de ouro em 2010 e de prata em 2014 na dança no gelo que conseguiram agora em PyeongChang (onde já venceram o ouro por equipas) estabelecer um novo recorde mundial (83.67). De referir que o par francês já ganhou aos principais adversários pelo ouro na final do último Grand Prix, em Nagoya.

Atendendo à condicionante inicial, a dupla francesa teve uma prestação fantástica, mas nem por isso Gabriella deixou de abandonar a pista em lágrimas rumo à zona mista. “Se estou bem? Não estou ótima…”, começou por referir.

“Foi o pior pesadelo e aconteceu nos Jogos Olímpicos. Aconteceu logo nos primeiros segundos, estava distraída. Mas depois daquilo, disse para mim mesa que não tinha outra opção que não fosse seguir em frente. Devemos ficar contentes por termos feito uma performance tão boa com tudo o que aconteceu. Senti logo o que se tinha passado e rezei, era tudo o que podia fazer”, salientou a jovem atleta já mais calma na conferência de imprensa, citada pelo US Today. “É frustrante perder alguns pontos por causa de um problema do vestuário porque não é para isso que nos preparamos e treinamos, mas devemos estar orgulhosos com o que conseguimos fazer”, acrescentou o par da gaulesa, Guillaume Cizeron.

A transmissão da OBS (Olympic Broadcasting Services), que não só passou a repetição do momento como a colocou em slow motion, já provocou também algumas críticas, a primeira das quais do campeão olímpico de ginástica em 2004, Kyle Shewfelt. “É o diretor da OBS que escolhe as imagens em slow motion e aquela situação de Gabriella Papadakis no fim não precisava de ser incluída. Muito desrespeitoso”, escreveu o canadiano, que vibrara antes com a atuação de Virtue e Moir.