Carvalhal. “E se o Van Basten jogasse no Braga?”

22 Setembro 2017112

No fim-de-semana do dérbi de Sheffield, o treinador do Wednesday fala-nos da quarta-feira europeia com o Tottenham, das caneleiras nos treinos do Porto, dos casos do Sporting e da aventura no Besiktas

Hoje abrimos assim, com três perguntas. Quem é o único treinador a jogar a final da Taça de Portugal com uma equipa do terceiro escalão, pelo Leixões em 2002? Quem é o treinador vencedor da primeira Taça da Liga portuguesa, pelo Vitória de Setúbal em 2008? Quem é o melhor treinador do Sheffield Wednesday nos últimos 50 anos? Para todas as três perguntas, uma só resposta: Carlos Augusto Soares da Costa Faria Carvalhal. Na época de jogador, só Carvalhal. Na era de treinador, o prefixo Carlos junta-se ao apelido de defesa-central com 197 jogos na 1.ª divisão. O seu nome está escrito na história do futebol português e até inglês. Craque em toda a linha, até na arte de contar histórias do arco da velha. Encontramo-lo mais descontraído que nunca na véspera do dérbi mais antigo do mundo, o de Sheffield, entre Wednesday e United, para a 2.ª divisão inglesa.

Como é viver a intensidade de um dérbi desta magnitude?
Sheffield é uma cidade histórica, em tudo e até ao nível do futebol. O nosso clube, por exemplo, tem 150 anos de vida e isso é muito significativo em qualquer parte do mundo. Viver isso por dentro é formidável, sobretudo se temos um rival tão perto de nós. Uma cidade com dois clubes na mesma divisão é uma emoção única, como em Manchester, Londres ou Liverpool. Notam-se as emoções à flor da pele e a importância extrema para a vida das pessoas.

O dia de futebol é por excelência ao sábado e é um dia de socialização. Começa-se bem cedo, nos pubs, em que eles se juntam para falar de futebol. Há depois o ir para o estádio, o entoar dos muitos cânticos para os jogadores e até para o treinador, o entoar cânticos de provocação em termos jocosos em relação à equipa adversária, o vibrar com um canto, com um livre direto, com um golo. Depois, há o pós-jogo e mais socialização. O voltar ao pub para beber mais umas cervejas, o continuar a cantar e a viagem de regresso a casa. É uma catarse de necessidade social, que faz com que estes adeptos sejam realmente diferentes. Daí que vejamos famílias inteiras nos estádios, entre avós, pais, mães, netos, filhos.

Como são os adeptos aí?
Para se entender o adepto inglês, é preciso compreender a cultura e o modo de vida deles. O dia de futebol é por excelência ao sábado e é um dia de socialização. Começa-se bem cedo, nos pubs, em que eles se juntam para falar de futebol. Há depois o ir para o estádio, o entoar dos muitos cânticos para os jogadores e até para o treinador, o entoar cânticos de provocação em termos jocosos em relação à equipa adversária, o vibrar com um canto, com um livre direto, com um golo. Depois, há o pós-jogo e mais socialização. O voltar ao pub para beber mais umas cervejas, o continuar a cantar e a viagem de regresso a casa. É uma catarse de necessidade social, que faz com que estes adeptos sejam realmente diferentes. Daí que vejamos famílias inteiras nos estádios, entre avós, pais, mães, netos, filhos.

Alguém se mete contigo na rua?
Desde que estou em Inglaterra, nunca ouvi uma boca foleira de um adepto do Sheffield Wednesday a propósito do que quer que seja. Muito pelo contrário: quando estou na rua, no supermercado ou num restaurante, ouço elogios sobre a forma como me empenho, a forma como a equipa está a conseguir bons resultados, a forma como nunca viramos a cara à luta e essas coisas.

E que tal a convivência com os adeptos do Sheffield United?
Os adeptos do Sheffield Wednesday têm um cântico muito conhecido ‘we’re sheffield wednesday aren’t we?’. Uma ou outra vez, os adeptos do Sheffield United viram-se para mim e dizem-me ‘we’re blades aren’t we?’. Blades é a alcunha do United, eheheheh. Fora isso, nada de mais. Quer dizer, às vezes tiram fotos comigo.

Os adeptos dos blades?
Ya. O que eles fazem a essas fotos é que já não sei, eheheh.

Nervoso para o dérbi de domingo?
Tive a felicidade de jogar dérbis bastante emotivos, como Freamunde-Paços, Braga-Vitória, Sporting-Benfica e Besiktas-Galatasaray. Todos têm uma atmosfera especial, como este dérbi de Sheffield. Vou vibrar na hora e guardar essas emoções para contar na próxima entrevista, eheheheheh.

Também foste adepto, imagino.
Siiiiiiim.

És de Braga. Ias muito ao 1.º de Maio?
Muito, muito, com o meu pai e a minha mãe.

A tua mãe?
Também ia, claro. Ficávamos sempre na lateral, perto da maratona, e as pessoas já nos conheciam de ginjeira. Lembro-me de todo o ritual: sair de casa, descer a avenida a pé e entrar no estádio. Tenho bem presente essa recordação.

E jogadores do Braga desse tempo?
Tantos: Conhé, Rolando, Ronaldo, Serra, Garcia, Vítor Oliveira, João Cardoso, Vítor Santos, Artur Schweppes, Lito, Chico Gordo, Chico Faria, Rodrigo, Pinto.

E a rivalidade com o Vitória era mesmo especial?
Atrevo-me a dizer que era mais especial nessa altura, quando eu tinha seis/sete anos. E até antes, pelo que me conta o meu pai e alguns amigos dele. A rivalidade era tanta que, em alguns períodos, havia gozo.

Como o quê?
Como os adeptos do Braga irem deixar um caixão no [Largo do] Toural, em Guimarães. Também havia o outro lado da moeda e os adeptos do Vitória a deixar qualquer coisa em Braga. Agora é uma rivalidade mais esbatida, também por força dos tempos, da educação das pessoas e tudo isso. Houve uma evolução, claramente.

Como eram vividos os jogos do Braga com Benfica, Sporting e Porto?
O lado sul do estádio era aquele que mais enchia nesse tipo de jogos, mas também havia adeptos na bancada dos sócios a gritar golo de Benfica, Sporting e Porto. Agora há muito mais braguistas a torcer pelo Braga do que antes. A nova geração já é muito mais pró-Braga. Há uma parte dos adeptos do antigamente que ainda têm uma costela de Benfica. Ou Porto ou Sporting. Mesmo que eles digam que não, ahahah.

O meu pai era do Sporting e recebia assiduamente o jornal do Sporting. Aliás, aprendi a ler e a escrever com o que tinha lá em casa. Que era o jornal do Sporting. Cresci a lê-lo.

E tu sempre foste Braga?
Sim, sim. O meu pai era do Sporting e recebia assiduamente o jornal do Sporting. Aliás, aprendi a ler e a escrever com o que tinha lá em casa. Que era o jornal do Sporting. Cresci a lê-lo.

Tinhas jeito para o desporto?
Tinha alguma queda, sim, e cheguei a entrar para o hóquei em patins. Eles até me selecionaram.

Onde?
Académico do Braga.

E depois?
Na passagem de um ano para o outro, era preciso patins de bota e os meus pais não tinham dinheiro para um luxo desses.

Usavas o quê?
Os rec-recs.

E?
Em função disso, tive de deixar o hóquei.

Foste para o futebol?
Exatamente, aos 11 anos. Lembro-me perfeitamente. Um jogo de miúdos da minha idade estava no intervalo e perguntei se podia entrar. Foi o início.

Desde aí até aos seniores, há jogadores que te acompanharam sempre?
Rui Barbosa e Quim Alberto, por exemplo. Foram à selecção portuguesa. Como eu.

Foste internacional?
Dos 13/14 anos até aos sub-21, sempre. Até fui o capitão de equipa, porque era o mais internacional.

Que geração apanhaste?
Futre, Sérgio, Eugénio, Paiva, Júlio Sérgio.

Apurámo-nos para o Euro sub-18 em 1984. Se me perguntares, lembro-me melhor da cidade São Petersburgo que propriamente dos jogos. Um czar desenhou a cidade à imagem de Veneza e é lindíssima. Tinha era uma particularidade incómoda: não escurecia totalmente naquela altura, final de Maio e início de Junho, e não dormi uma única noite.

E foram a algum lado?
Apurámo-nos para o Euro sub-18 em 1984. Se me perguntares, lembro-me melhor da cidade São Petersburgo que propriamente dos jogos [Portugal arranca bem, com 3-1 à Grécia, e depois acumula derrotas com Escócia e Irlanda].

Que tal São Petersburgo?
Um czar desenhou a cidade à imagem de Veneza e é lindíssima. Tinha era uma particularidade incómoda: não escurecia totalmente naquela altura, final de Maio e início de Junho, e não dormi uma única noite.

Essa equipa era quem?
Mitó e Júlio Sérgio do Porto, depois Académica e Chaves, respectivamente, Samuel do Benfica, Caetano do Boavista, Futre, Eugénio, Litos, Fernando Mendes e Sérgio do Sporting.

Quem era o selecionador?
José Augusto.

E mais torneios?
Lembro-me de um em específico.

Qual?
O de Cannes, com 15/16 anos. Jogámos com a Holanda e fiquei espantado com o Van Basten. Quando cheguei ao Braga, disse ao presidente, que já não me lembro quem era: ‘vi um jogador espectacular, um holandês chamado Van Basten. Gastem o dinheiro todo se for preciso, ele é fantástico, um craque, vai ser um dos melhores do mundo.’ E se o Van Basten jogasse no Braga?

O que fez ele para ficares assim?
Se não me engano, a Holanda já estava apurada e jogou com alguns suplentes. Por isso, o Van Basten começa do banco. De repente, ele entra e muda aquilo tudo. E eu a pensar ‘que jogador é este?’

Qual foi o resultado?
Empatámos 1-1 e ele marcou o golo da Holanda.

Cruzaste-te com mais génio precoce?
Nas camadas jovens, só me lembro do Maldini, num jogo dos sub-21. E, claro, o Futre.

Pois, imagino.
Ele ia buscar a bola aos laterais ou aos centrais e arrancava. Aliás, a nossa tática era bem simples: dá a bola ao Futre e ele resolve. Era mesmo assim, sabes?

E o que acontecia?
Ou era travado em falta ou chegava à área contrária. Era um fenómeno. Já se sentia isso, tinha ele ainda 15 anos. Uma curiosidade: o Futre era o meu colega de quarto. Ele escreve isso no primeiro livro dele e conta umas histórias engraçadas. Quando eu escrever um livro, conto o meu lado da versão de uma dessas histórias.

Chuta, sem medos.
Eheheh. Vamos jogar a França e a malta divide-se em grupos: eu e o Mito, por exemplo, gostávamos de livros; o resto, que era maioritariamente de Lisboa, só malandragem. Eu e o Mito de cabelinho cortado, a maior parte da malta com o cabelo comprido. E as chuteiras, era tudo Nike, Adidas e tal, eu com as minhas botas Clemente, feitas lá em Braga. Andei com isto até aos juniores.

Chegaram a França e…?
Quando saíamos do país, era quase tudo novidade. Estávamos em França e entrámos num centro comercial. Bem, a malta entra numa loja e começa a meter tudo para dentro de um saco.

Tudo o quê?
Tudo. Chocolates, rebuçados, relógios, óculos, equipamentos da Adidas. Senti-me envergonhado. A sério, não sou melhor ou pior que ninguém, mas senti-me tão envergonhado que aquilo me incomodou e saí logo. Nem entrei em mais loja nenhuma. Nessa noite, o cônsul de Portugal em França foi visitar a comitiva à hora do jantar. O Paulo Futre, que já era formado em malandrice, chegou ali, viu o cônsul e teve uma luz.

Então?
Nós todos vimo-lo a levantar e a falar com alguém da federação, talvez a perguntar a que horas era o treino do dia seguinte ou isso. Quando volta às nossas mesas, diz-nos ‘daqui a 10 minutos, quero-vos todos no meu quarto.’

Que era o dele e o teu?
Isso, o nosso. A caminho do quarto, toda a gente preocupada ‘Paulinho, Paulinho, o que é que se passa?’ e ele ‘já vos digo, já vos digo’.

O Futre vira-se e diz 'estamos todos fodidos, havia câmaras de vigilância na loja e eles sabem o que levámos.' Já havia gajos a chorar e a dizer 'que vergonha, a minha mãe não pode saber' e o Futre não parava 'o cônsul veio cá para dizer-me isto'. Imaginas o cenário? Só que o Paulinho tinha a solução 'Epá, não há problema, já arranjei uma solução: metam tudo em sacos e tragam para aqui. Amanhã, entrego tudo ao cônsul, já combinei com ele e tudo. Se tudo correr bem, o cônsul devolve e o assunto é esquecido'. Beeem, a malta toda vai a correr para os quartos e traz tudo para o nosso. Era tudo: tabaco, relógios, chocolates, roupa. Tudo ali a um canto. Quando acordei, já lá não estava nada. E eu virei-me com cara de caso 'ò Paulo' e ele 'está tudo resolvido'.

Dentro do quarto?
O Futre vira-se e diz ‘estamos todos fodidos, havia câmaras de vigilância na loja e eles sabem o que levámos.’ Já havia gajos a chorar e a dizer ‘que vergonha, a minha mãe não pode saber’ e o Futre não parava ‘o cônsul veio cá para dizer-me isto’. Imaginas o cenário? Só que o Paulinho tinha a solução ‘Epá, não há problema, já arranjei uma solução: metam tudo em sacos e tragam para aqui. Amanhã, entrego tudo ao cônsul, já combinei com ele e tudo. Se tudo correr bem, o cônsul devolve e o assunto é esquecido’. Beeem, a malta toda vai a correr para os quartos e traz tudo para o nosso. Era tudo: tabaco, relógios, chocolates, roupa. Tudo ali a um canto. Quando acordei, já lá não estava nada. E eu virei-me com cara de caso ‘ò Paulo’ e ele ‘está tudo resolvido’. Ao pequeno-almoço, a mesma frase para o resto da malta. Só li no livro, anos e anos depois, que o macaco do Paulo tinha uma tia ou um familiar que ia para Portugal de carro. Então o que ele fez foi ligar à tia ou ao familiar para passar pelo hotel e ficar com o material todo. Ficou o Paulo com tudo. Ninguém soube disso até ao livro. Ele era um universitário destas merdas e nós coitadinhos, ehehehehehe. Nem me apercebi de nada. Nem eu nem ninguém. O Paulo, que craque. Cinco estrelas em tudo.

E tu no mesmo quarto que ele.
E porquê? Ele gostava de jogar às cartas e deitar-se tarde, eu de dormir cedo. Às 10 da noite, já estava a dormir. Conclusão, ele chegava ao quarto e eu já estava tão ferrado que lhe permitia ir fumar à janela e tudo. De manhã, eu acordava cedinho e ia tomar o pequeno-almoço enquanto ele dormia. Era o parceiro ideal dele.

Nunca chegaste a ser convocado para a seleção AA?
Nem para os AA, nem para os bês. Parei nos juniores. Verdade seja dita, estava a anos-luz da capacidade dos titulares e suplentes dos AA. Conheço as minhas limitações, ó Rui.

Foste sempre central?
Sempre.

Por natureza ou?
Nunca fui um primor de técnica, eheheheheh, e era alto. Sempre fui alto para a idade. Tenho uma fotografia em que os médios da minha equipa, que eram o Serrinha, o Rifa e o Manso, davam-me todos pelo ombro. Ou nem isso, eram todos bem mais pequenos que eu. Quando cheguei às camadas jovens, o treinador Palmeirinha mal olhou para mim e traçou o destino ‘ò Carvalhal, vais para central’. Aliás, comecei logo a jogar como titular no Torneio Internacional do Porto.

E eras daqueles que ia lá à frente para marcar golo?
Nem por isso. Era, acima de tudo, um jogador inteligente e tinha futebol na cabeça. Só que não conseguia executar aquilo que pensava. Ou seja, fazia boas coberturas aos colegas porque antecipava os lances. E também deixava o espaço em aberto para o avançado contrário, só que era mais rápido que ele e safava a situação. Também era agressivo no jogo aéreo e na marcação. De resto… Vou dizer-te: o Carlos Carvalhal jogador não jogava na equipa do Carlos Carvalhal treinador. De maneira alguma, eheheheh.

Quando é que começas a jogar na equipa principal do Braga?
Olha, aos 16 anos, já vou aos treinos dos seniores.

Maravilha.
É o Quinito quem me chama. É por isso que apanhei malta muito mais velha.

Quem, por exemplo?
O Reinaldo, o negão grande. Jogou no Boavista e Benfica. Lembro-me perfeitamente de estarmos a jogar no pavilhão, em que só valiam golos de cabeça. Disputei um lance com o Reinaldo e ganhei. Quando a bola já está longe, o Reinaldo dá-me uma cabeçada nos dentes e prccccccc. Vira-se para mim e diz-me ‘dói-te os dentes, miúdo? Se te dói os dentes, tens de ir ao dentista’. Foi a minha vacina de treino.

E ficaste a sangrar?
Claro que sim, mas garanto-te que fui à bola seguinte como da vez anterior. Também eram duros os duelos com o Jorge Gomes, outro ex-Benfica e ex-Boavista. Nunca me deixei ficar e marquei alguns pontos, apesar de ser realmente um miúdo, muito mais novo que eles.

Quando é que passaste em definitivo a sénior?
Pelo Quinito, estreei-me com o Espinho. Ganhámos 2-0.

Como era o Quinito?
Espetacular, uma pessoa com uma filosofia de vida muito própria e completamente desprendido dos bens materiais.

Como assim?
Se tivesse de pagar o jantar aos amigos, pagava. Se nos visse num bar ou isso, pagava. Se nos quisesse levar a outro sítio, pagava. Era assim. Com um gosto de viver muito grande e não entendia o futebol como um trabalho.

Se alguém marcasse um golo de pontapé de bicicleta, o Quinto invadia o campo, dava uma cambalhota e depois um beijo ao jogador. Ou então alguém marcava um golo de fora da área em que a bola entrava no ângulo superior e ele entrava a dizer 'acabou o treino, a partir daqui não há mais nada para acontecer'. Tinha destas cenas curiosas, espontâneas, fora da caixa.

Então?
Para ele, o futebol era arte. Agora, por exemplo, caiu-se num exagero. Há pessoas que tratam das pernas dos jogadores, outras dos braços, outras das unhas, outras das costas e não sei mais o quê. Com o Quinito, era tudo muito simples: bastava uma bola. E bora lá, vamos jogar e desfrutar. Se alguém marcasse um golo de pontapé de bicicleta, o Quinto invadia o campo, dava uma cambalhota e depois um beijo ao jogador. Ou então alguém marcava um golo de fora da área em que a bola entrava no ângulo superior e ele entrava a dizer ‘acabou o treino, a partir daqui não há mais nada para acontecer’. Tinha destas cenas curiosas, espontâneas, fora da caixa. Tenho uma história engraçada com ele.

Conta lá.
Fomos jogar ao White Hart Lane, com o Tottenham. Cá, em Braga, perdemos 3-0. Lá, em Londres, levámos 6-0. Foi a maior derrota da minha vida, como jogador e como treinador. Quando acabou o jogo, fomos para o autocarro e ficamos à espera do Quinito, que tinha ido à sala de imprensa. Como o autocarro estava parado à frente dos balneários e do parque de estacionamento, só se viam os carros dos jogadores do Tottennham. Aquilo eram Mercedes para um lado e Ferraris para o outro. Chega o Quinito e ele entra no autocarro ao mesmo tempo que o Glenn Hoddle sai do balneário com a mulher ou a namorada, uma loira toda bonita, espampanante. O Quinito entra, olha para nós, todos cabisbaixos, desejosos de sair dali, e começa a dizer-nos ‘o que é que vocês querem pá? Olhem bem para vocês, feiinhos, marrecos, pobres, o que é que vocês querem? Olhem para ali: estádio bonito, grandes carros, jogadores altos, bonitos, loirinhos, namoradas todas bonitas, ao contrário das vossas, todas feias, e queriam ganhar? Queriam ganhar? Seis-zero foi muito bom. Ò chefe, music, music.’ E o condutor do autocarro ligou o rádio. ‘Solta o colete’, dizia ele. Ele tinha essas coisas: como não valia a pena discursar sobre o 6-0, ele chegou ali e aliviou aquilo, mudou o registo por completo. Aliás, ainda fomos beber umas cervejas e uns copos de vinho tinto a contar anedotas uns aos outros. O Zé Luís Bolinha, um extremo, exagerou na bebida e não queria dormir. Virava-se para o Quinto ‘ò Quinito, você é meu amigo, você é o meu pai aqui.’ E o Quinito ‘epá, vai lá dormir que já são três da manhã.’ Que circo, pá.

Zé Luís Bolinha?
Lembro-me como se fosse hoje o primeiro dia dele, como reforço. Chegámos já equipados ao 1.º Maio e ele apresentou-se mesmo à brasileira, com aquela calça branca que era uma g’anda pinta. O Quinito olhou e ‘epá, quem és tu pá?’ E ele ‘sou o Zé Luís, um jogador novo’. O Quinito chamou o adjunto que estava a carregar as bolas e passou-lhe o saco. ‘Não vieste aqui para jogar pá, para isso já aqui temos muitos’ e meteu o rapaz a carregar as bolas. Foi logo o batismo. Acho que ficou conhecido por Bolinha por conta desse episódio. Era assim, o Quinito. Claro que isso resultava num clube familiar. Como o Braga, como o Espinho.

Já o Porto.
Fui com ele para o Porto.

Ai foste?
Somos do mesmo ano.

O do 5-0 do PSV.
Isso e o da frase do Gomes e mais dez. Foi esse ano.

E aí o Quinito, que tal?
Manteve-se fiel àquilo que era, só que o Porto já tinha outra exigência. Aliás, a primeira vez que o Quinito quis sair do Porto, o Pinto da Costa é que não o deixou.

Como é que foste parar ao Porto?
Até podia dizer que o Porto é que me veio buscar porque era um jogador fantástico etc etc e etc, só que o Porto estava em guerra com o Braga, por causa de umas transferências do passado, e falou comigo que estava em final de contrato. A proposta que me apresentaram era uma coisa [Carvalhal faz uma careta engraçada].

Lembras-te dos valores?
Isso não, mas digo-te que ofereciam-me 20 vezes mais do que ganhava no Braga. Seguramente, 20 vezes mais. Fiquei contente por ir dar o salto e, ao mesmo tempo, fiquei triste por deixar o Braga.

E continuaste a viver em Braga?
Sim, continuei. O Dito, natural de Barcelos, tinha um apartamento na Boavista e, volta e meia, ficava lá a dormir quando os treinos eram de manhã e de tarde.

E os teus pais iam ver-te às Antas?
Nunca. Acho que eles deixaram de ir ao futebol a partir do momento em que me transferi para o Porto. Nunca falei com eles sobre isso, mas devem ter ficado magoados quando fui para o Porto, porque devem ter ouvido umas bocas e isso levou-os ao divórcio com o futebol.

Como foi essa época no Porto?
É um grau de exigência completamente diferente.

O Porto do meu tempo é mais ou menos aquilo que tenho aquí no Sheffield. Se algum habilidoso ou chico-esperto vier aqui para perturbar o trabalho dos outros, é imediatamente afastado. O grupo de trabalho é muito forte. No Porto, isso acontecia porque a malta do núcleo duro tinha anos e anos de casa. Falamos de Zé Beto, Gomes, Lima Pereira, Quim, André. Era um grupo tão forte que ninguém metia o pé em ramo verde e isso notava-se nos treinos. Era de caneleira para cima, estava instituído.

Notava-se a mística?
Sem dúvida, é mais ou menos aquilo que tenho aqui no Sheffield. Se algum habilidoso ou chico-esperto vier aqui para perturbar o trabalho dos outros, é imediatamente afastado. O grupo de trabalho é muito forte. No Porto, isso acontecia porque a malta do núcleo duro tinha anos e anos de casa. Falamos de Zé Beto, Gomes, Lima Pereira, Quim, André. Era um grupo tão forte que ninguém metia o pé em ramo verde e isso notava-se nos treinos. Era de caneleira para cima, estava instituído. E essa foi a grande diferença do Braga para o Porto.

Quantos jogos fazes pelo Porto?
Um, e esse é inesquecível: com o Sporting, em Alvalade, no último dia do ano. Ganhámos 2-1. Nesse dia, houve pedrada contra o autocarro e teve de vir a polícia. Resultado: atraso na viagem para o Porto. Como morava em Braga, ainda tinha de pegar no carro para fazer o resto da viagem. Feitas as contas, passei a meia-noite dentro do carro para aí em Famalicão ou perto.

Porquê só um jogo pelo Porto?
Para fazer esse jogo, tive de passar à frente de seis centrais: José Carlos, Dito, Eduardo Luís, Lima Pereira, Geraldão, Kongolo. Já ir ao banco era uma vitória, eheheheh. Mas vi a minha vida a andar para trás.

Então?
Fui para a tropa, em Mafra. Queria chumbar no CGM [Curso Geral Miliciano] para recruta e soldado.

E conseguiste?
Houve cenas hilariantes como eu a fazer mal todos os exercícios e eles ‘este gajo é porreiro, vamos passá-lo com boa nota’.

E tu?
Quase de joelhos a dizer-lhes para me chumbarem. Bem, devo ter sido o pior instruendo que passou por Mafra. Fui, de certeza. Como não fazia as coisas bem, não me deixaram sair nos dois primeiros fins-de-semana. Já estava maluco, sem ver a minha namorada nem os meus pais.

E depois?
Consegui fazer a transferência para um quartel em Aveiro, numa altura em que já jogava no Beira-Mar.

De volta ao Porto, aquele plantel era qualquer coisa. Madjer, por exemplo.
Excelente pessoa, muito amigo dos mais novos, como foi o meu caso. Sempre o achei jogador dos grandes jogos. Tudo o que envolvia emoção e concentração, ele estava lá. Nos outros jogos, jogava a 50%. Que, atenção, já era muito e bastava-lhe isso para decidir o que quer que seja. Só que havia um ainda melhor que ainda hoje não lhe dão a importância devida: o Sousa. O Sousa fazia coisas incríveis. O Sousa hoje era de top mundial para ganhar milhões e milhões. Também joguei com ele no Beira-Mar.

Também apanhaste o Abdelghani, certo?
Que talento. Dentro do campo, nada a dizer. Na vida social, havia coisas deliciosas.

Tais como?
Ele fez um buraco na parede de casa para chegar mais depressa ao quarto do filho quando ele começasse a chorar.

Eisch.
Outra dele: nos primeiros tempos em Aveiro, não saía de uma loja sem negociar os produtos. Agora imagina o que é, uma conta de 30 euros de supermercado e agora vamos negociar isto. A senhora da caixa ficava, como é óbvio, a olhar para ele como quem diz ‘negociar o quê?’

E não é que voltas ao Braga a seguir ao Beira-Mar?
E sabes uma coisa? Os meus pais voltaram ao futebol.

Ah bom.
Lembro-me bem disso e a até tenho uma história que nem é simpática. Durante o jogo com o Portimonense, o Alain esperou por mim numa dividida e pisou-me a cabeça. Fiquei a sangrar, meteram-me um penso e lembro-me de ouvir ai ai ai das bancadas. No fim do jogo, os meus pais estavam todos preocupados e eu, ainda miúdo, fiquei chateado por vê-los à minha espera. Como se fosse o menino do papá e da mamã, sabes? Até lhes falei de uma forma brusca, tipo ‘o que é que estão aqui a fazer?’.

Marcaste um golo na 1.ª divisão?
E eu não lembro, acreditas?

Joguei no Chaves em 1985-86, no seu primeiro ano na 1.ª divisão. O presidente da câmara fez um discurso simplesmente empolgante sobre a interioridade e sobre uma região esquecida. Digo-te, se jogássemos naquela hora com Benfica, Porto ou Sporting, fosse quem fosse, dávamos 5-0. Na boa, aquilo mexeu com toda a gente. E depois, claro, os adeptos. Onde quer que fossemos jogar, os transmontanos apareciam em massa, tipo três, quatro mil pessoas. A sério, uma coisa nunca vista. Lembro-me do primeiro jogo em casa e o estádio estava cheio. De flavienses de Chaves e também de outros flavienses de todo o mundo. Havia voos fretados dos EUA e Canadá de propósito para o jogo, incrível.

Chi-ça.
A sério, não me lembro nada. Lembro-me, isso sim, é de um golo ao Leixões, pelo Chaves, na 2.ª divisão. Nem sei como fiz aquilo, sou sincero. A RTP repetiu o golo e tudo. É o único golo de que me lembro. Em Chaves, onde já tinha jogado em 1985-86 com grandes memórias.

Porquê?
É o primeiro ano de sempre do Chaves na 1.ª divisão. O presidente da câmara fez um discurso simplesmente empolgante sobre a interioridade e sobre uma região esquecida. Digo-te, se jogássemos naquela hora com Benfica, Porto ou Sporting, fosse quem fosse, dávamos 5-0. Na boa, aquilo mexeu com toda a gente. E depois, claro, os adeptos. Onde quer que fossemos jogar, os transmontanos apareciam em massa, tipo três, quatro mil pessoas. A sério, uma coisa nunca vista. Lembro-me do primeiro jogo em casa, com o Boavista, acho, o estádio estava cheio. De flavienses de Chaves e também de outros flavienses de todo o mundo. Havia voos fretados dos EUA e Canadá de propósito para o jogo, incrível.

Esse é o Chaves dos búlgaros?
Nãããããã, é o Chaves que fazia pressão alta na Luz, nas Antas e em Alvalade. Acabámos em sexto lugar.

Xiiiii.
É uma equipa que acaba por marcar uma era no futebol português, pelo atrevimento e ousadia de querer jogar igual por igual em todos os campos. É uma equipa memorável. António Borges na direita, Jorge Plácido na esquerda. César ou Jorge Silva na frente. No meio, era o Ferreira da Costa. Que jogador, grande, grande. Lesionou-se a meio da época e deu o lugar ao Diamantino. Ainda no meio, Júlio Sérgio, Paulo Rocha e Kiki. Atrás, Vivas a defesa-direito, o Raul Bolacha ou o Alfredo na esquerda, eu, Amândio e Pio a centrais. Na baliza, Fonseca ou Padrão. Estás a ver que a minha memória não é boa para se lembrar do único golo na 1.ª divisão mas lembro-me bem dessa equipa.

E a carreira de treinador começa quando?
No Espinho. Por acaso, ainda queria jogar mais um ano, só que veio o convite e aceitei, aos 32 anos de idade.

Qual foi o teu primeiro ano na 1.ª divisão?
Estava no Vizela e estava bem, sabes? Gostava muito do presidente Paulo Pinheiro e estávamos à frente da 2.ª B, ali em Dezembro. Só que apareceu o Aves que me pediu para substituir o professor Neca. As pessoas do Aves eram extraordinárias, do melhor mesmo, só que não havia condições. Não havia sítio para treinar quando chovia, e esse Inverno até foi castigador, e a equipa era fraca. Estávamos em último lugar e não consegui mudar o chip. É o ano do Boavista campeão, com uma vitória precisamente sobre o Aves.

Depois do Aves, voltei à 2.ª B e alguns amigos chamaram-me maluco. Só que eu fui ver um jogador num Leixões-qualquer coisa às cinco da tarde a meio da semana e fiquei doido com a força dos adeptos. Às cinco da tarde a meio da semana? Nem um grande tem aquela vitalidade. Quando o convite apareceu, nem pensei duas vezes. Quase nem discuti condições,

E o que vem a seguir?
O Leixões. Voltei à 2.ª B e alguns amigos chamaram-me maluco. Só que eu fui ver um jogador num Leixões-qualquer coisa às cinco da tarde a meio da semana e fiquei doido com a força dos adeptos. Às cinco da tarde a meio da semana? Nem um grande tem aquela vitalidade. Quando o convite apareceu, nem pensei duas vezes. Quase nem discuti condições, eheheheh. Vamos levar o Leixões à 2.ª divisão.

O primeiro ano é o da final da Taça de Portugal?
Exactamente, com o Sporting, e isso perturbou-nos o campeonato. Mesmo assim, discutimos a subida com o Marco, só que foi no ano do Apito Dourado. Se na 1.ª divisão foi o que foi, imagina na 2.ª. Não havia vergonha na cara. De todo.

Isso no confronto directo Leixões-Marco?
Nã, nã. Se forem ver o número de penáltis a favor do Marco e o número de expulsões dos adversários, deve ser um recorde do Guiness. E golos aos 97′ aconteceram umas sete ou oito vezes. O Marco tinha de subir de divisão.

E a ida ao Jamor, do que te lembras?
Sobretudo da meia-final, no 1.º de Maio. O Braga já tinha tudo preparado para a final da Taça, o que é normal atendendo ao facto que era um jogo entre um clube da 1.ª e outro da 2.ª B. O jogo foi transmitido pela SIC e fomos lá ganhar por 3-1, com um apoio impressionante dos adeptos do Leixões. A receção em Matosinhos também foi do melhor, à Champions. Depois a final, no Jamor. Terá sido a final em que os vencidos foram mais aplaudidos que os vencedores.

E no campo?
Pelo que fez, o Sporting mereceu ganhar. Só que há um erro de arbitragem logo aos três minutos, o André Cruz tem de levar cartão vermelho por travar o Dentinho, isolado. Não houve coragem para mostrar o vermelho. O golo do Jardel é em fora-de-jogo, mas é à unha e não é por aí. Mandámos uma bola à barra e outra ao poste. Nos últimos 15 minutos, o Sporting passou um mau bocado. Batemo-nos muito bem.

Segue-se o quê?
Vitória de Setúbal, chamado pelo director-desportivo Quinito.

E?
Subimos à 1.ª divisão num ano muito complicado. O Vitória é um clube conhecido por nunca atrasar os salários e, nesse ano, falhou. Chegámos a ter quatro meses em atraso e vivemos situações preocupantes, como o Zé Pedro, aquele do cabelo grande, sabes?

O do Belenenses?
Esse mesmo. Ò Rui, ele voltou à casa dos pais. Havia situações mesmo preocupantes.

E os dirigentes?
Na véspera de um jogo importante com o Aves, em casa, o presidente falou comigo durante o treino e prometeu pagar um salário em atraso no fim desse dia. ‘De certeza?’ perguntei-lhe. ‘Esteja descansado, vai ver.’ Disse aos jogadores, como é lógico. No fim desse dia, nada. No dia seguinte, nada. Claro que fomos para o campo completamente de rastos e perdemos 2-0. Obviamente, os adeptos revoltaram-se e era quatro ou cinco mil pessoas a gritar ‘ò Carvalhal, vai-te embora’. Nestas horas, o treinador tem sempre a culpa e apanha sempre. Na boa, é assim mesmo.

Então e depois?
Fui para Braga no dia de folga a pensar ‘já fui’. Ainda por cima, recebo um telefonema do Carlos Costa a combinar um pequeno-almoço para o dia seguinte. Mais certeza tive do meu destino. Lá fui eu de Braga para Setúbal. Quando me encontro com o Carlos Costa, presidente do comité de gestão do Vitória, ele pergunta-me sem demoras ‘o que é que você precisa para subir de divisão?’ E eu, ainda meio perplexo, ‘só precisamos que acerte os salários em atraso’. E mais, pergunta-me ele. Nem penso duas vezes. ‘Temos agora um jogo importante na casa do Estoril, primeiro classificado. Organize um estádio de três, quatro dias para fortalecer o grupo’. Assim foi. Estágio antes da Amoreira.

Ganharam ao Estoril?
Dois-um e o golo da vitória é do Zé Pedro. Nos cinco jogos que faltavam, só vitórias. Subimos à 1.ª divisão em segundo lugar.

Aquela situação toda no Vitória deixou-me desgastado e saí para o Belenenses. Contratou-me o Sequeira Nunes, um presidente fantástico com uma personalidade formidável. Trabalhavam comigo Casaca e José António. O primeiro ano correu bem e somos aquela equipa dos quatro ou cinco pastéis do Benfica do Trapattoni, lembras-te?

Boa.
Só que estava desgastado, sabes? Aquela situação toda deixou-me desgastado.

E saíste?
Para o Belenenses.

Quem te contratou?
Sequeira Nunes, um presidente fantástico com uma personalidade formidável. Trabalhavam comigo Casaca e José António. O primeiro ano correu bem e somos aquela equipa dos quatro ou cinco pastéis do Benfica do Trapattoni, lembras-te?

Claro, 4-1 ao Benfica no dia em que o Porto é campeão mundial.
Foi um grande jogo. No ano seguinte, há eleições e o Sequeira Nunes, que não vai a votos, quer renovar-me o contrato para dar-me tranquilidade. Só que eu não me dava muito bem com o futuro presidente, que era o atual vice, Cabral Ferreira. Dessa vez, não segui o meu feeling, não fiz a melhor leitura e viu-se: à 7.ª ou 8.ª jornada, saí do Belenenses, porque o Cabral Ferreira já tinha um treinador em mente desde o início.

Dás o salto para onde?
Faço meio época no Braga, mais meia no Beira-Mar e assino pelo Vitória em 2008.

O de Setúbal?
Ah pois, eheheh. O Carlos Costa tinha voltado ao clube, agora como presidente, e convidou-me. Foi muito direto. Disse-me que o clube estava na eminência da bancarrota, poucos jogadores com contrato e muitas dívidas.

Só isso?
Eheheheh. Deu-me o budget para toda uma época e total carta branca para comprar jogadores. A partir daí, foi partir pedra. Comecei a ver jogadores da 2.ª B, a explorar o mercado brasileiro e a pedir jogadores emprestados.

Tipo quem?
Cláudio Pitbull e Bruno Gama ao Porto, Eduardo, Filipe Gonçalves e Mateus ao Braga. Fizemos uma equipa boa, com ordenados baixos e prémios de jogo simbólicos. Só perdemos à 13.ª jornada, no Dragão. Em Dezembro, na reabertura do mercado, o Braga quis o Mateus de volta, que foi um dos melhores da primeira volta. E vendemos o melhor marcador Edinho para o AEK Atenas. Vaticinou-se a queda, mas mudámos o sistema tático e fizemos uma boa época até ao fim.

Isso é o quê?
Apurámo-nos para a Taça UEFA, chegámos às meias-finais da Taça de Portugal, eliminados pelo Porto no Bonfim, e ganhámos a Taça da Liga.

Ahhhh, a primeira de todas, não foi?
Essa aí. Foi fantástico. Todos diziam que o Vitória ia descer e ganhámos em toda a linha.

Como foi na final da Taça da Liga?
Ganhámos nos penáltis.

Quem é que decide nessa hora?
Tem de haver um entendimento entre jogadores e treinador. Mal o árbitro apitou para o fim, perguntei quem queria marcar os penáltis e todos deram um passo em frente.

Xiiii, maravilha.
Havia uma convicção muito grande de que íamos ganhar a Taça da Liga. No campeonato, por exemplo, tínhamos ganho ao Sporting no Bonfim e empatado em Alvalade. Portanto, havia moral para ganhar a primeira edição da Taça da Liga.

O herói dos penáltis é o Eduardo, certo?
Três penáltis defendidos, acho. Foi aí que começou a sua carreira a sério e agora está no Chelsea.

Por falar no Sporting, lembro-me da tua estreia, vs Pescadores da Costa da Caparica.
No Restelo, pois foi.

Como é que o Sporting se lembrou de si?
Não estava a contar com nada daquilo. Estava a jantar com uns amigos, já noite alta, e recebo um telefonema a perguntar-me se gostava de treinar o Sporting.

De quem?
Do presidente Bettencourt. Meti-me no carro e cheguei a Lisboa às uma e tal da manhã. Foi fácil a definição do contrato, nem discuti. Disse-lhe apenas que gerisse o dinheiro como bem entendesse. Pedi-lhe só que fizesse uma avaliação justa e só soube quanto ganhava no dia do primeiro pagamento. Sinceramente, o ir para o Sporting nunca foi uma questão financeira, era prestígio.

E o Sporting estava como?
Em oitavo lugar, e o Paulo Bento tinha acabado de sair. O Paulo Bento, é bom recordar, tinha lançado a maior parte dos jogadores do onze, como Patrício, Moutinho, Pereirinha, Djaló, Miguel Veloso. Era, portanto, um treinador estimado. Cá fora, o Sporting era uma equipa ridicularizada pela comunicação social. Mas nós fizemos um bom trabalho e começámos a subir. Até à situação do Sá Pinto com o Liedson.

Com o Mafra, para a Taça de Portugal?
Ganhámos 4-3 em casa, mas foi uma confusão tremenda o que se passou a seguir. Há um abalo muito grande e a equipa desestabiliza-se muito. Ao ponto de saber que ia ser substituído no dia em que jogávamos com o Everton.

Quem é que ia substituir-te?
O André Villas-Boas, estava tudo acertado. Só que ganhámos 3-0 ao Everton no dia do meu funeral e seguimos em frente na Taça UEFA. Três dias depois, no domingo, 3-0 ao Porto, que era o líder do campeonato. Começámos a fazer uma sequência boa de resultados até outro conflito.

Outro?
Entre o Costinha e o Izmailov. Mais uma confusão.

O que é que se passou?
Foi uma discussão, o Izmailov dizia-se lesionado e o Costinha utilizava argumentos a contrariá-lo.

No meio do treino?
Não, em privado.

Contigo?
Sim, estava lá no meio.

E então?
Cada um tinha o seu argumento e foi uma confusão.

E a confusão Sá Pinto-Liedson?
Já nem me lembro bem, sabes? Uma confusão qualquer. Mais uma vez, duas personalidades fortes a querer levantar o peito um ao outro. O Sá como diretor-desportivo, o Liedson como jogador. Aquilo descambou numa fração de segundos.

Nem tive tempo para reagir ao caso Sá-Liedson, quem os separou foram os jogadores. O mais engraçado disto tudo é que ficou a ideia da culpa ser do treinador. Acho que tem a ver com o facto de sermos uma democracia recente, a maioria pensa que quem grita, quem diz asneiras e fala grosso é que é um líder a sério e aquele que faz conduzir os outros não o é tanto. O que é um treinador pode fazer quando há uma pessoa envolvida com mais responsabilidades que tu no clube? Isso magoou-me. Até porque nunca tive casos de indisciplina nas minhas equipas.

Intervieste?
Nem tive tempo, quem os separou foram os jogadores. O mais engraçado disto tudo é que ficou a ideia da culpa ser do treinador. Acho que tem a ver com o facto de sermos uma democracia recente, a maioria pensa que quem grita, quem diz asneiras e fala grosso é que é um líder a sério e aquele que faz conduzir os outros não o é tanto. O que é um treinador pode fazer quando há uma pessoa envolvida com mais responsabilidades que tu no clube? Isso magoou-me. Até porque nunca tive casos de indisciplina nas minhas equipas. Ou melhor, tratei-os sempre da melhor maneira. E já treinei dos melhores do mundo e sei o que é dar a volta a uma situação dessas.

Nesse quadro dos melhores do mundo, entra o Quaresma?
Sim. Houve um incidente de futebol em que o Ricardo não ficou contente com uma substituição no jogo com o Atlético Madrid. Teve um comportamento disruptivo, que tratei como deve ser, apesar de não ter presidente nem direção.

Como assim, sem presidente nem direção?
Foi complicado, esse ano no Besiktas dava um livro. Entrei lá para substituir um treinador que foi preso [Tayfur Hayutçu]. Um treinador carismático, da casa. Como se fosse o Toni no Benfica. E o vice-presidente do Besiktas também foi preso, ambos por corrupção num jogo da taça por aliciamento dos jogadores adversários. Quando assinei, concordei em dar-lhe o lugar mal ele fosse solto e as minhas indicações era de que ele ia estar preso durante meio ano, até Dezembro. Vi o Besiktas como uma oportunidade de trabalho e agarrei a oportunidade. Entrei como desconhecido e, passados três ou quatro meses, os adeptos já entoavam o meu nome. E, atenção, não sou jogador.

E o presidente?
O presidente do Besiktas, que agora é o presidente da federação, começou a não pagar os salários. Aquando das eleições da federação, ele simplesmente trocou de posto e começámos a ter quatro, quase cinco meses de salários em atraso. Sem direção, hã? O barco andou completamente à deriva. Foi um trabalho muito complicado, até porque não me deixaram levar a minha equipa técnica, tive de apanhar os adjuntos do antecessor.

E em Dezembro?
Bati o pé e disse que só voltaria depois do Natal se aceitassem um adjunto meu, o João Mário. De tanta insistência, o João Mário foi mesmo comigo para Istambul.

Em que condições?
Poissss, essa é outra. Ficou a dormir na academia e o ordenado era pago do meu bolso, porque não havia ninguém para decidir o que quer que fosse. Entretanto, o treinador sai da prisão.

Ui ui ui.
A sorte é que tínhamos acabado a fase de grupos da Liga Europa em primeiro lugar e nunca uma equipa turca tinha conseguido isso. Portanto, ganhámos ali um crédito até à próxima fase, pelo menos. Vem o sorteio e toma lá o Braga.

E o treinador antigo?
Passou a diretor-desportivo do Besiktas.

Trabalhavam juntos?
Tinha de ser, mas ele queria obviamente o meu lugar o mais rápido possível.

Como é que se vive assim?
Sou português, caramba. Tive de me agarrar aos jogadores turcos e os do Norte da Europa. Aos portugueses [Quaresma, Simão, Hugo Almeida e Manuel Fernandes], nem tanto, devo admitir.

Eliminámos o Braga do Leonardo Jardim. Verificámos que a linha defensiva do Braga baixava muito quando perdia a bola e decidimos meter o Quaresma a ponta-de-lança no lugar do Hugo Almeida. Lembro-me da particularidade de chegar ao avião e a imprensa turca a aplaudir-me de pé, pela vitória por 2-0 em Braga [golos de Sivok e Simão]. Disse-lhes em inglês que tinha a plena consciência de que ia ser despedido e crucificado pela imprensa, caso perdesse este jogo pelo simples facto de meter o Quaresma a 9. Mas tudo bem, a vida de um treinador é isto mesmo.

Chega o Braga e?
Eliminámos o Braga do Leonardo Jardim. Verificámos que a linha defensiva do Braga baixava muito quando perdia a bola e decidimos meter o Quaresma a ponta-de-lança no lugar do Hugo Almeida. Lembro-me da particularidade de chegar ao avião e a imprensa turca a aplaudir-me de pé, pela vitória por 2-0 em Braga [golos de Sivok e Simão]. Disse-lhes em inglês que tinha a plena consciência de que ia ser despedido e crucificado pela imprensa, caso perdesse este jogo pelo simples facto de meter o Quaresma a 9. Mas tudo bem, a vida de um treinador é isto mesmo.

Depois do Braga, qual é o adversário?
O Atlético. Vamos a Madrid e dá-se aquele episódio com o Quaresma, em que o substituo ao intervalo com 3-0 para o Atlético [bis de Salvio]. Ainda marcamos um golo, 3-1 [Simão], só que perdemos em casa, na 2.ª mão.

Eliminados da Europa e agora?
Ainda ficámos até à penúltima jornada do campeonato, em que garantimos a qualificação para o play-off do campeão. Depois, entrou um novo presidente e o tal diretor-desportivo assumiu o meu lugar.

Que coboiada.
Eheheheh.

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