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Dizia que começou a jogar à bola praticamente desde que nasceu mas, ao contrário dos dois irmãos mais velhos, Jesús e Falo, que foram guarda-redes durante vários anos, teve os olhos sempre fixados nas balizas contrárias e foi avançado. Um grande avançado, internacional 35 vezes por Espanha numa carreira iniciada no Ensidesa e que teve apenas mais dois clubes até ao final: o Sp. Gijón, onde passou um total de 15 anos em dois períodos distintos, e o Barcelona, onde jogou entre 1980 e 1984. Em resumo, a Marca resume o seu legado a uma palavra: mito. Morreu esta noite, aos 68 anos, Enrique Castro González, mais conhecido por Quini, vítima de ataque cardíaco.

Do Ensidesa, onde fez a primeira temporada como sénior na 3.ª Divisão, levou duas coisas que lhe marcaram a vida: por um lado, a opção pelo futebol, em detrimento da escola de aprendizes ou da empresa Montajes del Tera onde queria ser soldador; por outro, a mulher. Mas, mesmo num escalão inferior, foi aí que começou a ganhar o calo para se tornar num dos jogadores mais emblemáticos de sempre da história do Sp. Gijón, onde chegou em 1968. Nessa época, fez 15 golos em 21 jogos; na seguinte, 25 remates certeiros em 36 partidas. E em 1974, 1976 e 1980 foi mesmo o melhor marcador da Liga, uma Liga que estava rendida às suas qualidades há muito numa coroação que teve o seu ponto mais alto em 1979, quando foi considerado o melhor jogador do Campeonato. Esteve também entre os eleitos de Espanha no Mundial de 1978, na Argentina, e no Europeu de 1980, em Itália.

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O Barcelona sempre se mostrou atento ao jogador, como recorda o Sport, em particular a partir de 1976 quando o Sp. Gijón até desceu mesmo de divisão. Queriam-no juntar a uma constelação que tinha um dos maiores génios de sempre do futebol (dentro e fora de campo), Johan Cruyff. Nessa altura, permaneceu mas ponderou terminar a carreira. Pensava que não podia ir muito mais além. Mas foi: em 1980, a troco de 82 milhões de pesetas (mais do dobro da primeira proposta dos catalães quatro anos antes), assinou mesmo pelos blaugrana que tinham então como grandes figuras o alemão Bernd Schuster e o dinamarquês Allan Simonsen, antes de um dos casos mais badalados em Espanha na década de 80: Quini foi sequestrado e esteve 25 dias em paradeiro incerto.

Rebobinemos o filme: a 1 de março, quando o Barcelona andava ainda na luta pelo título, Quini bisou numa goleada frente ao Hércules por 6-0 e foi intercetado em casa sob ameaça de armas de fogo antes de rumar ao aeroporto, onde ia buscar a mulher e os filhos tinham vindo das Astúrias, por dois indivíduos que o colocaram numa carrinha e fugiram. Em sua casa, as luzes estavam acesas mas não havia nenhum sinal do jogador. A mulher ficou preocupada e saiu para perguntar aos vizinhos se alguém sabia onde estava Quini. Ninguém sabia também de nada. Foi aí, já a altas horas da madrugada, que chamou a polícia e o presidente do clube, José Luis Núñez. Começava aí um dos episódios mais intrigantes do futebol espanhol.

O caso tornara-se público e um jornal, o La Vanguardia, recebeu uma chamada de um grupo que dizia ter o avançado mas que só o libertaria após o jogo seguinte com o Atl. Madrid porque uma equipa separatista não podia ser campeã. Seguiu-se outra chamada, de outro grupo, neste caso a pedir um resgate. Essas pistas não demoraram a ser anuladas: eram telefonemas falsos. Ao contrário de uma carta deixada numa cabine perto de um hospital de Barcelina, assinada pelo próprio, onde dizia estar bem sem mais pormenores. A onda de solidariedade um pouco por todos o país continuava a aumentar.

Nessa primeira semana, os alegados sequestradores terão tentado chegar à fala com a mulher de Quini, mas recusaram a possibilidade de trocar algumas palavras com o marido. Os catalães estavam prestes a jogar com o Atl. Madrid na capital espanhola e alguns jogadores recusavam entrar em campo como Schuster, um dos companheiros mais próximos. O jogo aconteceu mesmo e o Barcelona perdeu. Perdeu aí, perdeu com o Salamanca, empatou sem golos com o Saragoça. A luta pelo título acabara, mas o que mais interessava, e o que estava na cabeça de todos, era a situação do internacional espanhol.

A 25 de março, depois de muitas trocas de cartas e telefonemas com os raptores, o desfecho selado pela cooperação entre a polícia espanhola e a suíça, que permitiu o levantamento do segredo bancário em relação à conta para onde os sequestradores tinham pedido um depósito de 100 milhões de pesetas. Foi assim que se chegou ao titular da conta, um eletricista de 26 anos, que andou a ser seguido após levantar a primeira tranche de dinheiro até uma rua em Saragoça onde estava Quini, na cave de uma oficina de automóveis, cansado e com barba por fazer. Mais concretamente, 25. Tinha milhares de pessoas à sua espera no regresso à Catalunha, saudando o final feliz. O El País recuperou esta terça-feira a descrição das condições pouco humanas que teve de enfrentar nesse período.

Apesar de tudo, o jogador acabou por deixar cair a queixa contra os raptores, assumindo que nunca lhe tinham chegado a fazer mal (vários meios chegaram a escrever que tinha desenvolvido síndrome de Estocolmo). O Barcelona, ao contrário do avançado, não prescindiu da ação, alegando que além do rapto de Quini tinha sido também lesado em termos desportivos. Os dois indivíduos (e também um terceiro, que sabia o que se passava e foi acusado por cumplicidade no ato) acabaram por ser condenados a dez anos de cadeia e ao pagamento de cinco milhões de pesetas ao internacional espanhol, que recusou receber a quantia.

Quini regressaria em 1984 a Gijón depois de voltar a ser mais duas vezes o melhor marcador da Liga (ainda representou a Espanha no Mundial de 1982, que o país organizou), após ganhar uma Taça dos Vencedores das Taças, duas Taças de Espanha, uma Taça da Liga e uma Supertaça (também jogou com Maradona mas nunca ganhou o Campeonato, daí que o Mundo Deportivo o apelide de “Ídolo sem Liga”), encerrando a carreira com 37 anos com um total de 219 golos em 448 jogos. Como recorda a Marca, era El Brujo do golo.

O La Vanguardia começou já a condensar todas as reações, em particular uma muito sentida de David Villa, ao passo que o El Español recupera os documentários intitulados de Conexión Vintage feitos pela Teledeportes sobre a carreira do jogador que ganhou sete vezes o troféu Pichichi de melhor marcador (duas da 2.ª Divisão).