Na altura em que estiver a ler estas linhas, terão já passado algumas semanas desde que a Audi convidou os representantes de alguns meios de comunicação internacionais, entre os quais o Observador, apenas para ver, mas já de perto, e em primeira mão, a mais recente geração do A6 – a oitava do executivo da marca dos quatro anéis. Uma acção rodeada, se não de secretismo, pelo menos de muita confidencialidade – câmaras dos telemóveis desactivadas, compromisso de não divulgar dados ou imagens antes do dia de… hoje! E há razões para isso: se, nesta indústria, o segredo, como a gestão de expectativas, ainda continuam a ser, tantas vezes, a alma do negócio, no caso em apreço, a quantidade de soluções inovadoras que o modelo integra decerto justificam os cuidados da casa de Ingolstadt para que não fossem reveladas antes de tempo.

Definido pelo próprio fabricante germânico como um automóvel “multi-talentos”, o novo A6 estará à venda já em Junho próximo na versão berlina, com a carrinha A6 Avant a chegar no Outono, sendo praticamente certo também existirá uma derivação Allroad. Para enfrentar os “pesos-pesados” de um dos segmentos mais exigentes do mercado, mormente os seus compatriotas BMW Série 5 e Mercedes Classe E, mas em que propostas como o Volvo S90 ou o Jaguar XF também vão granjeando cada vez mais adeptos, o novo A6 aposta forte em quatro pilares fundamentais: uma estética extremamente elaborada, um habitáculo onde apeteça estar, evoluídas soluções tecnológicas no capítulo mecânico (e não só…) e uma profusa digitalização – que é o mesmo que dizer ligação permanente ao mundo exterior, intensa interacção com o condutor e avançados sistemas de assistência à condução, inclusivé em termos da “inevitável” condução (semi)autónoma. Um lote de trunfos que vale bem a pena conhecer em detalhe.

Estilo apurado

Por muito que os hábitos de consumo se alterem (ou se pretenda sejam alterados…), é certo que raros serão os dispostos a comprar um automóvel que os não convença esteticamente. A Audi sabe bem disso, e não se poupou a esforços quando da definição das linhas do novo A6, modelo que completa a sua oferta de luxo, juntamente com os também recém-apresentados A8 e A7 Sportback da nova geração.

O Observador teve a oportunidade de analisar o novo A6 muito antes da apresentação oficial do modelo, uma revelação que foi rodeada de alguma dose de secretismo

Os três definem a linguagem visual da marca para os segmentos de topo do mercado, mas desenganem-se os que pretendam aqui encontrar uma antevisão do que possa vir a ser o estilo dos dois modelos eléctricos de luxo que a Audi pretende lançar a breve trecho (o SUV e-tron quattro, previsto para 2019, e a versão de produção do protótipo e-tron Sportback Concept, revelado na passada Primavera no Salão de Xangai, definido como um GT de quatro portas, desenvolvido a partir da mesma plataforma MLB e a comercializar igualmente antes do final da década). É certo, natural até, que existam pontos de contacto neste particular entre as duas gamas, mas a Audi garante que esses eléctricos incorporarão a sua própria linha estilística. É esperar para ver.

Quanto ao A6, e tal como o A8 e o A7 Sportback, a sua carroçaria é dominada por superfícies tensas e linhas marcantes, assim pretendendo transmitir uma sensação de desportividade conjugada com elegância, e da alta tecnologia que veiculo encerra no seu âmago. A isto há que juntar a equilibrada proporcionalidade entre os seus principais volumes, casos do longo capot, da generosa distância entre eixos e de uma traseira relativamente curta.

A famosa grelha Singleframe, bastante larga e colocada numa posição mais baixa do que no A8, mas não tanto quanto no A7 Sportback, domina e define a volumetria da perspectiva frontal, a par das esguias ópticas dianteiras por LED (opcionalmente, por matriz de LED e com umas curiosas animações dos “piscas” e sempre que o fecho central é aberto ou fechado). A linha de tejadilho, similar à do modelo da geração anterior, é um dos elementos que pretende vincar a personalidade própria do A6, enquanto que na traseira há a destacar o facto de os grupos ópticos não estarem unidos por uma barra luminosa, antes por um elemento cromado, que lhe confere um ar mais formal e visa fazê-lo parecer tão largo e baixo quanto possível. As jantes podem ir até às 21”, consoante as versões e a escolha de cada um.

Simplificando, o que os responsáveis de design da Audi pretenderam foi que o estilo do novo A6 ilustrasse o seu posicionamento, em termos de carácter, como que a meio caminho entre o A8 e o A7 Sportback – menos convencional que o primeiro, mas não tão desportivo quanto o segundo. Um desiderato que nos parece ter sido alcançado com êxito, aqui voltando a aplicar-se a máxima de que as imagens falam por si, e que cada qual melhor fará em, a partir delas, formar o seu próprio juízo. Para registo fica o anúncio de um Cx de apenas 0,24, valor alcançado pela mais optimizada das versões a gasóleo, que só será lançada numa fase posterior da comercialização.

Questão de bem-estar

Não menos importante do que a estética, num executivo, é o bem-estar a bordo que este é capaz de oferecer aos seus passageiros. Neste primeiro e muito breve contacto com o novo A6, a oportunidade não foi a ideal para avaliar qualidade de construção e materiais, e outras questões mais “tácteis”, mas a primeira impressão retida é que o modelo volta a ser uma das referências da sua classe nesta matéria, não parecendo tenha o que temer da comparação directa com qualquer dos seus rivais. Bem pelo contrário!

Outros factores há, porém, que merecem, desde já apreciação. Como a ampla habitabilidade, mais do que suficiente para acomodar com grande liberdade de movimentos quatro ocupantes. Com 4939 mm de comprimento, 1886 mm de largura e 1457 mm de altura, o novo A6 é 7 mm mais comprido, 12 mm mais largo e 2 mm mais alto do que o seu predecessor, e naturalmente que tal paga dividendos no que ao espaço disponível interiormente diz respeito: segundo a Audi, ao ponto de bater toda a concorrência no que ao sempre essencial espaço para pernas atrás concerne. Quanto à bagageira, mantém a sua capacidade de 530 litros, dispondo agora de sistema de abertura e fecho do tipo “mãos-livres”.

7 fotos

Digna de nota é, igualmente, a decoração interior, capaz de criar um ambiente acolhedor. Aqui se destacando o esguio painel de instrumentos e a consola central ligeiramente desviada para a esquerda, por forma a estar orientada no sentido do condutor – que ainda continua a ser o elemento mais importante a bordo. O design minimalista é sublinhado pelo ecrã do sistema de infoentretenimemto, igualmente virado para o condutor, e que recolhe quando desligado, apenas ficando visível uma pequena tampa em alumínio.

Ainda assim, o resultado final tanto pode ser mais desportivo como mais elegante, mais técnico ou futurista, dependendo da escolha de um dos cinco níveis de acabamento e equipamento disponíveis: base, sport, design, design selection e S line (que inclui as jantes de 19” e a suspensão desportiva). Cada um deles está associado a diferentes combinações cromáticas interiores, e a distintos materiais de acabamento, que tanto podem ser a madeira de poro aberto como o revestimento integral em pele. Podendo o opcional pacote S line exterior ser conjugado com qualquer deles.

Quanto a extras, e como é da praxe, a escolha é vasta, mas alguns há, neste capítulo, que merecem ser referidos, como os bancos eléctricos multicontorno, o sistema de climatização com ambientador, ionizador e filtro anti-poluição activo, o tecto panorâmico em vidro ou o pára-brisas aquecido.

Inteligência artificial

Nos dias que correm, a forma como os automóveis interagem com quem os conduz assume cada vez maior importância – é a famosa “digitalização”. E, aqui, o A6 pretende mesmo estabelecer-se como a nova referência do segmento. Começando pelo sistema de infoentretenimento MMI, conta com dois ecrãs na consola central, o inferior com 8,6”, e destinado a comandar a climatização, algumas funções de conveniência e a inserção de texto (como a caixa é sempre automática, o respectivo selector serve de apoio para a mão do utilizador); o superior, com as mesmas dimensões na versão mais simples MMI navigation, ou com uma diagonal de 10,1” na mais evoluída versão MMI navigation plus, para operação das principais funcionalidades do sistema. Recebendo o condutor informação também através do head-up display, que as projecta no pára-brisas, e do painel de instrumentos integralmente digital Audi virtual cockpit, com ecrã de 12,3”.

Em tudo semelhante ao que pode ser encontrado no novo A8, o MMI do A6 consegue gravar o perfil de até sete utilizadores, e permite personalizar nada menos do que 400 parâmetros! E tudo isto se processa de forma extremamente simples, com o sistema, integralmente digital, a poder ser ajustado ao gosto de cada qual através, por exemplo, da função de “arrastar” os ícones (conhecida como “drag-and-drop”) das suas inúmeras funções para o local pretendido, tal e qual como num smartphone. Existem vários botões virtuais de atalho e de favoritos, a estrutura dos menus é bastante lógica e intuitiva, e até a reposta táctil e acústica dos mesmos pode ser ajustada, ou seja, cabe ao utilizador definir a intensidade com que pretende sentir e ouvir o “clique” emitido sempre que pressiona uma função do sistema.

Mas isto é apenas uma pequena parte das tarefas que o MMI pode desempenhar. Graças |à função de auto-aprendizagem, o sistema consegue oferecer sugestões de busca inteligente com base nas rotas percorridas, sugerir caminhos alternativos sempre que recebe a informação de perturbações no tráfego ao longo da rota previamente definida, encontrar um lugar de estacionamento disponível no local de destino. Através de um smartphone, o proprietário do A6 pode aceder a todos os serviços digitais da Audi e, inclusive, utilizá-lo, desde que com sistema operativo Android, enquanto chave digital do veículo, através dele podendo abrir e fechar as portas e dar arranque ao motor, sendo tal chave partilhável com até mais cinco smartphones de outros tantos utilizadores.

Ainda no domínio da digitalização, saliente-se que o novo A6 conta com qualquer coisa como 38 sistemas de assistência a condutor, propostos em três distintos pacotes, criados para satisfazer diferentes necessidades e preferências. Os porventura mais espectaculares serão o parking pilot e o garage pilot, incluídos no pacote Park assist e responsáveis por estacionar o veículo autonomamente num lugar de parqueamento ou na garagem, sem que para tal o condutor tenha sequer que estar a bordo, bastando-lhe transmitir a respectiva instrução através da app my Audi instalada no seu smartphone.

No interior há mais espaço, mais equipamento e sistemas de ajuda ao condutor, que agora possui três generosos ecrãs digitais para controlar o veículo, um deles o painel de instrumentos

No caso do pacote City assist, o destaque vai para o novo assistente de cruzamentos, enquanto que o pacote Tour assist integra o cruise control adaptativo assistido, em que o sistema intervém autonomamente sobre o volante para manter o veículo na faixa de rodagem, assim como o assistente de eficiência, destinado a assegurar o estilo de condução mais económico. Podendo dispor de até cinco sensores de radar, cinco câmaras, doze sensores ultrasónicos e um scanner por laser, o novo A6 está, também, apto a integrar todas as funções de condução autónoma já a anunciadas para o novo A8, assim que, tal como no topo de gama da Audi, a legislação permita a respectiva utilização na via pública.

Electrificado, pois claro!

Há já algum tempo que a Audi anunciou a sua intenção de electrificar a totalidade da sua gama a curto prazo. O novo A6 dá já seguimento a essa política, pelo que todos os motores disponíveis integram uma componente híbrida, a conhecida tecnologia mild-hybrid (MHEV), em que um alternador com motor de arranque integrado (BAS de seu nome) funciona em conjunto com uma bateria de iões de lítio – sendo o sistema eléctrico principal de 48 Volt no caso das versões com motor V6, e de 12 Volt nas equipadas com motores de quatro cilindros. Um dos benefícios desta solução é permitir ao A6 poder andar “à vela” (ou seja, com o motor desligado sempre que a sua acção não seja necessária) a velocidades entre os 55-160 km/h, e que o sistema start/stop possa operar entre os 7-22 km/h – a Audi anuncia que o BAS, em desaceleração, consegue recuperar até 12 kW nos motores V6, permitindo ao sistema MHEV poupar nos consumos até 0,7 l/100 km.

Na fase de lançamento, o novo A6 será proposto com três motores a gasóleo e um a gasolina, todos de injecção directa e sobrealimentados, com tracção dianteira ou dois tipos de tracção integral, e com caixa automática ou pilotada. Na base da oferta estará a versão A6 40 TDI de tracção dianteira, animada pelo 2.0 TDI com 240 cv e 400 Nm, combinado com a caixa S tronic de sete velocidades e dupla embraiagem.

Seguem-se os A6 50 TDI e A6 45 TDI, ambos equipados com o motor 3.0-V6 turbodiesel, mas oferecendo o primeiro 286 cv e 620 Nm, “ficando-se” o segundo pelos 231 cv e 500 Nm. Os dois dispõem, ainda, de caixa automática tiptronic de oito velocidades e tracção integral quattro, no caso com três diferenciais, o central autoblocante do tipo Torsen, o traseiro activo em opção.

A opção a gasolina é protagonizada pelo A6 55 TFSI, com motor 3.0-V6 TFSI com 340 cv e 500 Nm, combinado com a caixa S tronic de sete velocidades e dupla embraiagem, e também dotado de tracção total. Só que, aqui, o sistema quattro dispõe de uma embraiagem multidiscos responsável pela repartição do binário entre os dois eixos, e que só activa o trem traseiro, de forma instantânea e imperceptível para o condutor, quando as condições assim o exigem, o que garante uma superior economia de combustível.

Segundo a Audi, o esforço levado a cabo na anterior geração do A6, em termos da redução do peso através do recurso a materiais leves, levou a que, no novo modelo, tal já não fosse uma prioridade, sendo construídos em alumínio elementos como as estruturas das suspensões, as portas, o capot, a tampa da mala, os guarda-lamas ou as pinças de travão dianteiras, entre outros. Sem adiantar valores, a marca assegura que não só o peso está de acordo com o exigido a este nível, como a rigidez estrutural é um dos seus grandes tributos, e o garante de um desempenho dinâmico de eleição.

Para tal muito contribuirão, também, os sistemas de suspensão e direcção. No primeiro caso, é possível escolher entre quatro opções: a tradicional suspensão com molas metálicas, a suspensão desportiva, a suspensão com amortecimento pilotado e a suspensão pneumática, naturalmente, também activa. Em qualquer dos casos, a geometria foi revista, ficando a promessa de um superior conforto de marcha e um menor ruído de funcionamento.

Para uma maior agilidade e estabilidade, o A6 recorre a um complexo sistema de direção integral, que visa conciliar esses dois conceitos aparentemente antagónicos. Com uma relação de desmultiplicação que varia entre 9,5:1 e 16,5:1, o sistema permite que, abaixo dos 30 km/h, as rodas traseiras virem até 5° no sentido oposto à das dianteiras, favorecendo a manobrabilidade, nomeadamente através da redução do diâmetro de viagem em até 1,1 metros. Entre os 30-120 km/h, as rodas traseiras podem virar em qualquer dos sentidos, consoante as exigências do momento, passando a virar na mesma direcção das dianteiras acima dos 120 km/h, de modo a incrementar a estabilidade a alta velocidade.

Todos estes sistemas se integram no mesmo módulo electrónico de controlo do châssis, funcionando em rede e ajustando a sua operação às preferências do condutor, consoante o modo de condução por este escolhido através do Audi drive select system. E, depois deste substancial aperitivo, é já só mesmo o que falta: poder conduzir o novo A6 para aquilatar de todos os seus trunfos, oportunidade por que aguardamos com confessa expectativa.