“O que me levou a praticar ioga? Honestamente? Não sei. Por vezes, as melhores coisas na vida não têm uma explicação simples como ‘queria perder peso’ ou ‘o médico recomendou’. Um dia, como qualquer outro, encontrei alguém que me recomendou um livro e dei por mim a fazer ioga”, explicou ao Observador Paula Cordeiro, professora universitária de rádio e comunicação digital, cronista e autora do blogue Urbanista onde pode ouvir os seus podcasts, inclusivamente sobre ioga.

O livro a que se refere é o Retox de Lauren Imparato sobre o qual escrevemos em 2016 (pode ler aqui). Paula diz que sempre foi adepta do exercício físico mas depois de anos a experimentar um pouco de tudo, sentia que faltava qualquer coisa. Já não lhe satisfazia a ginástica, nem a dança, nem o fitness, nem a aeróbica nem todas as invenções da indústria do fitness que dão vida aos ginásios e que Paula também praticou.

“Dei por mim um dia cansada. Queria continuar ativa e gastar energia mas sentia que tudo isto já não era para mim. Cheguei a aventurar-me no Kuduro com a Blaya e até a correr maratonas. Mas não era aquilo. Ficava sempre a pensar que podia mudar de vida até que descobri o Retox.” Hoje, Paula já faz ioga sozinha e criou o seu próprio “ioga flow” (sequência de posturas que pratica todos os dias) mas continua a fazer as aulas de grupo e deixa um conselho: “Para quem quer começar, comecem por encontrar alguém cuja prática vos preencha e com quem tenham click.”

Ioga para o corpo ou para a mente?

Muitas pessoas descobrem o ioga em algum momento de necessidade. Surge quase como um conforto. Mas nesta era em que vivemos, saturada de smartphones, redes sociais, e-mails, informação e da necessidade de partilhar o aqui e o agora ao invés de o viver também faz com que nos tenhamos habituado a procurar satisfação e realização em fatores externos. E é mesmo nisto que o ioga se centra: voltarmos a aprender a encontrar aquele “algo mais” dentro de nós.

Pode parecer uma filosofia demasiado cor de rosa, demasiado “namasté”, demasiado posição de lótus… Tudo menos real. Mas o ioga é um processo simples de repor as energias do corpo e da mente para atingir um estado de calma no dia a dia. Ao mesmo tempo que trabalha o corpo e, como tal, a saúde. Catarina Oliveira foi diagnosticada com fibromialgia há alguns anos e surgiu a obrigação de começar um plano de exercício físico.

“Como impor a mente a gostar de exercício físico quando temos uma doença que provoca dor e rigidez muscular? Comecei com caminhadas diárias e de vez em quando algumas aulas de hidroginástica mas tudo isto me deitou muito abaixo. Percebi que precisava de mudar a minha vida e procurei ajuda na medicina complementar. Foi aí que descobri o ioga como alternativa ao exercício físico dito normal, com a vantagem de que seria bom não só para o corpo mas também para a parte mental e emocional. Logo na primeira aula, percebi que o ioga era aquilo que procurava. Pensei que a falta de flexibilidade e de coordenação fosse um entrave, mas não. Acho que sou a prova de que o ioga é para todos independentemente da condição física: melhorei a minha flexibilidade, equilíbrio corporal e no dia a dia diminuiu a rigidez muscular, o que me ajuda bastante nas dores”, partilha Catarina.

Já sabemos que faz bem à mente mas será que o ioga é suficiente para o corpo? Paula Cordeiro confessa que, inicialmente, teve algumas reservas. “Pensei sempre que o ioga não seria suficiente, que teria de combinar com atividade cardiovascular e eventualmente alguma tonificação. Posso dizer que hoje sinto-me mais em forma do que nunca, tenho o corpo tonificado, força e grande capacidade cardio-respiratória. Como? Chama-se ioga e tem essa capacidade de mudar não a nossa vida, mas a forma como vivemos.”

Tudo aquilo que precisamos está dentro de nós

A premissa base do Retox de Lauren Imparato é exatamente esta: temos vinte coisas a competir pela nossa atenção e energia ao mesmo tempo e a vida é mesmo assim. Mas vamos pagando esse preço com o corpo e com a mente: dores de cabeça, stress, insónias, vício do smartphone, ansiedade, oscilações de peso e a lista continua. O que o Retox nos quer ensinar é que, para cada dificuldade, há técnicas dentro de nós que podemos desenvolver para que a vide seja simples. Ou melhor, para que, apesar de tudo, a consigamos viver em tranquilidade.

“Comecei a fazer ioga para controlar a ansiedade. Sempre fui ansiosa mas, depois de ser mãe, toda a responsabilidade de criar este ser fez com que começasse a viver picos de ansiedade cada vez maiores. Passava o dia preocupada no trabalho, mesmo sabendo que o meu filho estava bem. Mas isto consumia-me e estava a entrar num desgaste psicológico enorme. Comecei por fazer download de duas apps no telefone (a down dog e a daily yoga) mas acabei por procurar aulas e o click foi imediato. O ioga ajudou-me a ganhar mais consciência do meu corpo mas principalmente da minha mente. Passei a controlar melhor os pensamentos e a acalmar a mente através da respiração”, conta Lídia Dias ao Observador.

Catarina concorda: “A nível mental o ioga mudou a minha vida toda. Tornei-me numa pessoa mais calma, mais presente e consciente. Tem sido ótimo para me ajudar a controlar a ansiedade e melhorei a parte respiratória. Aquilo que senti foi que, a partir do momento em que comecei a praticar ioga, tornei-me numa pessoa mais equilibrada a todos os níveis. Eu sei que isto não é fácil explicar por palavras mas posso dizer que estas mudanças acontecem quase de forma natural e espontânea.”

E quem nunca experimentou ioga?

Eis a pergunta mágica. Como entusiasmar quem olha para o ioga sem grande vontade em experimentar? “Tenho falado tantas vezes sobre a forma como o ioga mudou a minha vida que já incentivei outras pessoas”, diz Paula. “É como encontrar uma postura perante a vida que nenhum outro desporto ou atividade física pode dar. Os desportistas, mesmo amadores, são quase sempre pessoas resilientes, capazes de grandes sacrifícios com um sorriso no rosto, sempre dispostos a dar a “the extra mile” porque se consegue sempre ir mais longe, ter mais músculo ou mais flexibilidade ou ser mais rápido, mais perfeito… Há sempre um “mais” para alcançar. Mas no ioga esse “mais” traduz-se numa espécie de bem-estar pleno. E não há “mais” tão relevante do que estarmos bem connosco. Cheguemos ou não com as mãos ao chão, consigamos ou não ficar de cabeça para baixo. Estamos sempre a dar o melhor de nós, não apenas quando praticamos mas em todos os momentos do dia a dia.”

“A minha professora de ioga diz sempre uma coisa: devemos dar o benefício da dúvida durante um mês e depois decidir se queremos ou não continuar. A maioria das pessoas continua”, partilha Catarina, acrescentando que ninguém pode julgar que não é capaz só porque não tem flexibilidade ou devido ao peso. “O ioga é para todos, todos mesmo. Uma das alunas da minha turma está numa cadeira de rodas e faz ioga. Não há exercício mais inclusivo. Tornamo-nos pessoas mais felizes e serenas depois de começar a praticar e essa felicidade traduz-se num dia a dia melhor.”

Por onde pode começar…

Se já está conquistado com estes três testemunhos positivos, veja algumas opções para começar a conhecer o ioga.

Livros

  • “Retox”, de Lauren Imparato;
  • “Yoga-me”, de Filipa Veiga;
  • “Yoga Girl”, de Rachel Brathen;
  • “Um Chá, Torradas e Yoga”, de Bruno Reis;

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