“Diálogo e vida. Nisto poderão sempre contar connosco.” Foi esta a promessa deixada por Quim Torra, o candidato proposto pelo Juntos Pela Catalunha e pela Esquerda Republicana (ERC) para liderar a Generalitat, no parlamento da Catalunha esta segunda-feira. A sessão de investidura teve o resultado esperado, depois da abstenção anunciada da Convergência e União Popular (CUP, extrema-esquerda), com 66 votos a favor, 65 contra e quatro abstenções. A votação coloca assim fim a uma incerteza que se arrastava há cinco meses, desde as eleições de dezembro de 2017, quando o Ciudadanos foi o partido mais votado mas não conseguiu formar governo, já que os partidos independentistas formam a maioria na câmara.

“Temos que reconhecer as lições aprendidas se queremos avançar. E qualquer independentista reconhecerá que houve erros”, disse Torra no seu discurso, fazendo um mea culpa onde incluiu ainda os seus tweets polémicos, “colocados fora de contexto, que podem ter ofendido”, garantindo que “não voltará a acontecer”.

Quim Torra pede desculpa por antigos comentários xenófobos

No discurso do debate de investidura, o candidato aproveitou para explanar o seu programa de Governo, que inclui a defesa do “modelo de escola catalã” e o “controlo democrático da energia”. O independentista prometeu ainda desenvolvimento económico, promovendo um “pacto nacional” que permita atingir um salário mínimo de 1100€ brutos por mês: “Sem prosperidade económica não há progresso individual nem coletivo”, afirmou no hemiciclo.

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Mas o momento serviu também para reforçar os ideais independentistas, com Torra a utilizar repetidamente o termo “República catalã” e a reforçar as suas críticas ao Artigo 155. “O problema catalão não é somente um problema da liberdade da Catalunha, é também um problema da liberdade de Espanha. Mas ano após ano vimos como o Estado espanhol afogou o nosso futuro”, criticou, acrescentando que os catalães têm “soberania política” para “decidir o seu futuro”. Foi o culminar de um discurso que terminou com um agradecimento aos “presos políticos” pela sua coragem, o que arrancou um forte aplauso à audiência. “Na nossa República, cada pessoa ganhará direitos, ninguém os perderá”, prometeu Quim Torra, num discurso que contou ainda com a promessa de ser fiel ao “mandato de 1 de outubro” — ou, por outras palavras, ao desejo de independência expresso por muitos catalães no referendo dessa data.

Oposição destaca credenciais “xenófobas” de Torra

A oposição decidiu focar-se não apenas nos tweets polémicos e considerados por muitos xenófobos, mas trouxe também ao debate alguns artigos de opinião publicados por Quim Torra no passado que seguem no mesmo sentido.

O mote foi dado por Inés Arrimadas, líder do Ciudadanos (maior partido da oposição), que abanou um artigo de Torras onde se comparava os catalães que falam castelhano a “bestas”: “Isto é jornalismo?”, perguntou repetidamente Arrimadas, que acusou o candidato independentista de defender “a xenofobia e o populismo”. “Nós é que estimamos a Europa do século XXI. Defendemos a união, a tolerância, a diversidade”, disse, acusando o projeto dos independentistas de “anacronismo”.

Miquel Iceta, dos socialistas, alinhou pela mesma bitola e leu um fragmento de um outro artigo, de 2011, onde Torra escrevia que “hoje não há diferenças entre um socialista catalão e um socialista espanhol” e que “a velha raça do socialista catalão extingiu-se”. “Isto não é um tweet... Que demónios são estes?”, questionou Iceta. “Que pensa dos catalães e catalãs que se sentem espanhóis e espanholas? O tema não são os tweets. Quando olha para a Catalunha, vê-nos a todos ou só a uma parte?”, perguntou o líder do PSC.

Pergunta semelhante foi feita por Xavier Domènech, do En Comú Podem (formação catalã do Podemos): “Pensa em todos no país ou apenas numa pequena parte do país?”, perguntou Domènech, que sublinhou que os catalães “estão cansados” e “querem um Governo”, mas que acusou a ERC e a CUP de não terem tido a coragem de ir mais além e apresentar um candidato verdadeiramente “progressista” — razão pela qual o Podemos anunciou o seu voto contra.

Xavier García-Albiol, do Partido Popular (PP), anunciou o seu voto contra, como seria de esperar. “Hoje, o governo da Catalunha passará para as mãos de um homem que nos considera forasteiros. Já o conhecemos. Agora a União Europeia também o conhece”, disse, comparando o aval da CUP a esta investidura a uma “hipoteca” que terá de ser paga “por todos os catalães”.

Do outro lado, Sergi Sabria, em representação da ERC, tentou destacar o pensamento inclusivo dos independentistas, arrancando a sua intervenção com um “Bom dia” dito em sete línguas — as que, de acordo com Sabria, se falam na Catalunha. “Somos um povo de povos, uma nação de todos. Queremos ser um país construído a partir da diversidade das suas gentes”, garantiu, acrescentando que não deseja “um país onde o fascismo se cimente” e onde “a polícia prenda os que querem votar”.

Já Carles Riera, da CUP, explicou a abstenção da sua força política como forma de “criar um terreno de luta política contra o Estado”, mas garantiu que não pode apoiar Torra porque o seu Governo “não se firma em objetivos de desobediência e confrontração”. “Uma das prioridades atuais é fazer acreditar também no independentismo”, sublinhou.

Na sua réplica aos deputados, Torra sublinhou que governará “para todos, sem qualquer dúvida”. Lamentou a falta de discussão das propostas que apresentou, garantiu que defenderá “ideias progressistas” e prometeu que o seu executivo, daqui em diante, “governará bem e governará forte”. Reforçou o seu desejo de diálogo: “Insisto, se hoje o senhor Mariano Rajoy me chamar, fico encantado por ir à Moncloa falar.” À CUP, Torra deixou uma palavra de agradecimento pela abstenção que lhe permitiu ser eleito, como “oposição construtiva”, e deixou uma promessa: “Sim, as ruas serão sempre nossas.”

Tensão entre Governo e Generalitat deverá manter-se

O discurso do candidato dos independentistas pode ter assumido um tom conciliatório a espaços, mas a situação de tensão entre Barcelona e Madrid não deverá alterar-se na sequência desta investidura. O deputado do PP García-Albiol deixou o aviso na sua intervenção: “Hoje voltou a insistir na sua vontade de diálogo com o Governo de Espanha. Acha mesmo que o presidente do Governo vai negociar com quem despedaça Espanha?”

Coube a Eduard Pujol, do Juntos Pela Catalunha, responder-lhe: “Se o Estado quer diálogo, a primeira coisa que tem de fazer é cumprir a palavra dada, ser digno”, declarou. “Senhor Rajoy, em que dia vai levantar o 155?”, perguntou ao chefe do Governo espanhol. “Senhor Rajoy, senhor Rivera [líder Ciudadanos], senhor Sánchez [líder PSOE], os três tenores, façam um favor, não durmam sobre o louros, não nos tentem enganar e levantem o 155.”

Durante o debate, Mariano Rajoy tornou pública uma mensagem sua onde sublinhou as ideias que tem defendido ao longo dos últimos meses, reforçando a necessidade de garantir “a lei, a Constituição espanhola e o cumprimento do resto do ordenamento jurídico”, mas dizendo-se disposto a “apostar no entendimento e na concórdia”. Segundo o El País, Rajoy e Pedro Sánchez, líder dos socialistas, reuniram-se de manhã para acertar posições sobre a Catalunha.

O senador do PP José Manuel Barreiro, pela manhã, tinha falado sobre este assunto, garantindo à rádio Onda Cero que o Artigo 155 só deixará de ser aplicado “quando houve um Executivo que respeite a legalidade”. “No pressuposto de que não se respeite a legalidade, o 155 será de novo aplicado para recuperar o Direito na Catalunha. Mas esperamos que esta situação não aconteça”, disse.

Após a confirmação do novo candidato apresentado pelos partidos separatistas Juntos Pela Catalunha e ERC, o presidente do parlamento, Roger Torrent, irá de seguida comunicar formalmente a investidura ao Rei de Espanha. Habitualmente, este contacto costuma ser feito pessoalmente, mas Torrent decidiu fazer a comunicação por escrito, justificando a decisão com a “quebra de tradição” ocorrida na legislatura passada quando Felipe VI recusou receber a anterior presidente, Carme Forcadell, atualmente detida.

Já o anterior presidente da Generalitat, Carles Puigdemont, acompanhou o discurso de Torra pelo seu computador, em Berlim, onde se encontra atualmente exilado.