Foi um dos momentos mais altos do casamento real. Depois de todo o entusiasmo de ver os noivos, as roupas e as celebridades, quando a pulsação já tinha abrandado um pouco, foi dada a palavra ao bispo Michael Curry. “Temos de descobrir o poder redentor do amor. Quando descobrirmos isso, seremos capazes de fazer deste velho mundo novo, porque o amor é o único caminho”, começou por dizer o sacerdote norte-americano. Essas palavras não eram suas mas sim de Martin Luther King Jr.. Logo a partir deste momento percebeu-se que estava a chegar algo de diferente.

Durante os cerca de 15 a 20 minutos que se seguiram, Meghan e Harry estiveram sentados, a ouvir com atenção as mensagens de amor e as metáforas que o associavam ao fogo. Ao mesmo tempo, o resto da audiência ia-se dividindo entre sorrisos (como os de David e Victoria Beckham) e ares de estupefação (veja-se a cara de Zara Tindall), tal era a forma exuberante e teatral com que Michael Curry falava. A internet rapidamente adotou o sacerdote da Igreja Episcopal norte-americana como uma das figuras do dia — basta ver como tornou-se no tema mais tweetado de toda a cerimónia –, mas a pergunta que ficou no ar, porém, era simples: quem é Michael Curry?

Nascido em Chicago, Michael Bruce Curry afirma (na sua autobiografia, “Songs My Grandma Sang”) ser descendente de escravos e agricultores dos estados da Carolina do Norte e do Alabama. Atualmente com 65 anos, este homem é hoje o mais destacado líder religioso da Igreja Episcopal norte-americana, movimento religioso que, à semelhança da Igreja de Inglaterra, faz parte da Comunidade Anglicana. Nomeado para este cargo em 2015, tornou-se o primeiro afro-americano a assumir uma posição desta relevância.

Formado (com distinção) na Universidade de Hobart, na cidade de Geneva, no estado de Nova Iorque, foi aperfeiçoando a sua “arte” durante durante vários anos. Primeiro na Universidade de Yale, mais tarde na de Princeton, passando ainda pelo Instituto Ecuménico do seminário de St. Mary (em Baltimore) e mais tarde no Instituto de Estudos Judeus e Cristãos.

Esta invejável carreira académica pode ter sido pautada pelo sucesso que foi alcançando, contudo, já nesta altura, o bispo que foi escolhido pelos novos Duques de Sussex (Meghan terá sido mais insistente na sua participação) destacava-se pela sua forte veia reivindicativa. Numa entrevista de 2016 dada ao The New York Times, Curry explicou que mesmo quando ainda estava no seminário, a sombra do racismo fazia-se sentir de forma pesada: “a expectativa na altura era a de que, se fosses um padre ou um seminarista negro, ias acabar por ir parar a uma igreja negra. Existia um mundo da igreja negra e outro da igreja branca. Era assim o que o racismo se demonstrava e ninguém dizia nada sobre o assunto”, explica. No mesmo trabalho do jornal norte-americano, Curry falou ainda dos “padrões de discriminação (raça, género e classe social” que sempre assolaram o mundo e sobre isso exclama: “Deus não criou ninguém para ser cidadão de segunda… Ele nunca limitou o seu amor, acolhia todos. O gajo [Deus] sabia do assunto.”

[Veja no vídeo os momentos mais populares e enternecedores do casamento real]

Um ano antes de ser eleito para o cargo que ainda hoje ocupa, a Igreja Episcopal anunciou que ia permitir que os seus sacerdotes pudessem realizar casamentos homosexuais, decisão que deu origem a sanções vindas da Comunidade Anglicana mas que Curry admite ser “um sinal de esperança”. “Para os muitos que se sentem rejeitados pela igreja por causa daquilo que são, para todos aqueles que se sentiram excluídos das suas famílias e comunidades, a abertura da nossa igreja foi um sinal de esperança. A decisão de imporem-nos sanções só serviu para juntar mais dor a toda aquela que já existia.”

Em janeiro de 2018, Curry voltou a ‘entrar de pés juntos’ em novo tema polémico. Depois da explosão causada pelo movimento #MeToo, o sacerdote quis ir mais longe afirmando que a sua igreja devia “examinar a sua história e alcançar um entendimento mais completo sobre como” é que foram “tratados ou não tratados” os casos de assédio sexual, exploração e abuso “ao longo dos anos”.

Numa carta que assinou em parceria com outro responsável da Igreja Episcopal, Curry afirmou que “as mulheres sofreram traumas impensáveis nas mãos de homens agressores e abusadores”, acrescentando ainda que “é preciso empenharmo-nos em acabar com o sexismo sistémico, misoginia e abuso de poder que infetaram a igreja e corromperam a cultura, as instituições e os governos.”