A desaceleração da economia europeia (cujo andamento é crucial para Portugal) no primeiro trimestre não se deveu apenas ao mau tempo e aos feriados, defendem economistas do ING. O banco holandês defende que há outras razões para o abrandamento, além dos fatores transitórios que têm sido enumerados (além do clima e o timing dos feriados, as várias greves que aconteceram na Europa). Olhando para os indicadores avançados que foram divulgados esta quarta-feira, relativos a maio, o ING suspeita que tenha terminado o período de aceleração sólida da economia europeia.

O que são indicadores PMI?

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Os índices de gestores de compras (ou purchasing managers index, PMI) tentam antecipar a direção da economia nos próximos meses — pelo que são chamados indicadores avançados. Dividem-se entre os dados para a indústria e para os serviços — e, depois, há um indicador global (“compósito”). Em todos esses, um valor acima de 50 pontos indica uma expansão da atividade, ao passo que um número abaixo de 50 pontos sinaliza uma inversão negativa.

“That’s all, folks“, escreve o ING, recuperando o famoso slogan dos Looney Tunes que, em português corrente se pode traduzir por “acabou-se o que era doce”. O escasso otimismo dos economistas do banco holandês baseia-se nos indicadores de gestores de compras (PMI, na sigla original) que foram divulgados esta terça-feira e que apontam para um declínio para 54,1 pontos em maio (contra os 55,1 pontos de abril). Tanto os indicadores relativos à indústria como aos serviços caíram, para o nível mais baixo em mais de um ano.

“Tem sido repetido ad nauseam que o crescimento no primeiro trimestre na zona euro abrandou por culpa de fatores temporários como o mau tempo, o timing dos feriados da Páscoa, uma epidemia de gripe e as greves. Mas até agora não temos visto qualquer sinal de recuperação nos indicadores de sentimento económico, no segundo trimestre, pelo que não é de esperar uma grande reaceleração”, avisa a equipa de economistas liderada por Peter Vanden Houte.

O mês de maio também pode ter sofrido alguma distorção devido ao número de feriados, mas mesmo assim o declínio no sentimento económico continua a ser significativo”

O ING admite que ainda seja possível crescer (em cadeia) os mesmos 0,4% que foram registados no primeiro trimestre (que tinham sido uma desaceleração face aos 0,7% do trimestre anterior). Mas “existem alguns desafios” mesmo para conseguir manter esse ritmo de crescimento mais baixo.

Os preços elevados nos combustíveis estão a penalizar o poder de compra dos consumidores e, por outro lado, a incerteza em torno do comércio com os EUA e o risco de novas tensões nos mercados financeiros devido ao novo governo em Itália também são fatores que podem pesar no crescimento nos próximos trimestres”

O banco holandês continua a manter confiança num crescimento de 2,2% do Produto Interno Bruto (PIB) na zona euro, “mas fica-se com a sensação de que é mais provável que o ímpeto de crescimento volte a abrandar do que possa acelerar”. Em 2019, a economia europeia deverá, “no melhor dos cenários”, abrandar para um crescimento de 1,8%, antecipa o ING, concluindo que “quando avaliamos as perspetivas de crescimento na zona euro, infelizmente, temos de recordar a famosa frase dos Looney Tunes That’s All, Folks“.

Para Portugal, como economia aberta muito dependente do exterior, estas são más notícias que, na realidade, já começam a ser refletidos na análise do Banco de Portugal. “Em abril, o indicador coincidente mensal para a atividade económica manteve a trajetória descendente iniciada em setembro de 2017. O indicador coincidente mensal para o consumo privado estabilizou face ao mês anterior”, referiu o Banco de Portugal no último dia 18 de maio.