As imagens da câmara número 1 instalada à entrada da Academia de Alcochete mostram-no a entrar nas instalações naquele dia 15 de maio, pelas 17h00. O ex-líder da Juve Leo chegou ao mesmo tempo que quatro outros adeptos do Sporting e é referido no processo das agressões por várias testemunhas e vítimas da violência que abalou a Academia naquele dia. Pelo menos dois dos adeptos que chegaram ao mesmo tempo que ele foram detidos e estão em prisão preventiva. Mas, Fernando Mendes permaneceu no local, saiu de lá num carro BMW autorizado pela segurança, e está em liberdade sem qualquer restrição.

A GNR não explica porque não foi detido, embora a investigação ainda continue e possa conduzir a mais detenções. Mas, no auto de notícia que consta no processo, a presença de Fernando Mendes só é assinalada por algumas testemunhas, como os elementos da segurança, e uma das vítimas, no caso o treinador Jorge Jesus. Na descrição do que aconteceu naquele quase final de tarde, quando um grupo de cerca de 50 suspeitos entrou na Academia numa onda de violência, os militares do Núcleo de Investigação Criminal da GNR que estiveram no local não falam de Fernando Mendes.

O primeiro testemunho às autoridades é do porteiro que naquele dia estava à entrada da Academia, quando se apercebeu que um grupo de jornalistas no local desatou a correr para o interior. Descreve, depois, como de seguida se aproximou o grupo dos 50, trajado de negro, a caminhar como um “pelotão”. Rui F. refugiou-se no interior da cabine, porque sozinho nunca conseguiria travar a entrada de um grupo tão grande, e telefonou para o chefe da segurança. Tudo o que se passou de seguida, e que culminou em agressões violentas e destruição, testemunhou, impotente, através das câmaras do sistema de videovigilância.

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Segundo ele, foi tudo rápido e não terá durado mais do que 5 minutos. Após o ataque no balneário, onde se encontravam os jogadores, recorda que viu cerca de 30 a correrem para a saída, outros a saltarem a vedação e “seis ou sete” que permaneceram no local. Nesses seis ou sete estava Fernando Mendes. Por esta altura, Rui F. recebeu um telefonema do chefe de segurança: pedia-lhe que autorizasse a entrada de um BMW azul. E terá sido nesse carro que parte do grupo de Fernando Mendes abandonou Alcochete.

Já o chefe da segurança explicou à GNR que reconheceu alguns adeptos como sendo da claque Juve Leo. Diz que até tentou falar com eles, após entrarem, na tentativa de os demover a entrar no balneário. Mas que o mandaram sair da frente. Acabou por assistir a algumas agressões, mesmo tentando impedi-las, até que se apercebeu que no local estavam alguns membros da claque que tinham a cara destapada. Revela, então, ter falado com Fernando Mendes, que estaria acompanhado por um amigo. E que havia três outros adeptos junto a ele. “Não estariam integrados no grupo de indivíduos [responsáveis pelas agressões], mas supostamente estariam à retaguarda”, referiu. Segundo ele, estes adeptos condenaram o comportamento dos restantes e disseram que apenas queriam falar com os jogadores. Mas, pelo menos dois deles, acabaram detidos.

Versão coincidente teve um outro funcionário da Academia, que ainda tentou impedir a agressão a Jesus, informando o grupo ser ele o “senhor que tratava da relva”. Mas o treinador acabaria por ser agredido mais tarde. Esta testemunha disse que esse grupo, onde estava Fernando Mendes, ficou no local à espera da GNR e que alegou nada ter a ver com o caso e que só estava ali para conversar.

Jorge Jesus é no entanto quem mais fala do ex-líder da claque leonina e diverge na descrição. O treinador do Sporting, que foi agredido por dois adeptos — um deles atacou-o com um cinto — diz que estava no chão quando percebeu que no grupo havia um elemento de cara destapada, que bem conhecia: Fernando Mendes. “Fernando, ajuda, estes gajos estão a bater nos jogadores, ajuda-me”, terá implorado ao ex-líder da claque leonina. “A gente não veio aqui para bater, só para falar”, ter-lhe-á respondido Mendes. Mas nada fez para travar ou evitar as agressões, denunciou Jorge Jesus às autoridades. Uma versão diferente das anteriores testemunhas.

“Fernando, ajuda, estes gajos estão a bater nos jogadores, ajuda-me”. O relato que Jorge Jesus fez à GNR

Para o juiz o grupo é só um e todos têm culpa

O argumento de que naquele dia entraram na academia dois grupos, um de cara destapada e outro de cara coberta– e que só o segundo teria tido responsabilidades no crime — chegou a ser uma tese da defesa de alguns dos nove arguidos que se disponibilizaram a prestar declarações em sede de primeiro interrogatório judicial. No entanto, não foi considerada pelo juiz de instrução que ficou com o caso.

No despacho assinado por Carlos Delca e conhecido esta segunda-feira, o juiz considera não existirem “dois grupos”. Para ele, todos os 23 arguidos — ou os nove que quiseram falar — sabiam ao que iam, todos estavam no local e ninguém fez nada para impedir as agressões e a violência.

“Dos fotogramas resulta, claramente, que os arguidos estavam inseridos no seio do grupo, pese embora estivessem mais atrás ou mais à frente, que todos se aperceberam, também claramente, do que se estava a passar”, considerou o juiz que determinou que os 23 arguidos ficassem em prisão preventiva. E reconheceu que esse grupo teria uns 50 elementos — logo que há suspeitos que não foram detidos.

O magistrado fala em “premeditação” do crime, numa “atuação” demasiado repentina que impossibilitou uma “reação” por parte das vítimas. E considera que todos os suspeitos “atuaram com o propósito concretizado de causar estragos nos bens supra referidos, não se coibindo de fazê-lo como o fizeram (…) cientes que empregavam violência nos seus atos, com o arremesso de tochas na sua direção, bem como colocando os ofendidos na impossibilidade de lhes resistir e fugir dirigindo-lhes expressões que causaram receio e temor pela sua vida e integridade física”, lê-se no despacho.

Chegou com Fernando Mendes, mas fugiu e foi detido

Fernando Mendes chegou à Academia acompanhado de dois outros adeptos, mas regressou a casa apenas com um deles. O outro foi um dos 23 detidos pela GNR no final daquela tarde. Segundo contou em interrogatório judicial, Bruno Monteiro, 30 anos, combinou com o ex-líder da claque deslocarem-se a Alcochete para falarem com os jogadores, mas quando se apercebeu da “confusão”, e de que a GNR chegaria a qualquer momento, decidiu fugir a pé. É que Bruno enfrenta, neste momento, duas penas suspensas e se cometesse um outro crime poderia ser preso. No cadastro, Monteiro conta já com uma pena de cadeia de quatro anos e nove meses de prisão suspensos e com outra de nove meses pelo crime de ameaça agravada por causa de uma altercação à porta de uma discoteca.

Durante a fuga, segundo explicou, acabou por apanhar boleia de um BMW preto, que — sem ele saber — acabara de escapar à barreira policial montada pelos militares, quase abalroando uma viatura da GNR. O carro seria intercetado momentos depois da fuga às autoridades. No interior seguiam oito adeptos, um deles era Bruno, o amigo de Fernando Mendes.

No fotograma que está no processo e onde aparece Fernando Mendes, aparece também, segundo a GNR, o arguido Gustavo Tavares. Gustavo terá falhado o ponto de encontro com o restante grupo, no Lidl do Montijo, porque decidiu parar para pôr combustível no seu Smart. As imagens mostram-no a entrar ao mesmo tempo que Fernando Mendes, mas o auto da GNR dá conta que foi detido quando corria a pé, de regresso em direção ao seu carro.

Perante o juiz, os arguidos admitiram que no próprio dia em que se deslocaram a Alcochete houve várias mensagens trocadas, via WhatsApp, e que a intenção era falar com os jogadores e técnicos, tendo em conta os últimos acontecimentos e resultados da equipa. Nessas mensagens, no entanto, foi percetível a intenção de algumas “daquelas pessoas” de que a entrada na Academia “seria forçada” para “a prática de atos violentos e agressivos contra os jogadores e técnicos”. O juiz sublinha, mesmo, que “todos ele se aperceberam do lançamento de tochas, das agressões e mesmo assim prosseguiram com a intenção de entrar e permanecer naquelas instalações”. “Conformaram-se com a situação”, acrescenta, mesmo depois de ouvirem alguém dizer “eles vão fazer merda” e assistirem às agressões e ao lançamento de tochas e nada fizeram.

Os arguidos Bruno Monteiro e Gustavo Tavares, que entraram ao mesmo tempo que Fernando Mendes, disseram também que ouviram Jorge Jesus a pedir ajuda ao ex-líder da Juve Leo. E que ambos ficaram a falar com ele, uma versão não sustentada pelo treinador do Sporting.  Ainda assim, mesmo tendo presenciado as agressões, “nenhum deles deu qualquer apoio ou procurou inteirar-se do estado dos jogadores”, agravando a sua culpa, refere o juiz.

A GNR deteve 23 suspeitos, cinco foram intercetados a pé quando corriam em direção aos carros que estacionaram a 1 quilómetro do acesso à academia, os restantes foram apanhados em três carros intercetados pelos militares.

Fernando Mendes já tinha apertado jogadores no aeroporto da Madeira

Fernando Mendes aparece também em imagens captadas pelo Correio da Manhã TV no aeroporto da Madeira, no dia em que o Sporting foi derrotado pelo Marítimo e perdeu a hipótese de ficar em segundo lugar e ter acesso à Liga dos Campeões e aos seus milhões. Ouve-se o ex-líder da claque dizer aos jogadores, com ar ameaçador: “Falamos em Alcochete”. Acabou por ter que ser retirado pela PSP daquele local e há quem defenda que este foi o rastilho para o que aconteceu na Academia depois.

No último domingo, Fernando Mendes foi também impedido de entrar no Jamor  à entrada para o Estádio Nacional, onde o Sporting e o Aves iam disputar a final da Taça de Portugal, segundo avançou a comunicação social. Fonte da PSP disse ao Observador, no entanto, não ter qualquer registo dessa ocorrência nem ter, sequer, conhecimento que o adepto do Sporting seja alvo de alguma espécie de interdição de entrada em campos de futebol. “Pode ter sido impedido de entrar apenas por não ter bilhete”, referiu a fonte.

Caso pode passar para a PJ

A investigação à invasão da Academia de Alcochete que terminou com agressões ao treinador Jorge Jesus, aos jogadores William de Carvalho, Acuña, Battaglia, Fredy Montero, Misic, Rui Patrício, Petrovic, ao treinador-adjunto Mário Pinto e ao enfermeiro Carlos Mota poderá passar para a Polícia Judiciária nos próximos dias, uma vez que está em causa um crime de terrorismo. O Observador apurou que esta será uma decisão a tomar pelo Ministério Público nos próximos dias.

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