Jelena tinha apenas 17 anos. E era considerada, unanimemente, uma tenista prodígio. Acabara de ser derrotada nas semifinais do torneio de Wimbledon. Corria o ano 2000. Ao telefone, com o pai, depois da derrota, voltava a violência, verbal, que vivera desde que tinha seis anos. “Os insultos, arrastados, os gritos, diziam-me que estava bêbado. Conhecia-lhe o tom. Era o tom de vinho branco e provavelmente algumas garrafas de whisky. Ele estava furioso. Furioso por ter perdido. E a voz explodiu no telefone: ‘És patética, uma vaca sem esperança, e não vais voltar para casa. És um embaraço'”, conta agora, aos 35 anos, Jelena Dokic na autobiografia “Unbreakable”.

A tenista de ascendência croata mas naturalizada australiana implorou ao pai que a deixasse regressar ao hotel. Mas Damir desligou-lhe o telefone, não voltando a atender. A tenista foi encontrada, às 11 da noite, por uma empregada de limpeza no lounge dos jogadores, em Wimbledon. Acabaria a noite numa casa pertença da organização do torneio britânico. “Eu tinha acabado de chegar às semifinais de Wimbledon. Mas aos olhos do meu pai eu não era merecedora de de regressar a casa naquele dia”, explica no livro Jelena.

Os abusos não foram só verbais. Foram igualmente físicos. Tantas vezes físicos. Jelena nunca os admitira. Nunca contara a ninguém. Porquê agora? “Acho que alguma coisa mudou quando cheguei aos 30. Acho que finalmente consegui afastar-me do passado e de tudo o que vivi. Melhorei mentalmente, a pouco e pouco, e senti que havia algo que podia fazer agora, era suficientemente forte agora. Mas foi um assunto difícil de contar em livro. Porque sofri abusos durante 20 anos. E quase cheguei a cometer suicídio”, explicou à CNN.

Damir comprou uma raquete de ténis à filha quando esta fez seis anos. Percebeu que Jelena era talentosa. E via no talento da filha uma forma de a família, refugiada da Guerras dos Balcãs, escapar à pobreza. Num treino, ainda com seis anos, o pai agrediu-a com um estalo para a corrigir. Foi a primeira vez. “Com aquele estalo o meu pai introduziu-me para algo que me tornaria brilhante nos courts: o medo que tinha dele.” As agressões endureceram. Mais e mais. Certo dia, durante o Open do Canada, em 2000, e depois de uma derrota de Jelena, chegou mesmo a perder os sentidos com as agressões sofridas.

Jelena sofreu-as em silêncio. A polícia chegou até a ser chamada a um hotel, quando tinha apenas 14 anos, depois de agredida pelo pai, e a tenista recusou-se a apresentar queixa contra o progenitor. Mas Damir Dokic não era só agressivo com Jelena em privado, era-o também nos courts, chegando a ser expulso de alguns por causa do seu comportamento irascível nas bancadas. Jelena defendeu-o sempre na sala de imprensa.

Em outubro de 2002, disse basta. E afastou-se de Damir Dokic. Durante a noite fugiu, somente com a raquete e uma mochila — mas sem os quase 4,5 milhões de euros que havia ganho em torneios, milhões com os quais o pai ficou.

Em 2009, Damir Dokic foi condenado a 15 meses de prisão depois de ameaçar explodir com a embaixada sérvia na Austrália se a sua filha não retirasse as acusasses de violência feitas contra si em entrevista à revista Australia’s Sport & Style. Jelena ainda tentou uma reaproximação. Mas foi em vão. “Tentei reconciliar-me com ele algumas vezes. Eu tentei absolutamente tudo, a sério. Mas não foi possível. Era difícil comunicar com ele. O meu pai é uma pessoa difícil. E continuava a dizer que não tinha feito nada. Nem era capaz de pedir desculpa”, explicou.