Todas as equipas, a certa altura, têm o seu herói improvável. O da Bélgica, que por acaso tem mais de “secundário” do que de impossível, é Thomas Meunier, o lateral direito do PSG – que faz todo o corredor na seleção, aproveitando o esquema de três centrais implementado pelo técnico Roberto Martínez. No jogo deste sábado, contra a Inglaterra, foi ele que desbravou caminho à melhor participação de sempre da formação belga num Mundial, com aquele pontapé aos quatro minutos, ali na zona onde normalmente gravitam os pontas de lança.

Mas não foi “só” isso. Meunier foi também o homem da assistência a Chadli no 3-2 ao Japão – e este sábado o homem do outro extremo devolveu-lhe a gentileza, assistindo-o com os britânicos – e foi, também o homem que travou, nos quartos de final, o brasileiro Neymar, companheiro de equipa no PSG. Conhece-o de ginjeira, Meunier (dentro do que é possível conhecer um jogador que, a qualquer momento, pode pegar na bola e fazer com ela o que ninguém espera) e travou os desequilíbrios do avançado – de quem diz que teria um poster pendurado na parede do quarto, se tivesse dez anos. Meunier está a dar cartas, ou melhor, a continuar a dar, porque já tinha provado o que é no clube parisiense, onde na última época fez 34 jogos e apontou cinco golos.

O passado como carteiro e a trabalhar numa fábrica

Não é à toa que adjetivamos Meunier de herói improvável. É que tudo na vida dele estava escrito para que não fosse nada daquilo que é hoje. Primeiro na vontade. Quando era miúdo queria passar a vida não com a bola nos pés, mas com o lápis na mão: o objetivo era ser desenhador de cartoons, por influência da avó, que era professora e o ensinou a gostar de arte. Depois na necessidade. Aos 18 anos, apenas três antes de fazer a estreia pela seleção belga, Meunier era carteiro. Tudo porque os 400 euros que ganhava no Excelsior Virton, clube da terceira divisão belga, não lhe chegavam para viver.

Levantava-se todos os dias às cinco da manhã para distribuir cartas antes do sol nascer. “Pode parecer muito divertido ser carteiro em Londres ou Nova Iorque, porque todos os apartamentos são perto uns dos outros. Então pode-se andar por aí, com o grande saco de correspondência e dar umas voltas. Mas eu sou de uma pequena aldeia na Bélgica, onde as casas são muito separadas. Quando chove e temos de estacionar o carro a 50 metros da caixa de correio, ficamos muito cansados. E fazemos isso a cada dez metros!“, conta o próprio numa carta publicada no The Players’ Tribune.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

O cansaço acabou por ganhar a luta: o jogador ficava tão estafado que dormia toda a tarde. E por isso a experiência só durou dois meses, antes de Meunier arranjar trabalho numa fábrica de peças de automóveis, a montar pára-brisas – com os dois empregos, conseguia juntar 1.200 euros por mês. A vida só mudou realmente quando rumou ao Club Brugge, em 2011/12, e passou a ser futebolista profissional.

Meunier mudou-se para o Club Brugge com 19 anos. Foi lá que se tornou jogador profissional (Dean Mouhtaropoulos/Getty Images)

Quando o sonho parecia ter morrido

“Podem pensar que tudo isto soa como uma história de Hollywood. Provavelmente estarão a pensar como é possível. Eu às vezes também me questiono. A minha carreira tem sido tão estranha que até eu tenho dificuldades em acreditar“, garante o jogador. O conto de fadas começa como começam tantas carreiras na vida: com um pai (neste caso, mas também pode ser uma mãe) a tentar projetar num filho aquilo que ele próprio não conseguiu ser.

Foi esse o caso. Havia a paixão da arte, incentivada pela avó, mas também havia o gosto pela bola no pé, desencadeado pelo pai, que era futebolista amador. “Não havia muitas coisas para fazer na nossa aldeia. Fica no meio do nada, tem apenas duas mil pessoas. Íamos para a escola, jogávamos futebol e praticávamos ginástica. Era basicamente isso”.

Aos 13 anos, os astros pareciam alinhar-se para Meunier ser jogador de futebol. Tinha acabado de entrar na formação do Standard Liège, um emblema de maior dimensão, e por lá passou dois anos, até ao dia em que a mãe foi chamada ao clube. Ninguém sabia porquê, mas percebeu-se tudo ao fim de dez minutos: Meunier acabava de ser dispensado.

Meunier defrontou Neymar mas falhou reencontro com Mbappé por castigo, nas meias-finais (DAMIEN MEYER/AFP/Getty Images)

O fim do mundo? Um drama? Nada disso. O jogador acabava de desistir de o ser. “Para mim, não foi uma catástrofe. O futebol não era o único prazer que tinha na vida. Por isso pensei: ‘Pronto, acabou. Vou para a escola normal, fazer coisas normais. Ir ao cinema, aproveitar a vida”, conta.

Só que não. O pai ficou desgostoso com a decisão do filho – afinal, os dois só falavam de futebol. A mãe ficou mais do que isso; simplesmente não a aceitou. “O futebol é a tua vida, tens de jogar”. Vai daí, ligou para um pequeno clube, o Excelsior Virton, e implorou ao treinador que aceitasse ver o filho jogar. “Fiz um jogo de teste em que ganhámos 15-3 e marquei uns dez golos. No final do jogo, o treinador veio ter comigo e perguntou-me: ‘Que número queres?‘”, recorda.

O começo como avançado

O começo da carreira, fê-la nos terrenos mais avançados do retângulo de jogo. “Comecei a marcar golos incríveis. De pé esquerdo, pé direito, cabeceamentos; de dez metros, de 50 metros. Era uma loucura. Nem dava por isso, mas as pessoas começaram a filmar os meus golos e a publicá-los no YouTube. E de repente, toda a gente na Bélgica falava do tipo que jogava na terceira divisão e marcava estes golos incríveis”, conta.

Havia uma explicação: “Sabem porque marcava aqueles golos? Porque sentia que era livre. Já não estava a jogar por obrigação. Tinha escapado da ‘fábrica de talentos’ do Standard Liège. Já não havia alguém junto à linha a dizer-me: ‘Tens de fazer isto, senão não vais ser bem sucedido’. Estava a jogar por prazer, por paixão, por amor ao futebol”.

Um dia o inevitável aconteceu: Meunier despertou a atenção de um emblema grande. Era o Club Brugge. Tinha 19 anos e o negócio fez-se barato, por 100 mil euros. Em casa, foi o delírio. “O meu pai ligou e disse-me: ‘Sim! O meu filho conseguiu! O meu filho joga pelo Club Brugge'”. Já a avó nem pestanejou quando o neto lhe pediu para adivinhar o nome do novo clube onde ia jogar. “Acreditem ou não, o Club Brugge era o clube dela”.

Nas duas primeiras temporadas alinhou como avançado, depois recuou uns metros, para defesa direito. A partir daí é história… no verão de 2016 transferiu-se para o PSG, onde é titular indiscutível para Thomas Tuchel. A partir deste sábado, tem mais uma página para acrescentar ao livro da carreira: faz parte da terceira melhor seleção do mundo. “Porquê eu? O que estou a fazer aqui? Ainda me faço essa pergunta. E a única resposta que encontro é que é o destino. De beber café numa fábrica de carros a jogar com o Neymar. Era suposto que a vida acontecesse assim“.