Uma confirmação, duas confirmações, uma meia surpresa, uma grande surpresa. José Maria Ricciardi apresentou ao início da noite no Centro Cultural de Belém a sua candidatura à presidência do Sporting após quase 20 anos desde 1995 ligado a outros cargos dos órgãos sociais, entre vogal e vice do Conselho Fiscal e Disciplinar e membro por inerência ou eleição do Conselho Leonino, mas as “notícias”, pelo menos em relação aos nomes, foram detetadas ainda antes do anúncio: José Eduardo foi o escolhido para liderar o futebol leonino (confirmação 1); Miguel Frasquilho lá acabou por aceitar o convite e encabeçará a lista da Mesa da Assembleia Geral (confirmação 2); Luís Borges Rodrigues, após sondagens a outras figuras do universo verde e branco, ficará como número 1 do Conselho Fiscal e Disciplinar (a tal meia surpresa); e Zeferino Boal desistiu de concorrer e integra as listas do banqueiro, algo mais tarde confirmado para um cargo no Conselho Diretivo (a grande surpresa, comentada pelo próprio como “algo fácil para criar entendimentos, sem discutir pessoas nem cargos”).

Desta forma, passam assim a ser oito candidaturas (apenas uma formalizada, a de Frederico Varandas) à liderança do clube de Alvalade, número que Ricciardi continua de forma insistente a reduzir apenas a seis por não contar nem com o antigo presidente Bruno de Carvalho, nem com o ex-número 2 com a área financeira, Carlos Vieira. “Anunciamos esta candidatura ainda sem apresentar o programa porque tivemos de tomar esta decisão mesmo no final. Analisámos as outras seis candidaturas, porque são seis, e achámos que, com todo o respeito pelas mesmas, nenhuma dá garantias absolutas para esta realidade”, começou por frisar. Mais tarde, numa indireta ao antigo líder do clube, reforçou que encabeça uma candidatura “que fala sempre no nós”. “O Sporting vai deixar de ser o ‘eu’, vai acabar o ‘eu’. Mas não basta apenas generosidade e voluntarismo, é preciso mais e nós, mais uma vez o nós, temos muito mais para dar”, salientou. Por fim, e já em resposta a uma pergunta, recusou falar mais sobre o ex-presidente. “Bruno de Carvalho é o passado, já falámos demais de alguém que foi destituído com 72% dos votos dos sócios. Tenho pachorra para muita coisa, mas estar a falar dele a toda a hora não”, rematou o banqueiro.

Após explicar que irá apresentar um Comissão de Honra liderada por Diogo Lacerda Machado “que será uma Comissão de sportinguistas e não de notáveis, porque notáveis são os jogadores e treinadores do futebol e das modalidades”, Ricciardi foi tentando passar algumas das mensagens fortes que tinha elaborado para a primeira apresentação formal.

Mensagem 1: a ideia de liderar uma candidatura com o intuito de agregar, por ideias e não por nomes. “O clube ficou muito dividido, com lutas internas que o enfraqueceram e é tempo de ser coeso. Zeferino Boal vai integrar a minha candidatura, com uma grande responsabilidade no Conselho Diretivo. Isto é a prova do que é agregar, porque se trata de um grande sportinguista que conhece a realidade melhor do que muita gente”, explicou. “A agregação de candidaturas não pode ser apenas uma mera junção de listas, tem de haver uma série de valores que se possam integrar. Gostávamos que fosse possível e vamos continuar a fazer. E posso prometer que, se não ganharmos a 8 de setembro, como espero que não aconteça porque viemos para ganhar, iremos fazer tudo para apoiar e ajudar porque um dos problemas são os grupos”, acrescentaria mais tarde.

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Mensagem 2: a importância da experiência e da credibilidade para ultrapassar a situação que o clube atravessa. “A situação do Sporting em termos financeiros não está para aventureiros nem para amadores. Ficamos perplexos pela forma quase ligeira com que falam porque é uma situação difícil e tem de ser bem gerida. Não estamos preocupados com o 8 de setembro mas sim com o 9 de setembro porque é a partir daí que se tem de gerir de forma eficiente e capaz. Há muita gente que quer ser presidente mas que não pensa no dia 9. Não teremos uma equipa muito grande mas será eficiente e profissional, porque teremos sobretudo a necessária capacidade de liderança (…) Esse foi um dos aspetos pelos quais saímos da zona de conforto para enfrentar uma realidade complexa. É necessária capacidade de gestão, experiência e liderança”, frisou, prosseguindo depois: “A situação financeira é complicada mas gerível, apesar de não ir lá com bandeirinhas ou cachecóis mas sim com capacidade de gestão. O Sporting já não tem mais tempo para experiências nem amadorismos, é preciso liderança e experiência”.

Mensagem 3: a necessidade de não haver divisões geracionais e por classes no eleitorado verde e branco e guerrilhas externas. “O Sporting tem de ser um clube interclassista e transversal, mas um clube digno, elevado e com fair-play que lute nas quatro linhas pelas vitórias. Ao mesmo tempo, o Sporting voltará a respeitar todos os agentes da indústria do futebol, nomeadamente toda a comunicação social que tem sido tão mal tratada. Esse não foi, não é nem nunca será o Sporting”, salientou, completando mais tarde no período de perguntas e respostas: “Normalmente perdemos com os nossos adversários porque começamos a perder cá dentro. O Sporting tem de ser mais coeso, defendendo os seus interesses sem ter gente que está sempre a criticar e que nunca está de acordo com nada. O que vemos nas principais ligas? Uma enorme rivalidade dentro das quatro linhas mas espetáculos, famílias, estádios cheios. Por cá, o A chama bandido ao B… Temos de acabar de vez com isso porque estraga a reputação do futebol e as receitas. Comigo acabaram os insultos e os palavrões”.

Mensagem 4: a resposta às críticas, as redes sociais e um episódio de “aproximação” às massas. “Anticorpos todos temos, isso não me preocupa nada, os sócios é que terão de avaliar as pessoas e o que são. Até já inventaram contas falsas no Twitter, contas que se escondem atrás de nomes falsos para insultar mas que só não se referem a Bruno de Carvalho e Carlos Vieira, o que deve ser apenas uma coincidência… Isso mostra bem o nível a que o nosso clube chegou em determinados aspetos. Até agora nunca tive a possibilidade de avançar devido aos cargos que ocupava mas nesta altura complicada em termos económicos, financeiros e de reputação, tive de fazê-lo. O que se passou na Academia foi a página mais negra que tivemos”, reforçou. “Em 2002 pedi a António Dias da Cunha, um croquete nessas tristes definições mas que foi campeão pela última vez, para ir para a parte de cima do autocarro da equipa nos festejos. Ia lá em cima ao pé do Jardel e havia centenas de milhares de pessoas na Avenida da República, na Avenida da Liberdade, na Praça do Município. Foi uma alegria brutal e o que sonho agora é voltar a ver isso mais uma vez, apesar de estarmos 16 anos mais velhos agora”, acrescentou.

Mensagem 5: a garantia de que o Sporting ficará com a maioria do capital social da SAD. “Havia dois modelos na Europa, um em que os clubes mantinham a maioria e outro em que essa maioria pertencia a outras sociedades. Falei dessas formas por saber que eram as duas que existiam mas esse segundo modelo ficou diminuído com as regras da FIFA, onde os capitais não podem ser superiores às receitas. Além disso, sei qual é a vontade dos sócios e foi por isso que dei a garantia de que a SAD será sempre do Sporting de forma maioritária”, reforçou. “Na questão da emissão de um novo empréstimo obrigacionista, é preciso ter credibilidade nessa área, como tenho até por ter liderado essa área durante muitos anos. Com essa experiência, existe a garantia de que o investimento terá o retorno correto. Em relação às VMOC, que surgiram no âmbito da última reestruturação financeira, a ideia é fazer a recompra do valor até 2026 que permita nunca perder a maioria do capital social”.

Numa cerimónia que contou com a presença de nomes como João Proença (que será candidato a vice da Mesa da Assembleia Geral), o antigo presidente da Federação de basquetebol Mário Saldanha (que nas últimas eleições estava na lista de Pedro Madeira Rodrigues), os ex-dirigentes Vítor Ferreira (Direção) e Carlos Seixas (Conselho Leonino) ou Jorge Tomé, antigo líder do Banif que é hoje sócio de Ricciardi, ex-presidente do BES Investimento e do Haitong Bank, também os outros candidatos aos restantes órgãos tomaram a palavras, além do escolhido para liderar a pasta do futebol, José Eduardo.

“É um prazer poder servir o Sporting nesta posição, numa candidatura pela positiva, que quer agregar e pacificar. O Sporting, para ser vencedor, tem de ser sustentável, para assim esta na frente. O Sporting necessita de paz e este é um projeto com experiência e mundo”, comentou Miguel Frasquilho, antigo presidente do AICEP que está agora na liderança da TAP. “Não pude deixar de aceitar o convite por acreditar que esta é uma candidatura para restituir uma dignidade histórica que tem sofrido. O Sporting é diferente e deve ter uma postura de dignidade de frontalidade”, disse o advogado Luís Borges Rodrigues, que chegou a integrar a SAD do Sporting na parte final do mandato de Luís Godinho Lopes, no final de 2012 e início de 2013.

“Tinha uma vida boa, fui recusando várias vezes os convites que me foram fazendo mas desta vez perdi a cabeça e aceitei este convite de José Maria Ricciardi. Sirvo o Sporting desde os 14 anos, no atletismo, no futebol e no futsal, onde fui o primeiro treinador campeão depois de ter ganho como jogador no futebol. Tentarei ajudar o futebol da melhor forma porque estes cabelos brancos são também sinal de sabedoria, uma sabedoria que faz com que não deixa grandes promessas a não ser organizar melhor o clube. O papel da Academia é fundamental, para ser ainda melhor do que é. Esta é uma candidatura serena, sábia, segura e confiável”, resumiu José Eduardo, que ficará na liderança de todo o edifício do futebol verde e branco.