De um lado, Sheryl Sandberg, chefe de operações do Facebook, e Jack Dorsey, fundador e diretor executivo do Twitter. À esquerda, uma cadeira vazia, que representa a ausência de Larry Page, diretor da Google. Cerca de um ano depois de os empresários terem confirmado que a Rússia utilizava contas falsas para difundir mensagens políticas e semear a discórdia, no âmbito das eleições presidenciais de 2016, Sandberg e Dorsey foram ouvidos  no Congresso dos Estados Unidos. Esta representava a última oportunidade para convencer os legisladores de que estão preparados para combater uma possível interferência estrangeira nas suas plataformas.

“A era do faroeste nas redes sociais está a chegar ao fim”, começou por dizer o senador Mark Warner no discurso de abertura da sessão. E deixou um aviso: “Para onde vamos a partir daqui é uma questão em aberto”. O vice-presidente do Comité de Inteligência do Senado não esqueceu a ausência da Google, que “tem uma grande responsabilidade”. Warner referiu ainda que está “profundamente desiludido” com a empresa e que “pensava que queriam demonstrar que levam a sério este problema”.

Ainda assim, Warner reconheceu os esforços do Facebook e do Twitter no combate às interferências, mas deu a má notícia de que “ainda há muito para fazer” e que sozinhos não vão chegar lá. “É preciso o Congresso agir”, referiu.

Sheryl Sandberg: “Fomos demasiado lentos a detetar isto”

Quando Sheryl Sandberg tomou a palavra, a democracia foi o primeiro tema que abordou: “As eleições livres são a base de qualquer democracia”, sublinhou. A responsável pelas operações do Facebook garantiu que a empresa desempenha “um papel positivo” e que “está pronta para a proteger [à democracia]”.

Em maio, a rede social garantiu que melhorou os sistemas de verificação de notícias para evitar as fake news. Sandberg voltou a sublinhar este reforço e disse que há 20.000 funcionários dedicados à segurança e um investimento na inteligência artificial para antecipar os movimentos de todos os que tentarem interferir.

A chefe de operações do Facebook garantiu que a empresa desempenha “um papel positivo” e “está pronta para a proteger [à democracia]”.

“Fomos demasiado lentos a detetar isto [interferência estrangeira] e a reagir”, admitiu a executiva, acrescentando que “esta interferência foi completamente inaceitável”. “Estamos mais determinados do que os nossos adversários e vamos continuar a lutar”, garantiu. Numa frase, Sandberg fez questão de resumir a política do Facebook em relação às contas falsas: “A nossa política é a veracidade. Se não queres dizer quem és, então expulsamos-te”. 

Jack Dorsey: “Não estávamos preparados para a imensidão dos problemas que encontrámos”

No Twitter, foram detetadas mais de 50 mil contas relacionadas com a interferência russa na campanha presidencial e a propaganda chegou a 667.775 utilizadores da rede social, informou o El Pais. Jack Dorsey admitiu que o problema é uma ameaça para o seu próprio negócio e garantiu assumir “a responsabilidade para o resolver”. O diretor do Twitter disse ainda que estão a ser identificadas cerca de dez milhões de contas falsas.

Não estávamos preparados para a imensidão dos problemas que encontramos. Abuso, assédio, exércitos de trolls, propaganda através de bots e coordenação humana, campanhas de desinformação e bolhas de filtro divisórias – isto não é uma praça pública saudável”, referiu Dorsey.

O senador Angus King questionou Dorsey sobre a linha que separava a difusão de informação verdadeira da censura. “Não iria gostar nada de ver as vossas plataformas tornarem-se políticas ao ponto de censurarem qualquer outro lado”. O fundador da rede social garantiu que “o Twitter não usa ideologias políticas para fazer qualquer decisão”.

Jack Dorsey admitiu que o problema é uma ameaça para o seu próprio negócio e garantiu: “Assumimos a responsabilidade para o resolver”

Já quando o republicano James Risch perguntou quem estabelece as regras para identificar em que situações um comportamento nas redes sociais pode ser considerado autêntico ou falso, tanto Sandberg como Dorsey admitiram que nem sempre se sabe onde estão localizadas as contas, muito menos as intenções de cada um. O empresário disse também que a sua plataforma está a reforçar a colaboração com agências de segurança, de forma a conseguirem uma atuação mais rápida perante os abusos que são detetados.  Em paralelo, estão também a desenvolver tecnologia para identificar novos padrões de comportamento e ataques.

Apesar das garantias, o senador Richard Burr considera que o que aconteceu permitiu “perceber o quão vulneráveis são as redes sociais no que toca à corrupção e desinformação” e admitiu ter medo de que mais países estrangeiros estejam a tentar usar estas redes para moldar e manipular a política americana. “Os melhores exemplos disso são de arrepiar a espinha e uma ameaça à nossa democracia”, acrescentou, pedindo aos dois executivos que sejam precisos na explicação das medidas que adotaram para enfrentar este problema. “A informação que disseminam muda opiniões”, alertou.

Em março de 2018, o Facebook esteve envolvido numa polémica que envolveu a empresa de análise de dados britânica Cambridge Analytica. A consultora acedeu indevidamente a 87 milhões de contas da rede social para ajudar a eleger Donald Trump nas eleições legislativas de novembro de 2016. Na sequência desta polémica, Mark Zuckerberg foi ouvido durante 10 horas no Congresso norte-americano. Sheryl Sandberg e Jack Dorsey estiveram a ser ouvidos esta quarta-feira durante cerca de duas horas.