Moda

“Prefiro ver uma pessoa com mau gosto, do que uma pessoa sem gosto nenhum”. Quem foi Paulo Macedo?

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Referência do styling e da produção de moda, foi durante anos diretor criativo da Vogue Portugal. Paulo Macedo morreu na última segunda-feira, em Berlim, mas deixa uma herança de sofisticação.

Paulo Macedo, produtor de moda e stylist, morreu na última segunda-feira, aos 51 anos

Gerardo Santos / Global Imagens

Paulo Macedo morreu esta segunda-feira, dia 10 de setembro, em Berlim. Tinha 51 anos e uma carreira no mundo da moda que começou ainda na década de 80. Depois de ter sido manequim, enveredou pelo universo do styling e da produção. E foi aí que sobressaiu como rosto de uma nova geração. No topo do currículo, ficaram os anos em que assumiu a direção criativa da Vogue Portugal. Quem trabalhou com ele ressalva o génio criativo que era, mas também o perfecionismo e o gosto pela face mais exuberante da silhueta feminina. Ataque cardíaco é a causa de morte apontada.

A notícia chegou no próprio dia, via Instagram. “Venho por este meio comunicar a todos os amigos que o Paulo Macedo, homem com quem partilhei mais de 20 [anos] da minha vida, faleceu hoje em Berlim”, escreveu a maquilhadora Cristina Gomes na rede social, ao partilhar uma fotografia antiga dos dois, possivelmente do tempo em que foram casados. Mesmo depois da separação, Paulo e Cristina continuaram a ser amigos chegados.

Natural do Porto, o percurso profissional de Paulo Macedo começou na passerelle. “Ele era a animação dos bastidores, bem humorado, a cantar e a imitar e sempre a ajudar os outros. Depois, dava dicas aos colegas, do que haviam de vestir. Dava para ver, nessa altura, que ele tinha o bichinho da moda”, conta Luís Pereira, ao Observador. Hoje, Luís está à frente da Showpress, agência de comunicação que fundou, é diretor de casting da ModaLisboa e chefe de bastidores do Portugal Fashion, mas há cerca de 30 anos, começou, tal como Paulo, a dar os primeiros passos na moda. “Conhecemo-nos no Porto e começámos a fazer desfiles juntos. Ele usava uns óculos graduados grossíssimos. Até havia quem questionasse como é que ele conseguia ser modelo. Depois, começou a usar lentes “, recorda Luís. Na altura, a Filmoda e a Portex eram os grandes eventos de moda nacionais e só anos depois, em 1991, chega a ModaLisboa. “Depois, ele veio para Lisboa mais cedo. O Paulo estava focado em ser manequim, eu não”, remata.

Nos anos 90 e depois de cerca de dez anos a desfilar, termina a carreira de modelo. Nesse momento, Paulo Macedo dá os primeiros passos no styling. Começa na revista Máxima, criada em 1988, a convite da então diretora Maria da Assunção Avillez. Em 2002, a Vogue chega a Portugal, com Paula Mateus (que tinha sido editora de moda da Máxima) como diretora. Nesta revista, começou por ocupar o cargo de diretor de moda, passando pouco tempo depois a assumir o papel de diretor criativo. Contam-se às dezenas os editoriais assinados por Paulo Macedo para a edição portuguesa da Vogue. Sara Andrade lembra-se bem do dia em que passou de estagiária a assistente do diretor. “Estava lá sentada e ele ia-me pedindo umas coisas para produção. Assim que surgiu uma vaga, foi o Paulo quem pôs o meu nome em cima da mesa”, conta ao Observador.

Trabalharam juntos durante sete anos, entre 2004 e 2011. Foram a Paris vezes sem conta, para fazer produções para a revista. “O Paulo nunca foi só uma pessoa com quem eu trabalhava nem só o meu chefe. Quando íamos a Paris, jantávamos fora, discutíamos ideias, conversávamos sobre a vida. Esse período foi o berço da minha carreira, foi ele que me trouxe até onde estou agora”, afirma. Hoje, como editora online das edições portuguesas da Vogue e da GQ, reconhece ao mentor de outrora traços de génio. “Era criativo ao máximo, com a dose de loucura e, por vezes, de abstração que isso implica. Quando estava a trabalhar, não fazia mais nada. Era uma pessoa intensa e com referências culturais extraordinárias — filmes, artistas, obras de arte — e ia buscar tudo isso”, explica Sara Andrade. “Não discutia muito e sabia lidar com as pessoas. Aprendi muito com ele por causa disso”, completa.

Embrenhado no trabalho, perfecionista e constantemente à procura da diferença — as principais características de Paulo Macedo enquanto profissional refletem-se na obra que deixou. As imagens envolvidas numa aura dramática, o aparato, a lente cinematográfica e o poder de, através do styling, produzir uma narrativa — as habilidades de Paulo marcaram os que o rodeavam na forma de ensinamentos. “Vestir bem é ótimo, mas isso qualquer revista faz, precisamos de algo mais, de algo diferente”, relembra Sara Andrade, ao parafrasear o produtor. “Quando alguém muito exuberante passava por nós, ele dizia-me: ‘Prefiro ver uma pessoa com mau gosto, do que uma pessoa sem gosto nenhum'”, conclui.

“O Paulo puxava muito pelo lado chique e glamoroso da mulher”, refere Luís Pereira, como quem fala de um talento inato. De facto, não há qualquer indício de que Paulo Macedo tenha tido formação na área da moda. Era um ávido consumidor de informação e referências. “Nos editoriais, sabia muito bem o que estava a fazer, trazia as histórias já muito bem montadas dentro da cabeça”, continua. “Mas podia entrar aqui [na Showpress] com o shopping já feito, que corria as salas todas à procura de algo que enriquecesse a produção”, conclui.

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Difícil de acreditar! Um talento gigante! Tive o privilégio de trabalhar muitas vezes com o maravilhoso Paulo Macedo. Um produtor de moda com um rasgo criativo que me deixava sempre com a confiança plena. Foram muitas as vezes que me “desmontou” e me fez encontrar. Foi responsável por uma das capas mais especiais da minha vida: a capa da Vogue onde apareço grávida da minha filha Beatriz. O último trabalho que fiz com o Paulo foi o Festival Eurovisao e fomos tão felizes. Uma equipa perfeita onde aquilo que mais sentido faz na vida, não faltou: viver intensamente com muita gargalhada à mistura. Paulinho, vais fazer muita falta! ❤️ E a moda em Portugal só te tem de agradecer, muito.

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Há um ano, com a saída da Vogue da Cofina e a consequente reformulação da revista por parte de outro grupo, Paulo Macedo abandonou a direção criativa da publicação. O stylist tornou-se freelancer, tendo assinado editoriais de moda para a Máxima, que se manteve no mesmo grupo, e para a revista Cristina. “Um dos mais brilhantes stylists que conheci. […] Quando o convidei para trabalhar para a @revistacristina pensei que recusaria. Na hora disse que tinha todo o gosto, e orgulho, de trabalhar comigo. Guardo no telemóvel a mensagem do primeiro trabalho”, foram as palavras escritas por Cristina Ferreira no Instagram.

Para além das páginas de revistas nacionais, Paulo Macedo foi, já este ano, o responsável pelo guarda-roupa de Catarina Furtado e Daniela Ruah na Eurovisão. “Difícil de acreditar! Um talento gigante! Tive o privilégio de trabalhar muitas vezes com o maravilhoso Paulo Macedo. Um produtor de moda com um rasgo criativo que me deixava sempre com a confiança plena. Foram muitas as vezes que me ‘desmontou’ e me fez encontrar. Foi responsável por uma das capas mais especiais da minha vida: a capa da Vogue onde apareço grávida da minha filha Beatriz”, partilhou Catarina Furtado na sua conta de Instagram.

O portefólio de Paulo Macedo só ficará completo no final do mês. Na edição de outubro da revista Máxima, será publicado o último trabalho realizado pelo stylist e produtor de moda português.

Texto atualizado no dia 13 de setembro, às 15h04, com as correções do ano de fundação da revista Máxima e do nome da diretora.

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