Há um ano, Gelson Martins era titular indiscutível do Sporting. E quem diz há um ano diz há seis meses. O avançado homem-menino de apenas 23 anos era uma das pedras basilares da equipa treinada por Jorge Jesus que sonhou com o campeonato até às últimas jornadas. Internacional pela seleção, com muitos pretendentes lá fora mas um dos preferidos dos adeptos leoninos. Na temporada 2017/18, o número 77 fez 52 jogos e marcou 13 golos. Era rápido, vertiginoso, perigoso e surpreendente. Gelson era um produto da Academia e o jogador-tipo do Sporting.

Até ao dia 15 de maio de 2018. Dia em que 50 elementos da Juventude Leonina entraram nas instalações da academia do Sporting em Alcochete e agrediram jogadores, equipa técnica e membros do staff. Gelson não foi agredido; mas estava lá. Jogou a final da Taça de Portugal com aquela equipa quebrada e rescindiu nos primeiros dias de junho, no mesmo dia que Bruno Fernandes e William Carvalho o fizeram. Bruno voltou, William rumou ao Bétis: Gelson reforçou o Atl. Madrid e adivinhava-se um futuro risonho para o miúdo das tranças que deixava em farrapos as melhores defesas que por aí andam.

Mas chegamos a setembro de 2018. Quase dois meses depois de ter sido apresentado em Madrid, o internacional português cumpriu apenas 33 minutos com a camisola colchonera (tendo em conta os 570 que o clube já realizou desde o início da temporada). Gelson não tem sido aposta de Diego Simeone e viu os últimos três jogos a partir do banco – sem sair para dar velocidade ao ataque do Atlético. Pior do que isso: os 33 minutos que contaram com o número 18 do Atl. Madrid em campo foram precisamente os dois períodos que mais críticas por parte do treinador argentino motivaram.

Simeone não foi tímido ao demonstrar o seu desagrado em duas ocasiões: os últimos minutos da visita ao Valência e o final da vitória tirada a ferros frente ao Rayo Vallecano. Ou seja, precisamente os dois períodos em que Gelson Martins foi aposta. Simeone criticou especialmente o descontrolo da equipa e a incapacidade do Atl. Madrid de segurar e assentar o jogo nesses períodos críticos. Contra o Valência, o clube de Madrid deixou o jogo partir numa troca de contra-ataques que poderia ter caído para qualquer lado e, no caso do Rayo, refugiou-se na defesa e permitiu uma avalanche de ataques e remates com direção à baliza de Oblak.

Ora, o desequilíbrio e a vertigem são precisamente os pontos fortes de Gelson. Ainda que o jogador português seja especialista em criar espaço onde ele não existe e em tirar proveito de situações que pareciam perdidas, é no corredor, na largura e na profundidade que encontra a magia que tantas vezes vimos pairar em Alvalade. Qualidades essas que, ao que parece, não estão a encantar Simeone. Gelson ainda realizou exercícios de aquecimento na passada terça-feira, na derrota do Atl. Madrid em casa do Mónaco em jogo a contar para a Liga dos Campeões, mas acabou por não ser opção e Simeone nem sequer esgotou as substituições. Por agora, Gelson tem de esquecer a agitação, a rapidez e a corrida; e focar-se na ordem, na organização e no sentido coletivo de que o Wanda Metropolitano tanto gosta.