Um grupo de internautas auto-intitulado Shorty Air Force tem denunciado o que diz ser a desonestidade da Tesla, publicando fotografias de centenas de carros da empresa parados em parques de estacionamento de instalações da Tesla. As imagens, dizem, são prova de que a empresa enfrenta mais problemas para lá da sentença do regulador bolsista norte-americano, que afastou recentemente Elon Musk do cargo de presidente do conselho de administração da empresa.

As explicações para o elevado número de carros, avança o New York Times, pode estar em dificuldades de entrega dos modelos — ou então são sintoma de um problema mais grave dentro da Tesla, que pode estar a sentir menos procura pelos seus veículos do que previu inicialmente.

As denúncias começaram a ser feitas em julho, quando a Shorty Air Force — cujos membros, segundo o Times, incluem investidores que têm apostado na queda dos preços das ações da Tesla — publicou fotografias dos parques de estacionamento da empresa cheios de carros.

Em reação oficial ao Times, o porta-voz da empresa, David Arnold, confirmou que muitos carros estão atualmente em “centros temporários de logística”, mas reforçou que “qualquer pessoa que observe esses parques consegue ver mudanças de um dia para o outro”. A Tesla confirma que há atualmente mais de 400 mil clientes em lista de espera para comprar um dos Modelo 3.

Há cerca de duas semanas o próprio Elon Musk confirmou no Twitter, em resposta a um cliente que se queixava de atraso na entrega do seu carro, que a Tesla tem vivido “um inferno logístico nas entregas”. “Estamos a fazer progressos rápidos, deve ser resolvido em breve”, acrescentou.

A base do problema, segundo explicou o presidente-executivo da Tesla, está na falta de camiões disponíveis para transportar os carros — uma explicação que, para alguns, não faz sentido. A Associação Norte-Americana de Camiões Transportadores afirmou ao New York Times não estar a par de nenhuma falta de transportadores e explica que os outros fabricantes automóveis não têm tido problemas do género.

“Como é que eles não têm isto preparado?”, questiona-se Mike Ramsey, consultor automóvel da Gartner, ouvido pelo mesmo jornal. “Eles deviam ter a logística preparada com antecedência.”

A impreparação para lidar com este problema leva outros a levantar a hipótese de estarmos perante outro problema que não a logística: o excesso de produção para pouca procura, suspeita reforçada pelas várias promoções que a Tesla tem feito nos últimos meses. Brian Johnson, analista da Barclays Capital especializado na Tesla, disse ao New York Times que suspeita haver um excesso de inventário face à procura do público, baseado no facto da empresa estar a anunciar que consegue entregar modelos com tração traseira em quatro meses, mas que os carros com tração às quatro rodas demoram quatro a 12 meses a serem entregues. “Isso sugere que há um inventário desfasado de carros com tração traseira”, explica Johnson.

Uma terceira explicação para o excesso de carros parados em parques da Tesla pode estar no facto de alguns deles serem produtos com falhas ou defeito de fabrico — um problema que tem afetado a empresa com alguma regularidade. Tal ideia surge do facto de alguns dos modelos estacionados em Scottsdale (Arizona) estarem marcados com autocolantes ou caneta, muitas vezes a indicar reparações necessárias, o que significa que não são carros à espera para serem entregues a clientes.

Por vezes, os veículos necessitam de peças em falta que demoram mais de um mês a chegar, o que já levou a Tesla a anunciar que pretende criar a sua própria cadeia de oficinas. A falta de peças, diz o analista Gabe Hoffman, revela que esta é “uma empresa em crise financeira”.

A Tesla tem enfrentado uma série de questões sobre a sua viabilidade financeira, agravadas pela pena aplicada pelo regulador bolsista, a Securities Exchange Commission. Nos próximos dias a empresa deverá apresentar um relatório de produção dos últimos três meses, que pode ajudar a esclarecer qual a situação financeira atual da empresa automóvel de Elon Musk.