Paulo Dentinho, diretor de informação da RTP desde março, confirmou ao Observador que colocou o seu lugar à disposição esta quarta-feira.  A decisão surge depois de Paulo Dentinho ter publicado um texto no Facebook sobre violência sexual, que foi interpretado como uma alusão ao caso que envolve o Cristiano Ronaldo e Kathryn Mayorga. O Eco e o Público avançaram entretanto que a Administração se prepara para substituir o diretor de informação nos próximos dias.

O texto que Paulo Dentinho escreveu esteve menos de uma hora online e foi retirado por vontade do diretor de informação da RTP, mas já tinha começado a gerar polémica e chegado à assessoria de Ronaldo.

“Saliento que um cenário de demissão não é por mim equacionável, muito menos justificável neste caso particular, além de que desistir não faz parte da minha forma de estar na vida“, explicou o diretor de informação da RTP ao Observador, acrescentando que não vai contestar a decisão que o conselho de administração da RTP vier a tomar. 

No primeiro post publicado pelo jornalista no seu Facebook, de perfil fechado, Dentinho criticava os “homens que violam mulheres”. Já numa segunda publicação, o diretor de informação da RTP voltou a abordar o mesmo assunto: “Há violadas de primeira, violadas de segunda categoria, violadas de terceira categoria, etc. Depende do estatuto delas mas, sobretudo, do estatuto deles. Questão de perspetiva… Um “não” de uma puta — e tem  também ela direito a dizer não — vale nada. É mercadoria. E se o violador tiver a auréola de herói nacional, é puta de certeza, no mínimo dos mínimos uma aproveita sem escrúpulo algum. Logo, puta!”.

Cerca de uma hora depois de os ter publicado, por decisão própria, o jornalista acabou por apagar os posts. “Não por pressão de alguém”, disse ao Observador, mas por reconhecer que usava “linguagem excessiva”. Mas foram várias as reações e associações do texto ao caso da acusação de Cristiano Ronaldo.

Depois de ter conhecimento do texto, uma das assessora de imprensa da Gestifute, empresa que representa o jogador português, questionou a credibilidade da RTP na futura cobertura do caso.“Porque ser diretor de informação da RTP não é o mesmo que ser diretor do jornal da paróquia. Porque ser jornalista da RTP exige responsabilidade, ética, seriedade, isenção. Shameonyou!! Diretor de informação? Pobre RTP, que sempre nos habituara a outra qualidade, elevação, responsabilidade e, sim, isenção, insisto. E agora RTP? Em que pé fica a credibilidade da vossa Informação?”, questionou Manuela Brandão numa publicação no Facebook.

[Veja o vídeo sobre a batalha de advogados na acusação contra Ronaldo]

Ao Observador, Paulo Dentinho explicou a origem das publicações, referindo que estava a preparar um programa sobre o movimento #MeToo quando leu mais detalhadamente sobre o caso que envolve Ronaldo e uma professora americana num alegado crime de abuso sexual: “Não era nada contra o Ronaldo. Era sobre a necessidade de proteger as mulheres”, referiu.

Eu tenho três filhas e as histórias destas mulheres sensibilizaram-me. Publiquei aquelas mensagens na minha página pessoal. Eram mensagens que eu julgava estar a partilhar apenas com supostos amigos meus, tanto que nem sequer era possível partilhar essas publicações”, sublinhou.

Esta terça-feira o Conselho de Redação da RTP emitiu um comunicado onde explica que Paulo Dentinho considera que existem “indícios que sustentam suspeitas de um possível complot contra si”, lembrando que os seus posts no Facebook eram “de âmbito privado e fechado”, mas que serviram “para lançar aquilo que admite poder ser uma campanha” contra si.

No texto do comunicado, a que o Observador teve acesso, os membros do Conselho de Redação “lamentam a linguagem utilizada pelo diretor de Informação, assim como o aproveitamento do Vox Pop TV [o primeiro a fazer notícia das publicações] neste assunto”.  Dentinho disse ao CR que “não há qualquer inquérito interno a decorrer contra si”, admitindo que se tratou de um “texto excessivo”, razão pela qual retirou o post”, lê-se no comunicado.

*Artigo atualizado as 22h40 com informação sobre a decisão da administração