Vai ser lançada na madrugada deste sábado uma missão espacial para estudar um dos astros menos explorados do Sistema Solar — Mercúrio, o planeta mais próximo do Sol. BepiColombo é considerado “um dos projetos espaciais mais ambiciosos dos últimos tempos” e resulta de um esforço conjunto entre a Agência Espacial Europeia (ESA) e a Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA). Mas dois dos instrumentos que compõem o veículo espacial têm cunho português: são da responsabilidade da Active Space Technologies, uma empresa sediada em Coimbra.

A missão BepiColombo já está dentro do foguetão Ariane 5, na base de lançamentos na Guiana Francesa, pronta a ir para o espaço esta madrugada. Créditos: ESA/ Stephane Corvaja

Em conversa com o Observador, Ricardo Patrício, engenheiro responsável pelo departamento de desenvolvimento de negócios da empresa, explicou que a Active Space Technologies contribuiu para a construção destes dois instrumentos. Um deles é a sonda Mercury Planetary Orbiter (MPO). Para essa peça os portugueses construíram um braço de suporte e de orientação da antena que faz a comunicação entre o veículo espacial e a Terra. O outro instrumento é a sonda Mercury Magnetospheric Orbiter (MMO) e, nessa peça, a Active Space Technologies foi responsável por desenhar, fabricar, montar e integrar um instrumento ótico, a que os cientistas chamam espectómetro, que servirá para medir os níveis de sódio na atmosfera de Mercúrio.

O momento em que o Mercury Planetary Orbiter (MPO), outro elemento com contribuição portuguesa, chegou à Guiana Francesa. Créditos: ESA/CNES/Arianespace

A sonda MPO foi construída para o lado europeu do veículo espacial, enquanto a sonda MMO foi concebida para o lado japonês da máquina. É nesta última que está o maior investimento da empresa e também a maior parte da inovação: “É no espectrómetro que está espelhada a maior relevância científica da nossa contribuição. Essa vai ser a peça que vai analisar as transformações da atmosfera de Mercúrio. Os dados que forem recolhidos vão depois ser estudados à luz de um ramo científico chamado planetologia comparativa para podermos tirar conclusões sobre a evolução da atmosfera da própria Terra”, explicou Ricardo Patrício ao Observador.

A sonda Mercury Magnestopheric Orbiter (MMO), uma das peças com ADN português, dentro da proteção solar. Créditos: ESA/ M. Pedoussaut

A oportunidade de participar neste projeto surgiu por causa de uma ligação que a Active Space Technologies já tinha a um cliente inglês na área da engenharia aeroespacial: “Esse nosso cliente tem uma tecnologia muito usada nestes espectrómetros e já nos tinha contratado para fazer parte de uma série de projetos no setor espacial. Por isso acabámos por ser selecionados como consórcio para o projeto”, explicou o engenheiro. Tudo isso aconteceu em 2006. Ao longo dos cinco anos seguintes, uma equipa de quatro portugueses trabalhou diretamente com o cliente inglês, com engenheiros russos e com japoneses. O produto final vai para o espaço às 2h45 de sábado a partir da base de lançamentos em Kourou, Guiana Francesa.

Veja nesta animação da Agência Espacial Europeia como é o veículo espacial vai ser enviado para o espaço a bordo de um foguetão Ariane 5.

Mas a Active Space Technologies já está envolvida noutros projetos ambiciosos. Entre eles estão a missão Solar Orbiter da ESA, que vai estudar a heliosfera do Sol a partir de 2020; a missão EUCLID, que vai explorar a matéria negra; a missão JUICE, que vai farejar Júpiter, o maior planeta do Sistema Solar; e a missão Plato, que vai em busca de exoplanetas. Além disso, a Active Space Technologies também construiu um rover e um satélite para a ESA para explorarem Marte no âmbito da missão ExoMars; e instrumentos para a missão InSight, que também está em Marte para perceber a evolução dos planetas rochosos — como a Terra.

A tecnologia desenvolvida por esta empresa é tanta que Ricardo Patrício concorda que a existência de uma agência espacial portuguesa — um plano que já está a desenrolar-se — ajudaria a levá-la mais além: “O país precisa de uma estrutura e de uma organização que apoie as interações com a ESA e outroa atores internacionais mais institucionalizados. Temos tido pessoas com muito valor, mas têm pouco alcance. Os portugueses não gostam da palavra lobby, mas ela é real e é necessária para que a nossa tecnologia possa ter visibilidade”, afirmou.