Era mais um dia a esquiar, acabou por ficar como aquele dia em que foi esquiar mas que foi tudo menos um simples dia a esquiar. No final de 2013, Michael Schumacher encontrava-se com a família na estância de Méribel, nos Alpes Franceses, quando terá visto alguém cair (mais tarde, o Bild acrescentaria ter sido uma criança, filha de uma pessoa sua conhecida). Desviou-se alguns metros da pista para uma zona não delimitada, para perceber se estava tudo bem, quando sofreu um acidente grave, embatendo com a cabeça numa pedra. Quase cinco anos depois, praticamente não existem informações reais sobre o atual estado do antigo heptacampeão da Fórmula 1 e a família continua a pedir para que a sua privacidade seja respeitada. Quase cinco anos depois, o filho, Mick, que estava com o pai na altura da queda, foi por uma semana mais falado do que o seu ídolo.

Com apenas 14 anos, assistiu a tudo. À queda, aos momentos dramáticos até chegar o primeiro auxílio, a todas as operações e diligências de transporte de Michael para uma unidade hospitalar. Houve mesmo a informação de que teria sido interrogado pela polícia francesa, que lhe pedia ajuda para perceber onde conseguiria encontrar a GoPro que o pai levava no capacete tentando detalhar as causas do acidente e eventuais responsabilidades que tivessem de ser levantadas. Foi também por Mick e pela irmã, Gina-Maria (dois anos mais velha), que a mãe, Corinna, e as pessoas mais próximas foram agradecendo os milhares de palavras de apoio e iniciativas dos fãs do piloto germânico pedindo reserva sobre toda a situação. Agora, Mick acaba de sagrar-se campeão europeu de Fórmula 3, feito alcançado no emblemático traçado de Hockenheim, na Alemanha.

Mick Schumacher fez a festa da conquista do Campeonato da Europa de Fórmula 3 em Hockenheim (DANIEL ROLAND/AFP/Getty Images)

Enquanto Gina-Maria seguiu os passos da mãe e é hoje reconhecida como uma talentosa amazona, Mick, nascido e criado na Suíça, onde o pai fixou residência, desde miúdo que revelou um especial interesse pelos motores, pela velocidade e por trilhar um caminho próprio. Foi por isso que, com apenas nove anos, entrou nas primeiras corridas de karts utilizando o nome Mick Betsch, apelido da mãe. Mais tarde, em 2014, já depois de vários pódios e um terceiro lugar no Campeonato Alemão de Karts de juniores, passou apenas a utilizar Mick Júnior, alcançando a segunda posição no Mundial e no Europeu Júnior. Conseguiu, em grande parte, o que queria nessa primeira fase da carreira – correr como um jovem piloto e não como o filho de Schumi.

Só quando faz a transição para a Fórmula 4, em 2015, é que passa a correr com o nome pelo qual é hoje reconhecido. Termina no segundo lugar os Campeonatos italiano e ADAC em Fórmula 4 no ano seguinte, entrando na Fórmula 3 em 2017 com uma 12.ª posição pela Prema Powerteam (equipa conhecida pelas ligações à Academia de Pilotos da Ferrari). Agora, acaba de conquistar o primeiro título na categoria, o que abriu de imediato a discussão sobre o melhor timing para subir à Fórmula 1, algo que não parece fazer parte dos seus planos pelo menos a breve prazo apesar dos exemplos recentes de Lance Stroll ou Esteban Ocon, que também foram campeões da Fórmula 3 e asseguraram o salto para a divisão de elite da modalidade.

“Agora já podemos pensar na próxima aventura mas prefiro andar em frente de forma gradual, passo a passo, preparando-me da melhor forma. O mais importante é tomar sempre a decisão mais correta e é isso que vamos fazer nas próximas semanas. Todos os pilotos têm o objetivo de chegarem à Fórmula 1, que é a categoria rainha onde estão os melhores. Falámos com algumas equipas para encontrar a melhor estratégia para o próximo ano mas só quero dar o salto quando estiver 100% preparado”, comentou à Gazzetta dello Sport, citado pelo El Confidencial.

Em mais do que uma entrevista, Mick assumiu o sonho de poder um dia sagrar-se campeão da Fórmula 1, mas conta também com uma equipa à sua volta que o ensinou desde novo a ser ponderado em qualquer decisão assumida. Aliás, essa é uma das principais características sublinhadas por quem o conhece melhor – a maturidade na forma de gerir a carreira.

“O Michael é considerado o melhor piloto de todos os tempos, é o que tem mais títulos mundiais e por isso vai haver, a 100%, um Schumacher de volta à Fórmula 1. Em parte por causa do nome mas também porque está a fazer um trabalho fantástico – é óbvio que tem imenso talento como o pai tinha. Está a fazer um grande trabalho e é também um grande miúdo. Tem feito parte da nossa equipa em alguns fins de semana, é muito atento e tem um grande talento. O nome não vai ser um peso, na minha opinião. Aliás, acho que vai ser fantástico para o desporto”, comentou o inglês Lewis Hamilton, que pode sagrar-se este domingo pentacampeão, na antecâmara do Grande Prémio dos Estados Unidos.

“Parabéns ao Mick pela vitória do Campeonato da Europa de Fórmula 3. As atenções recaíam todas nele desde o início, estava debaixo de uma grande pressão mas conseguiu. Não é fácil sobretudo quando a temporada não começa da melhor forma, como foi o caso, mas a sua prestação na segunda metade da época faz com que seja algo ainda mais impressionante. Mostrou que tem todas as condições para ser um dos maiores no nosso desporto”, destacou Toto Wolff, o chefe da Mercedes.

No início, Mick nunca utilizou o apelido Schumacher para poder destacar-se apenas pelas suas capacidades (YORICK JANSENS/AFP/Getty Images)

“O mais importante é deixar o Mick crescer sem acrescentar pressão. Os resultados recentes são muito bons e espero que tenha uma grande carreira. Com o nome como o dele, que escreveu páginas históricas do percurso da Ferrari, a porta de Maranello vai estar sempre aberta, claro, mas sem queimar passos. O que vai ou não fazer a seguir é uma decisão dele e da família mas temos de deixá-los aproveitar. Repito sempre isto: mantém-te focado, concentrado, mas ao mesmo tempo diverte-te, cresce devagar mas com certezas, e depois veremos o futuro”, referira no mês passado Maurizio Arrivabene, líder da Ferrari.

“O Mick parece o pai. Levanta-se como o pai, anda como ele. Dei-me conta até que tem os braços do pai, mas o mais importante é que tem os genes competitivos do pai, sobretudo nesta fase final do Campeonato. Se continuar assim com este rendimento, o seu caminho vai levá-lo à Fórmula 1″, salientou o ex-piloto e atual presidente do DTM, Gerhard Berger.

Também há quem considere prematuro uma passagem para a Fórmula 1 já em 2019, mas a história parece estar escrita, faltando apenas saber quando irá abrir-se esse capítulo. “Isto significa tudo para mim porque é o primeiro Campeonato que ganho, com muito trabalho não só meu mas também de toda a equipa. Estou agradecido por tudo o que fizeram por mim e agora só quero viver este momento”, comentou após a vitória na Fórmula 3 este fim de semana. Quase cinco anos depois, Mick Schumacher, que no ano passado quebrara um longo silêncio sobre o pai para destacar que é o seu modelo e ídolo no desporto e na vida, sabe o que todos esperam dele mas não abdica de escolher por si o melhor caminho para lá chegar.