Web Summit

Sete minutos para fazer negócios. Nesta ‘speed networking’ falou-se de tudo, até de piratas e zombies

O Observador esteve numa sessão de speed networking, onde grupos de duas pessoas conversam durante sete minutos para fazer negócios. Houve momentos Shark Tank, mas também se falou de piratas e ninjas.

KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

Web Summit, dia um. Bem longe da Altice Arena, num restaurante do Cais do Sodré, as pessoas vão chegando a conta-gotas. São poucas ainda na hora marcada para o evento. Mas lá vão entrando. Os portugueses — poucos — mais tarde. Junto à entrada, esbarram numa primeira mesa que lhes pede a identificação e confirma a inscrição. Em seguida, sai um autocolante com o primeiro nome de cada pessoa que é colado ao peito. Check-in feito.

As mesas, lá dentro, já estão alinhadas. São individuais, pequenas, com quatro lugares mas apenas dois têm o bloco e a caneta onde se espera que, ao longo das próximas horas, se anotem contactos para conversas futuras. E por falar nelas, nas conversas, apenas podem ter sete minutos cada. Ao fim desse tempo, um dos participantes roda no sentido dos ponteiros do relógio e passa para a mesa seguinte. E tudo volta ao começo.

A descrição bate certo com as speed datings — sessões em que um grupo de solteiros (presume-se) conversa durante um tempo limitado com desconhecidos para encontrar um parceiro. Mas aqui o termo parceiro tem outra conotação. A iniciativa foi criada pela Fever, app de eventos que chegou no verão passado a Portugal e chama-se speed networking. O objetivo? Criar parcerias, contactos e oportunidades de negócio aproveitando o espírito empreendedor e o ambiente internacional que estão a invadir Lisboa durante o Web Summit. O Observador assistiu a três conversas — e percebeu que nem só de negócios se conversou.

Conversa 1: O momento Shark Tank da noite

Na mesa dois, na ronda inaugural do speed networking, falou-se, de facto, de negócios. Richard Downing é um empreendedor norte-americano, dono da app Subwhisper, que fez nascer há dois anos para gerir a substituição de turnos de trabalho entre colegas. Pela frente tem Melissa Youngblood, dona de uma empresa de investimentos — que é toda ouvidos para perceber se tem ali um potencial alvo de negócio.

Richard leva o discurso na ponta da língua. Tem o pitch preparado — a velocidade com que fala denuncia-o. E não tarda em entrar naquilo que, aos seus olhos, distingue a sua app das outras. “Obtemos dados dos funcionários fazendo-lhes perguntas que mais nenhuma app faz. Recolhemos melhores dados para tomar melhores decisões”, anuncia Richard. “Perguntamos, por exemplo, qual é a probabilidade de uma pessoa estar livre a uma certa altura do dia — não é uma hora específica, é um bloco temporal, como sexta-feira à noite, à tarde ou de manhã. A resposta pode ser ‘provavelmente disponível’, ‘talvez’, ou ‘provavelmente não’. Outra questão é: ‘Quer mais turnos?’ A maioria das companhias não pensa nisso, não pensa no que o empregado quer e cria regras que não têm em conta as suas preferências”, continua.

Melissa tem os dois olhos muito abertos e vai sorvendo cada palavra. “Recebemos as preferências de cada pessoa e, cada vez que alguém não pode fazer um turno, pegamos em todos aqueles dados, criamos uma lista já segmentada com o melhor empregado a quem pedir aquela substituição, tendo em conta todos os fatores que importam”, conclui Richard.

Melissa interrompe para uma pergunta: quer saber mais sobre a equipa e as empresas que já estão a usar a app. Richard esclarece que a sua criação está a ser testada há 18 meses em três diferentes negócios em Boston — e que ainda está em fase de desenvolvimento, a partir do feedback dado pelas empresas.

Os sete minutos passam a voar. Não há tempo para mais. Mas, no final, Melissa parece satisfeita. “Gosto da ideia, do conceito, entendo-o perfeitamente. Falta-me só perceber melhor a parte financeira, mas aquilo que procuramos nos nossos investimentos é acreditar no fundador, sentir que aquele negócio pode acrescentar valor ao mercado e crescer num ritmo mais elevado do que outros e vi isso nele. Gostei muito”, diz ao Observador. No final, entregou o cartão a Richard. Match feito.

Conversa 2: Literalmente, uma conversa de café

Avançamos em direção ao fundo da sala, onde a norte-americana Tara e a grega Ilektra explodem numa gargalhada. Logo ao primeiro contacto, perceberam que a conversa não podia ir longe: Ilektra trabalha numa empresa de cafés e Tara odeia café. Mas foi. Passadas as diferenças iniciais — e as fartas gargalhadas — Tara começa por explicar que é professora mas que está a tentar mudar de carreira. Para aclarar melhor as ideias, tirou um ano de licença para viajar pelo mundo ao abrigo do programa Remote Year — que facilita toda a parte logística. Passa cinco semanas em cada lugar — e está em Lisboa há dois dias. “Guardei todas as minhas poupanças para isto”, revela.

“Adoro ensinar, mas percebi que as crianças sugam toda a minha energia e agora, que estou longe da sala de aula, sinto-me livre. Adoro crianças, mas sinto que quero ajudá-las mais na vertente tecnológica. É o meu próximo passo, porque a tecnologia está em todo o lado para os estudantes. Não sei o que vai acontecer ainda na minha vida, mas estou curiosa”, explica.

Do outro lado da mesa, a sorridente Ilektra esclarece: “O meu percurso é completamente diferente”. Mas tem um ponto de contacto — também ela está a pensar no próximo passo na carreira. Trabalha há três anos na Suíça, na Nespresso, onde é responsável pela área de e-commerce. “Como consultora, tenho projetos de três anos, por isso penso que daqui a poucos meses termino a minha experiência na Nespresso. Estou aqui para receber inspiração e pensar se é isto que quero fazer ou talvez voltar para o marketing, que é a minha base. Sei que tudo hoje é tecnologia, mas ainda vivo um pouco no meu mundo cor de rosa e ligo muito às ligações pessoais, às energias”, diz.

Logo depois, revela que trabalhou em Portugal durante um ano — o que, de imediato, levou Tara a lançar a pergunta: “Sabes falar português?”. Ilektra soltou mais uma gargalhada. “Sei falar até ao ponto de poder comer, sei que o que pedir se entrar num café para tomar o pequeno-almoço”, graceja, para depois exemplificar num português perfeitamente percetível: “Bom dia, um café, uma torrada e um sumo de laranja, por favor. Obrigada”. “O que ela disse????”, gritou Tara. Antes que alguém pudesse responder, o speaker do evento anuncia o fim dos sete minutos — e a conversa ficou por ali.

Conversa 3: Piratas, ninjas e o Apocalipse de zombies

Depois do momento Shark Tank e da conversa de café entre duas indecisas, este foi o momento mais non-sense do evento. André, um dos dois portugueses a particiar no speed networking, chega perto de Leila, que está sentada na mesa 1. Ainda nem acabou de se sentar e já pergunta: “De onde és?”. Leila é de Nova Iorque, também está a viajar pelo mundo ao abrigo do programa Remote Year e aterrou em Lisboa há dois dias. “Cheguei da Croácia, daqui a 12 meses sei lá onde vou estar”, diz.

Depois de um breve momento em que explica que estudou aviação e que agora se dedica a aulas online na área dos mercados financeiros, Leila interrompe o próprio discurso com uma questão: “Tenho uma pergunta para ti, é um pouco controversa. Tens certeza que consegues aguentar? Já vi amizades estragarem-se por causa desta pergunta. Promete que vais ser honesto”, anuncia. André não parece surpreendido com a abordagem; não desvia os olhos de Leila, expectante. Depois de uma ligeira pausa dramática, a finalmente a questão: “O que preferes, piratas ou ninjas?”.

Definitivamente, André não está surpreendido. Nem uma exclamação perante a estranheza da pergunta. A resposta sai disparada: “Zombies”. “Oh meu Deus, adoro zombies!”, exclama Leila. Mas não se desvia do assunto. “Vá, tens de escolher”.

André hesita um pouco. “Mas estamos a falar de piratas tipo os das Caraíbas?”. “É como escolheres interpretar. Esta pergunta diz muito sobre as pessoas. Mas vá, ainda não escolheste”, insiste Leila. O jovem responde, enfim. “Piratas, porque têm papagaios nos ombros, é fixe”.

O tema continua na mesa. “E se tivesses um papagaio, que nome lhe davas?”, questiona Leila. “Jack Daniels”, responde de pronto André. “As pessoas adoram Jack Daniels em Lisboa, é uma grande cena aqui?”. “Não é uma grande cena, é um bom whisky”, sintetiza André.

Desta feita, é o rapaz a lançar outro tema fraturante para a conversa. “Tens um plano para um Apocalipse de zombies?”. O rosto de Leila abre-se numa enorme exclamação. “Oh meu Deus, literalmente para todo o lado onde vou! Estás a gozar? Sempre!”, solta, de olhos muito abertos, antes de enumerar o que compõe esse plano. “A minha bicicleta é a primeira coisa, é claramente o melhor veículo. Depois, roupas justas e uma faca também pode ser bom”.

André sugere que Leila conheça a Madeira — “uma ilha tropical em Portugal, que tem bananas e ananases”. “Lá estás a salvo dos zombies, eles não vão para a água”, assegura. Leila fica com dúvidas. “Isso é uma grande suposição! Gostava de ser mais conservadora nas minhas assunções sobre o Apocalipse”, diz, antes de perguntar a André por um grupo de desenhos que tem em cima da mesa e que fazem parte de um projeto de realidade aumentada que vinha apresentar. Quando André inicia a explicação, de novo Vasco, o speaker, anuncia a mudança de turno. “Se calhar devia ter começado por aqui”, solta André, antes de procurar a mesa seguinte. Nos lábios de Leila fica o sorriso por aqueles fugazes sete minutos.

fotografia de Kimmy Simões.
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