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Deputada assume que usou password de Silvano para aceder a documentos: “São todos umas virgens ofendidas numa terra onde não há virgens”

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Emília Cerqueira, do PSD, admitiu que usou password de José Silvano mas "inadvertidamente". "Cometi o pecado capital de o fazer para trabalhar", disse, insinuando que denúncia veio do interior do PSD.

Deputada Emília Cerqueira costuma sentar-se ao lado de José Silvano na bancada do PSD (Imagem retirada do Facebook da deputada)

A deputada Emília Cerqueira, do PSD, admitiu esta sexta-feira que usou a password do colega deputado José Silvano no plenário do parlamento, mas não para marcar a presença: “Nunca me pediu, nem eu o fiz, ou se o fiz, fi-lo inadvertidamente”, disse em conferência de imprensa aos jornalistas no Parlamento.

Numa declaração tensa, a deputada de Viana do Castelo, que é do círculo próximo de Silvano no Parlamento, ainda sugeriu que é prática comum os colegas partilharem a password para acederem a documentos de trabalho: “Agora são todos umas virgens ofendidas numa terra onde não há virgens”, disse, queixando-se da comunicação social, e até de colegas “muito possivelmente do interior do PSD”, que se “divertem” com o “linchamento” do secretário-geral do partido.

As explicações de Emília Cerqueira, ponto por ponto:

Primeiro, a deputada diz que tem a password de colegas dos quais é “próxima” tal como eles têm a dela. “Faz parte quando colaboramos em trabalho, porque é impossível estarmos em todo o lado”. “Tal sucede comigo e com o deputado José Silvano: tenho a password, não só eu, mas eu também”.

Depois, explicou por que motivo é que os colegas deputados partilhavam a password de acesso aos computadores uns dos outros: por motivos de trabalho. “Isto tem a ver com a necessidade de consultar documentação que nós partilhamos, porque partilhamos trabalho de comissão. A documentação dele está apenas acessível no computador dele, por isso sempre que é necessário eu acedo à documentação do computador dele”.

Posto isto, assume: sim, entrou no computador de José Silvano naqueles dias em questão mas “não para marcar presença”: “Nunca me pediu para o fazer, nem eu o fiz, ou se o fiz, fi-lo inadvertidamente”, disse, criticando “o circo mediático que se criou por causa de uma coisa tão simples que é um colega partilhar ficheiros de trabalho com outro”. A deputada insiste que não vê qualquer problema em partilhar passwords: “Digam-me senhores jornalistas, nunca partilharam uma password?”

Emília Cerqueira explica de seguida que não existe um log in próprio para registar presenças. Ou seja, a partir do momento em que alguém entra com a password de um deputado durante o decorrer do plenário, é dada como registada a presença daquele deputado no plenário. Questionada sobre se estava ciente de que se consultasse esses mesmos documentos de trabalho num gabinete ou noutro local que não o plenário o registo não era contabilizado como presença, Emília Cerqueira disse: “Hoje tenho a noção clara disso, mas na altura quando uma pessoa está a trabalhar não se lembra”. E ainda usou um estranho argumento de geografia: “Se calhar cá em Lisboa tem-se noção disso, mas eu como sou do Alto Minho não tenho essa noção”.

Então se o fez inadvertidamente porque é que não o disse logo? A esta pergunta, a deputada responde com uma série de infortúnios: não esteve em Portugal no fim de semana (quando saiu a notícia), logo não se apercebeu. “Nem se quer me apercebi do que se estava a suceder, não estive a ver notícias nesse fim de semana, pelos vistos cometi o crime de tirar o fim de semana para descansar”, disse.

E quando é que informou José Silvano do que se tinha passado? Segundo Emília Cerqueira, só telefonou a José Silvano a dar conta do que se poderia ter passado esta quinta-feira ao final da tarde, já depois da declaração que o deputado fizera à imprensa a dizer que não tinha pedido a ninguém para o registar. “Estive numa audição ontem até às 23h, e só quando saí é que apercebi da dimensão quando ontem vejo a declaração a imprensa. Nesse momento, sim, liguei ao deputado”, disse.

Sobre o facto de só falar agora, diz: “Só falo agora porque, francamente, nunca imaginei que tivesse esta dimensão e estas consequências — não podia, por momento algum, deixar que esta situação de lamaçal se desenvolvesse”.

O contra-ataque. Depois de fazer a sua defesa, veio o contra-ataque. Emília Cerqueira sugeriu que foi algum deputado de dentro da bancada do PSD que denunciou o registo de Silvano por terceiros ao enviar um “print screen do ecrã do plenário” ao jornalista do Expresso. E sugere mais: esse eventual deputado do PSD até deve ser um deputado que, ele sim, “usa as passwords para registar a presença de outros colegas”. Mas não explica a quem se está a referir.

Vai tirar consequência políticas disto? “Porque é que haveria de retirar consequências políticas por uma falsa questão?”, disse, atirando-se contra “os falsos moralistas, que condenam uma pessoa por exercer o seu trabalho”.

O contexto

Em causa estão as falsas presenças do deputado e secretário-geral do PSD nos dias 18 e 24 de outubro no plenário do Parlamento — dias em que o deputado estava em Santarém e em Vila Real, respetivamente, mas foi registado no computador do hemiciclo. Ao fim de quase uma semana de polémica, José Silvano disse ontem aos jornalistas que não tinha pedido a ninguém para o registar, iniciando por isso uma espécie de caça às bruxas com a sugestão de que alguém teria usado a sua password à revelia.

“Quero afirmar que não pedi a ninguém que registasse a minha presença no plenário da Assembleia da República — tal como estou convencido de que nenhum outro deputado o terá feito, mesmo quando no exercício de cargos executivos de direção partidária ao longo de anos”, disse.

De acordo com informações avançadas pelo Jornal de Notícias na quinta-feira, Emília Cerqueira era uma das pessoas identificadas em imagens da AR TV, como tendo passado junto do computador de José Silvano naqueles dois dias. Contactada pelo jornal nessa altura, a deputada confirmou que era pública a amizade com o secretário-geral do PSD, mas desmentiu que tivesse sido ela a assinar a presença.

A notícia da confirmação de presença de José Silvano no plenário quando, à mesma hora se encontrava noutros pontos do país, foi revelada pelo semanário Expresso no passado fim de semana. O próprio admitiu que não esteve presente no plenário naqueles dois dias. Sendo assim, ficou claro a partir daí que alguém tinha acedido ao registo eletrónico para confirmar a presença do deputado nessas sessões. Isso mesmo confirmaram os serviços do Parlamento, numa nota de imprensa onde explicaram que “outra pessoa que não o senhor deputado José Silvano” usou a “password” daquele deputado para registar a sua presença.

A mesma nota confirmava que as passwords tinham sido mudadas obrigatoriamente em julho, para todos os deputados, e com níveis de segurança mais apertados. Ao que o Observador apurou, se em tempos recentes a palavra-passe podia ser relativamente simples (duas ou três letras e um algarismo, por exemplo), desta feita passou a ter critérios mais rigorosos (mais caracteres, letras maiúsculas e minúsculas, símbolos), o que sustenta a ideia de que foi o próprio José Silvano quem forneceu a password.

Esta quinta-feira, o próprio José Silvano marcou uma declaração aos jornalistas onde se recusou a responder a perguntas, para dizer que não pediu a ninguém que registasse a sua presença em plenário. E para salientar que, em 30 anos de vida pública, nunca lhe tinha sido apontada qualquer irregularidade até ter aceitado ser secretário-geral do PSD de Rui Rio.

Os deputados têm direito a receber um valor  de ajudas de custo — 69 euros — por cada dia de trabalho parlamentar em que têm de se encontrar em Lisboa, o que levantou a questão sobre se Silvano teria pedido que o registassem para não ter falta e receber o montante. O deputado, no entanto, esclareceu (num primeiro comunicado) que tinha direito a receber esse valor de qualquer maneira já que as senhas de presença são “devidas legalmente caso tenha existido nesses mesmos dias presença em outras atividades parlamentares”, algo que diz ter feito nesse dia ao estar presente numa reunião do grupo parlamentar do PSD num dos dias e na 1ª comissão do Parlamento no outro.

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