Convocou os jornalistas para uma “declaração sem direito a perguntas”, sentou-se na sala das conferências de imprensa do Parlamento e leu um comunicado. Quando acabou, saiu da sala ignorando as perguntas que lhe eram dirigidas. Em mais uma tentativa de explicar o caso das presenças-fantasma no parlamento, José Silvano defendeu-se como “um homem honrado”, negou ter pedido a qualquer colega para que registasse a sua presença no plenário nos dias em que esteve ausente, e sugeriu que só estava a ser alvo da atenção mediática por ser secretário-geral de Rui Rio. No fim, até pediu à Procuradoria-Geral da República que investigasse o caso, se é que não está já a fazê-lo: “Quem não deve, não devia temer”.

Sobre a reincidência desta quarta-feira, em que José Silvano, já sob grande atenção mediática, foi à comissão parlamentar de Transparência assinar presença mas sem assistir aos trabalhos, nada disse.

“Quero afirmar que não pedi a ninguém que registasse a minha presença no plenário da Assembleia da República — tal como estou convencido de que nenhum outro deputado o terá feito, mesmo quando no exercício de cargos executivos de direção partidária ao longo de anos”, começa por dizer, deixando no ar a dúvida sobre como é que alguém entrou nos computadores do plenário com a sua password para registar a presença, sendo que o deputado estava ausente (segundo noticiou o Expresso este sábado, tal aconteceu por duas vezes no mês de outubro).

Para José Silvano, uma coisa é certa: “legalmente e eticamente nada há a apontar”. “Não registei a minha presença, não mandei registar, não auferi vantagem monetária”, disse. Já esta terça-feira, através de um breve comunicado, Silvano tinha garantido não ter recebido qualquer montante indevidamente (ajudas de custo) mas não tinha explicado como é que a sua password foi introduzida num computador do plenário para motivos de registo de presença.

O caso agravou-se quando os serviços da Assembleia da República confirmaram, esta semana, que a password “pessoal e intransmissível” do deputado José Silvano tinha sido usada por terceiros para registar a sua presença no plenário, e ganhou mais contornos mediáticos quando Rui Rio, que foi eleito líder do PSD a prometer “um banho de ética” na política, desvalorizou os episódios classificando-os como “pequenas questiúnculas”. Esta quinta-feira, depois de ter reiterado a confiança política no seu secretário-geral, Rui Rio, que se encontrava em Helsínquia no congresso do PPE, recusou-se a responder — em português — a mais questões sobre o tema: chutou as perguntas dos jornalistas para canto, e em alemão.

Esta quinta-feira, na declaração aos jornalistas, José Silvano recordou que, a avaliar pelo que foi noticiado ontem, a PGR estará a averiguar a possibilidade de abrir uma investigação ao caso das suas faltas, e apoiou totalmente a iniciativa. “Caso a notícia de que a PGR está a averiguar a possibilidade de investigar não seja verdade, sou eu próprio que reclamo publicamente que a PGR abra um processo de averiguações no sentido de rapidamente dar início a uma real investigação se este episódio não ficar devidamente esclarecido”, disse.

Silvano sugere que está a ser alvo de ataque apenas por ser membro da direção de Rio

O secretário-geral do PSD sublinhou que “quem não deve não teme, ou nos tempos de hoje se calhar deve ser dito não devia temer”. Numa tentativa de limpar a sua imagem, disse que se considerava “um homem honrado, com mais de 30 anos de vida pública”. E é aí que sugere que só está a ser alvo deste tipo de atenção mediática por ser parte da direção de Rui Rio.

Nunca ninguém me apontou qualquer irregularidade até ter aceitado desempenhar o cargo de secretário-geral do PSD na direção de Rui Rio”, disse, sublinhando que, “dada a dimensão mediática que o episódio atingiu”, ele é “o primeiro a querer que tudo seja rapidamente esclarecido”.

Silvano explica ainda que apenas não tomou esta posição mais cedo porque “nunca imaginou” que o episódio “pudesse chegar ao patamar mediático onde chegou atingindo a [sua] dignidade de forma direta e indireta”.

Sobre a alegada investigação da PGR às suas falsas-presenças, o deputado social-democrata ainda acrescenta que não só deseja que a investigação se faça, como deseja que se faça rápido porque “deixar as situações suspensas no tempo só serve para a materialização de uma perversa condenação pública por inação“.