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Bom dia, posso dizer que há consenso em apenas um aspecto: no consumo de droga. Uns dizem que esta ação é justificada, outros consideram que não há razão e, aliás, nem sequer compreendem o que aconteceu aqui ontem. Falamos com alguns imigrantes que vivem aqui na Rua do Bem Formoso, onde ontem foi feita esta rusga da PSP. Muitos destes imigrantes são do Bangladesh, Nepal ou Paquistão. Garantem que são poucos os imigrantes ilegais, mas admitem que a insegurança tem aumentado por causa do consumo de droga. Aliás, nós chegamos aqui por volta das 8h e vimos esse mesmo consumo, mesmo no meio da rua, a céu aberto. Comigo tenho o presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, Miguel Coelho, do PS. Pergunto se estas circunstâncias justificam, no seu entender, a rusga de ontem.

Não, completamente inaceitável. Foi uma rusga direcionada para uma comunidade étnica, o que pode percepcionar nas pessoas a ideia que eles são os criminosos destes fatores de instabilidade. Foi uma rusga que vai fomentar o ódio e completamente ineficaz pelos resultados que deram. Nós temos problemas na Mouraria relacionados com o tráfico de droga. Aqui é um ponto, o sítio onde eu estou a falar é um ponto de venda, controlado por um gangue, ao que eu saiba, maioritariamente composto por outras etnias, a começar pela nossa, e não pela etnia que eles visaram aqui. Temos outros sítios do território aqui bem perto, onde há bem problemas de etnias e da nossa etnia, principalmente controlados por eles e, portanto, esta ação que foi feita aqui foi uma ação apenas para criar uma certa imagem errada de que na Rua do Bem Formoso estão os criminosos todos, quando isto é uma comunidade pacífica, resiliente.

Quero só entender como é que se combate o tráfico e o consumo de droga.

Eu não sou um especialista, mas combate-se com mais patrulhamento, patrulhamento apeado, a pé, nos becos e escadinhas desta freguesia, de noite, sobretudo, que é aquilo que a polícia não faz, vem durante o dia para ser coberta pelas televisões e para um certo show off. De noite é que têm que fazer isso e, naturalmente, com agentes infiltrados, com investigação e, naturalmente, depois prendendo as pessoas que estão a traficar e a consumir.

A PSP justificou esta ação com o combate à sensação de insegurança. O que isso significa exatamente para si?

Eu acho que as pessoas se sentem mais inseguras porque se a PSP é capaz de fazer isto aqui, sem razão aparente, com pessoas que não estão a cometer nenhum crime, que não são suspeitas de nada, de costas à parede, cena típica de um filme do terceiro mundo, de uma qualquer ditadura islâmica ou soviética ou da América Latina. Se faz isto aqui, bom, eu que moro em Campo de Ourique e quem está nas Avenidas Novas também corre o risco e possa acontecer a mesma coisa se a PSP não tiver motivações rácicas ou étnicas, que é o que parece que tem.

Nós falámos aqui com alguns habitantes que falavam do consumo de droga, claro, mas também alertavam para a sujidade, para que estas pessoas cuspiam para o chão, tinham aqui alguns hábitos que acabavam por colidir com os hábitos destes cidadãos portugueses que vivem aqui na Rua do Bem Formoso. Tem conhecimento destas situações?

Posso responder, tal como Cristo respondeu uma vez, e eu não fui bafejado pela fé: quem não tem pecados devidos, que atire a primeira pedra. Eu acho que cuspir para o chão é um hábito bem tradicional de muitas pessoas, ainda antes de haver imigrantes neste país.

Muito obrigada, Miguel Coelho, presidente da Junta da Freguesia de Santa Maria Maior, sobre a rusga ontem que resultou na detenção de dois homens e na apreensão de uma arma branca e alguma droga, nomeadamente cannabis. Foram ainda apreendidos 100 artigos contrafeitos e €4600 em dinheiro vivo.