Michael Schumacher teve o acidente de esqui que o afastou da vida pública, do desporto e dos olhares exteriores a 29 de dezembro de 2013. Dois meses antes, no final de outubro, deu uma longa entrevista a vários adeptos e aficionados do automobilismo, onde respondeu a todas as perguntas que lhe colocaram: sobre os rivais, as corridas mais especiais, os ídolos e o que pensa sobre si mesmo um homem que foi sete vezes campeão do mundo de Fórmula 1. A família do piloto alemão decidiu quebrar o silêncio que mantém há cinco anos, desde o acidente, e divulgou a entrevista para assinalar o 50.º aniversário de Schumi, a 3 de janeiro.

A entrevista foi publicada no site oficial de Schumacher e está dividida em dez perguntas. Logo na questão inicial, em que lhe perguntam qual foi o título mais especial – se o primeiro, em 1994, ou o primeiro com a Ferrari, em 2000 -, o alemão dá uma resposta pouco expectável. Sem se deixar levar pela nostalgia do primeiro campeonato que venceu, afirma que o Campeonato do Mundo de Fórmula 1 conquistado em 2000 foi mesmo aquele que mais significado teve. “O campeonato mais emotivo foi sem dúvida o de Suzuka, em 2000, com a Ferrari. Depois de 21 anos sem Mundiais para a Ferrari e quatro anos para mim, a lutar para o conseguir, finalmente ganhámos a corrida, uma corrida excecional, e ganhámos o campeonato”, explicou o alemão.

Schumacher conquistou o primeiro título com a Ferrari em 2000, depois de vencer o Grande Prémio do Japão

Em 14 anos consecutivos de Fórmula 1 (mais três temporadas entre 2010 e 2012), Schumacher travou batalhas com Damon Hill, David Coulthard, Rubens Barrichello e Fernando Alonso. Mas o adversário que o piloto alemão mais respeitava era Mika Häkkinen, o finlandês que lhe roubou o título mundial em 1998 e 1999. “Grandes lutas mas uma relação privada estável”, revelou Schumacher. O alemão falou também sobre a dificuldade de pilotar um carro de Fórmula 1 e explicou que ainda que “antes fosse muito mais difícil, sem travões hidráulicos, sem direção assistida” continua a ser “um dos desportos mais duros” e é necessária muita preparação.

A resposta mais surpreendente de Michael Schumacher surge na pergunta sobre os seus ídolos. Seria de esperar que o piloto enumerasse Juan Manuel Fangio, Niki Lauda ou Alain Prost. Ainda que recorde que admirava Ayrton Senna e Vincenzo Sospiri, quando começou a participar em corridas de karts, o ídolo de Schumacher não pilotava carros nem motas: era jogador de futebol. “O meu verdadeiro ídolo era o Toni Schumacher, porque era um grande jogador de futebol”, revelou, em referência ao antigo guarda-redes do Colónia, Schalke 04, Bayern Munique, Borussia Dortmund e da seleção da RFA, que é atualmente o vice-presidente do Colónia.

Sobre a receita para o sucesso, Schumacher garante que “a dúvida é muito importante” para “não ser demasiado confiante, ser cético e procurar sempre melhorar”. “Temos de olhar sempre para o próximo passo. E eu pensei muitas vezes que não era bom o suficiente. Então tive de trabalhar em mim. Por isso, sim, acho que essa foi parte importante da receita para me tornar aquilo em que me tornei”.

“O sucesso, em qualquer situação da vida – ou pelo menos naquelas que eu conheço –, é sempre fruto do trabalho de equipa. Sozinho, fazes o que fazes. Como equipa, és muito mais forte. E a Fórmula 1 é um desporto de trabalho de equipa e definitivamente não é trabalho para uma só pessoa”, atirou Schumacher, para refutar as ideias de que a categoria rainha do automobilismo é um one man show.

O piloto alemão foi campeão do mundo ao serviço da Benetton e da Ferrari, tendo sido responsável pelo ressurgimento de duas equipas que estavam algo adormecidas quando chegou. Mais tarde, de 2010 a 2012, as três temporadas em que decidiu regressar da reforma para voltar a correr, ajudou a estabelecer uma Mercedes que é atualmente pentacampeã mundial de construtores e tem aquele que é já um dos pilotos mais bem sucedidos de sempre, Lewis Hamilton. Sobre se existia algo comum a estes dois períodos, Schumacher é sucinto: Ross Brawn. O inglês, atualmente diretor técnico da Fórmula 1, passou pela Benetton, pela Ferrari, pela Honda e pela Mercedes, fundou uma equipa em nome próprio e é considerado a mastermind por detrás dos sete títulos de Schumi.

Schumi e Ross Brawn, considerado o génio na sombra do sucesso do hexacampeonato do alemão, em 2004

A última pergunta feita a Michael Schumacher era da praxe e podia ter sido colocada a qualquer atleta, de qualquer idade e de qualquer modalidade: é possível chegar ao topo apenas com talento? “O talento é muito importante no automobilismo, como em qualquer outro desporto, mas não é tudo. É necessário desenvolver outras capacidades. É por isso que os karts são uma boa base para demonstrar e confirmar o teu talento, mas também para descobrires outras necessidades que tens enquanto piloto”, respondeu o alemão.

Entretanto, no início da semana, um amigo próximo de Mick Schumacher – o filho mais novo do histórico piloto, que estava presente na altura do acidente e é também ele piloto de automóveis – falou com o jornal dinamarquês BT e revelou que “é difícil perceber” o verdadeiro estado de saúde de Schumi porque “ninguém fala sobre isso”. “O Mick não diz que está triste por causa do pai. Diz algumas vezes que é difícil. Mas o assunto está completamente encerrado ao exterior e ninguém fala sobre isso. Eu faço algumas corridas de karts com o Ralf Schumacher (o irmão mais novo de Michael) e a equipa dele e ninguém fala sobre isso. É complicado saber o que se está a passar”, contou Nicklas Nielsen, que também é piloto.

Também na passada semana veio a público uma carta escrita por Corinna Schumacher, a mulher do piloto, cerca de um ano após o acidente. Na carta enviada a um músico que havia composto uma canção dedicada a Schumacher, Corinna escreveu que “Michael é um lutador e não vai desistir”.