Dois meses depois de um acidente a bordo de um foguetão Soyuz ter obrigado a agência espacial Roscosmos a suspender todos os voos tripulados para o espaço, uma tripulação de três astronautas chegou à Estação Espacial Internacional enquanto sobrevoava o Oceano Atlântico. Anne McClain (Estados Unidos), David Saint-Jacquesof (Canadá) e Oleg Kononenkoof (Rússia) partiram para o espaço esta segunda-feira às 11h31 de Lisboa a partir do Cosmódromo de Baikonour, no Cazaquistão. E chegaram à Estação Espacial às 17h33, três minutos antes do previsto. Reveja o momento aqui em baixo.

Esta é a primeira missão tripulada a ser enviada para a Estação Espacial Internacional desde o acidente a bordo de um Soyuz, em outubro. E a única até agora desde que a Roscosmos anunciou ter descoberto a origem do problema e anunciado estar preparada para regressar ao espaço.

A 11 de outubro, o astronauta Nick Hague da NASA e o cosmonauta Alexey Ovchinin da Roscosmos regressaram à Terra depois de o foguetão russo Soyuz que os levaria até à Estação Espacial Internacional ter acusado erros de funcionamento minutos depois da descolagem em direção ao espaço. A NASA, agência espacial norte-americana, disse que os astronautas detetaram problemas no motor da aeronave, que fez um regresso de emergência à Terra em modo balístico. Os astronautas voltaram em segurança.

No momento em que o erro foi detetado foi possível ouvir um sinal de alerta e a mensagem: “Inaudível. Há uma emergência. Há uma falha no impulsionador. Estamos em ausência de peso”. Às 10h20, os astronautas aterraram em segurança no Cazaquistão e foram acudidos pelas equipas de busca e salvamento. A agência espacial norte-americana disse que os dois astronautas estavam “em boas condições” e que mantiveram sempre contacto com os engenheiros.

O foguetão Soyuz, o único capaz de levar astronautas até à Estação Espacial Internacional, tinha levantado voo às 09h40 de Lisboa a partir do Cosmódromo de Baikonur. Quatro minutos mais tarde, a NASA anunciava no Twitter que tinha havido “um problema com o foguete de lançamento” e que “as equipas [norte-americanas] estão em comunicações com os parceiros russos para obter mais informações sobre o problema com o impulsionador do lançamento”.

Logo no próprio dia, o governo russo suspendeu todos os voos tripulados para o espaço da agência espacial Roscosmos. A decisão foi anunciada por Yuri Borisov, vice-primeiro ministro da Rússia, depois de o diretor-geral da Roscosmos ter oficializado que ia abrir uma investigação ao que aconteceu à missão espacial abortada esta manhã. Esta tinha sido a primeira vez que uma missão tripulada não conseguia chegar à Estação Espacial Internacional. Em toda a história das missões tripuladas do programa espacial russo só foram registadas duas falhas: a de outubro e outra em setembro de 1983, quando um foguete Soyuz explodiu na plataforma de lançamento com dois cosmonautas a bordo. Os dois cosmonautas, Vladimir Titov e Gennady Strekalov, conseguiram ejetar-se e sobreviveram sem ferimentos.

A 1 de novembro, a Roscosmos oficializou que ia recomeçar os voos tripulados para o espaço a bordo do Soyuz. O erro, dizia o relatório da agência espacial, tinha sido causado por um problema num sensor que tinha sido danificado durante a montagem do foguetão. O sensor deformado fez com que a tampa da tubeira — uma peça do motor — não abrisse, resultando na separação anormal de um impulsionador. O impulsionador atingiu o tanque de combustível no estágio central do foguetão, fazendo com que ele descomprimisse. Foi assim que a nave perde controlo sobre a altitude.

O regresso da Roscosmos às missões tripuladas é motivo de celebração para todas as agências espaciais com participação do programa da Estação Espacial. A Agência Espacial Europeia (ESA) e (NASA) admitiram ao Observador que os astronautas a bordo da Estação Espacial Internacional podiam ter de ficar no espaço mais do que os típicos seis meses para evitar que o laboratório fique desabitado enquanto durar a investigação da Roscosmos.

Com os foguetões Soyuz reabilitados, isso não deve ser preciso: Serena Auñón-Chancellor, Alexander Gerst e Sergey Prokopyev devem poder regressar a Terra em meados de dezembro, tal como estava inicialmente agendado. Essas missões podiam ser alargadas, mas não muito mais: os três astronautas não podiam ficar no espaço para lá de 4 de janeiro de 2019, porque essa é a data de validade da única cápsula atracada na Estação que os pode trazer de regresso à Terra. Se a investigação da Roscosmos durasse para lá dessa data, a Estação Espacial Internacional pode ficar vazia pela primeira vez desde novembro de 2000.