O presidente do governo regional da Catalunha, Quim Torra, disse este sábado que os catalães devem seguir o exemplo do processo independência da Eslovénia, que se conseguiu separar da Jugoslávia em 1991 após uma guerra que ao longo de dez dias matou 62 pessoas e fez mais de 300 feridos. As declarações motivaram a condenação por parte de vários responsáveis políticos espanhóis.

Na apresentação do Conselho pela República — um movimento que o ex-presidente da Catalunha, Carles Puigdemont, pretende que venha a tornar-se uma união de forças independentistas —, Torra fez uma declaração inflamada que culminou num apelo à luta pela independência em que os catalães devem estar “dispostos a tudo” para alcançar esse objetivo.

Essa passagem da intervenção de Quim Torra foi partilhada num twitt publicado pelo Governo da Catalunha, e diz o seguinte:

“Nós, catalães, perdemos o medo. Não nos causam medo. Não há marcha-atrás no caminho rumo à liberdade. Os eslovenos decidiram seguir em frente, com todas as consequências. Façamos como eles e estejamos dispostos a tudo para viver livres.”

As palavras de Torra, em Bruxelas — proferidas numa sala onde, além de Puigdemont, também estavam os vários membros da Generalitat destituídos em outubro do ano passado pelo presidente do Governo de Espanha —,  estão a gerar um coro de condenação por parte de líderes políticos de vários quadrantes. Uma das críticas à sugestão de Torra surgiu de José Luis Ábalos, secretário para a Organização do PSOE.

Ábalos disse que Torra era “um irresponsável” por ter sugerido aos catalães que seguissem a via eslovena rumo à independência e lamentou que responsáveis daquela região autónoma lançassem “apelos à insurreição” na linha da história da Eslovénia. “É triste” convidar a população a seguir por um “caminho de sofrimento”, disse o responsável político, que é também ministro do Desenvolvimento e que considera “totalitária” a via defendida por Torra.

As críticas vieram dos mais diversos setores políticos. A presidente da câmara de Barcelona, Ada Colau, defendeu que Torra devia retificar “imediatamente” as suas palavras por serem de “uma grave irresponsabilidade”, uma forma de “lançar uma cortina de fumo e tapar os problemas do Governo” na região autónoma. E Inés Arrimadas, líder do Ciudadanos na Catalunha, apelidou o presidente do Governo regional de “perigo público”, ao defender publicamente à “violência” dos cidadãos.

O legado esloveno: dez dias de guerra, 63 mortos

O desafio que Quim Torra lança aos catalães obriga a uma viagem ao passado de quase 30 anos no tempo, de volta a 1990. O La Vanguardia fez essa viagem e parou em abril desse ano, mês em que se realizaram as primeiras eleições livres na Eslovénia, à data uma mera região da República Jugoslava. Nesse sufrágio, a coligação Demos conquista a maioria parlamentar — e começa um movimento de oposição ao regime comunista, com um movimento fulcral: um referendo à independência.

A consulta popular faz-se a 23 de setembro desse ano, mesmo sem contar com a validação de Belgrado, e conta com a participação de 93,2% dos eleitores. Os resultados ditam uma vitória inequívoca pela independência, com 88,5% dos eslovenos a votar a favor da separação.

Nove meses mais tarde, nascia a República da Eslovénia. A declaração de independência aconteceu a 25 de junho de 1991 (um dia antes daquele que tinha sido anunciado). Antes da independência, porém, veio a guerra.

Em poucas horas, os carros de combate de Belgrado entravam em território esloveno e davam início a um conflito armado. Foram apenas dez dias — a história recorda-os assim mesmo, referindo-se à “Guerra dos Dez Dias” —, que fizeram 63 mortos e alguns centenas de feridos. Os combates terminaram com o Acordo de Brioni.

Apesar de não ser o cenário defendido nem pela Comunidade Europeia nem pelos Estados Unidos (que preferiam a “unidade jugoslava” à independência da Eslovénia e da Croácia), o documento foi assinado nas ilhas croatas com o mesmo nome e deu início à saída das forças jugoslavas do território Esloveno.

Mas só três meses depois de declararem a independência os eslovenos conquistavam a soberania. Essa última moratória ficaria marcada, logo no início, por uma declaração do então primeiro-ministro esloveno Lojze Peterle: “Se esperámos 100 anos pela independência, podemos esperar mais três meses.”