O Ministério Público abriu um inquérito para investigar António Peças, o médico do Hospital de Évora que também prestar serviços no helicóptero do INEM estacionado naquela cidade. A informação foi confirmada ao Observador pela Procuradoria Geral da República.

O médico é suspeito de trabalhar para várias entidades ao mesmo tempo, com sobreposição de horários, como o Observador avançou na segunda-feira. Segundo uma denúncia anónima, enviada também para a Ordem dos Médicos, os casos mais frequentes serão da sobreposição de escalas entre o serviço no Hospital do Espírito Santo, de Évora, e o serviço para o INEM, recebendo a remuneração por ambos.

A queixa, assinada por um “grupo de médicos do Hospital de Évora preocupado”, dá dezenas de exemplos em que o cirurgião, devendo estar a trabalhar no hospital, estava também de escala no helicóptero, o que seria manifestamente impossível de cumprir.

Em resposta ao Observador, além de confirmar “a existência de um inquérito no DIAP de Évora que corresponde à situação relatada”, a Procuradoria Geral da República diz também que “tal inquérito ainda se encontra em investigação”, o que significará que, para já, António Peças não foi constituído arguido.

O caso foi também encaminhado pelo INEM para a Inspeção Geral das Atividades em Saúde depois de um inquérito que recomendou também a cessão do contrato com António Peças, algo que acontecerá a partir de 1 de fevereiro.

Entre os elementos enviados para a IGAS está também o caso do transporte de um doente de Évora para Lisboa, que ficou por fazer, de helicóptero, porque o médico alegou estar muito indisposto, com uma gastroenterite. As chamadas entre o CODU e António Peças, reveladas pelo Observador, são claras:

CODU: Há aqui um pedido de Évora para S. José…
António Peças: Eh pá… é o quê?
CODU: É um hematoma subdural.
António Peças: Oh Dr. Marcão [o médico do CODU], é uma coisa… eu estou aqui em casa, vim aqui… acho que isto é uma gastroenterite. Das duas uma, vou aqui ver… ou vou ver se isto me passa aqui um bocado, ou se vou ao hospital que é para eles me fazerem lá uma medicação. (…) Se isso pudesse ser de carro [ambulância], eu agradeço. Se não puder ser, eles têm que aguardar isso um bocadinho, que eu estou… estou aqui um bocadinho aflito.
CODU: OK. Está.
António Peças: Obrigado, Dr. Oiça lá uma coisa: eu vou ao hospital que é para ver se me fazem lá uma medicação, mas se eles puderem fazer por terra 
[de ambulância], eu agradeço. Depois eu digo-lhe alguma coisa depois de fazer a medicação lá no hospital. Está bem?

Não há registo, porém, de que o médico tenha ido, de facto, ao hospital e notícias em sites tauromaquia relatam que, naquele mesmo dia, Peças era o médico de serviço numa corrida de touros na Arena de Évora, tendo até assistido o diretor do espetáculo, que se queimou durante um duche, minutos antes do início da corrida.

Ao Observador, António Peças negou todas as suspeitas. O médico confirma que esteve na arena de Évora, mas apenas de passagem e porque lhe pediram para assinar o parecer médico necessário para o espectáculo, na ausência do clínico que estaria de serviço à corrida. Ainda estava a fazê-lo quando o diretor da corrida se queimou. Garante que prestou assistência a Marco Gomes e foi embora de imediato.

Recusa explicar, porém, a que horas isso aconteceu e como seria possível que, pouco tempo depois, já estivesse em casa, em grandes dificuldades com a gastroenterite, como relata na conversa com o CODU, impedindo até que fizesse o transporte do doente. “Não houve nenhum pedido de transporte”, insistiu, visivelmente irritado com a insistência da pergunta.

O resultado do inquérito interno do INEM também foi encaminhado para a Ordem dos Médicos, que entregou o caso ao Conselho Disciplinar.