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INÊS LACERDA/OBSERVADOR

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"Não gostei do que vi, mas não foi por culpa da polícia." Iúri Rodrigues, o rosto da PSP na Acampada de Lisboa

Descrevem-no como "ponderado" e "calmo". Em Oeiras foi "um dos melhores", no Rossio é "o homem certo". Quem é o comandante da divisão "sempre no foco" que lida com o braço de ferro no Rossio?

Quem conhece o Intendente Iúri Rodrigues não se surpreendeu com o momento em que ele foi filmado, no dia 20 de outubro, a puxar um agente pelo colete depois de este último se ter exaltado com um manifestante da Acampada de Lisboa, no Rossio. O comandante da 1.ª Divisão da Polícia de Segurança Pública tem sido o rosto da PSP no momento de dialogar com as pessoas que têm acampado na principal praça lisboeta num protesto pela habitação, mas é também o responsável no terreno pelas cargas policiais no Rossio que causaram dezenas de feridos.

O vídeo revelado pelo Observador que dura apenas alguns segundos espalhou-se rapidamente entre os agentes. “Polícias que não o conhecem”, revela uma fonte ouvida pelo Observador, não concordaram tanto com a ação do comandante.

E o que diz o próprio Intendente? Ao Observador, Iúri Rodrigues desdramatiza. “Sou uma pessoa física, sou uma pessoa de contacto, e se eu estivesse no lugar dele [do agente] gostaria que alguém fizesse o mesmo que eu lhe fiz. É só isso, acho que não foi nada de mais.”

“Conheço o Iúri de frente, de trás, de lado, de todo o lado. E mesmo que não soubesse a nível visual, identificativo, que era [ele], eu perceberia que era o Iúri”, conta ao Observador um oficial da PSP que trabalhou mais de uma década com o Intendente. E não por querer “mostrar a toda a gente que é comandante disto, para toda a gente ver que é muito mau”, sublinha: “Foi uma reação perfeitamente humana”. Uma “reação perfeitamente humana” que outro colega atribui a uma “das pessoas mais humanas e mais profissionais” com quem já trabalhou.

A presença de tendas no Rossio, no âmbito dos protestos pela habitação, é um desafio inédito para o comandante descrito por um dos seus pares como “uma pessoa de liberdades”. “Ele deve andar extremamente preocupado com aquilo tudo, porque ele é uma pessoa também de liberdades”, revela o antigo colega de uma unidade reservada da PSP.

“Ele é uma pessoa que se preocupa tanto com os polícias como com os manifestantes”, afirma, acrescentando que o vídeo em que se vê Iúri Rodrigues a repreender um agente demonstra “exatamente” o que quer dizer com estas palavras: “Protegeu um e protegeu os outros. A ideia dele foi essa, tenho a certeza absoluta.” E um dirigente da PSP no anonimato confirma-o: “Ele fez o que tinha a fazer e digo, com total frontalidade, que nem todos os meus colegas fariam aquilo. Mas ele fez, fez e eu sabia que ele o iria fazer.”

"Eu sublinho e faço minhas as palavras do Sr. Presidente da República. Não gostei do que vi, mas não foi por culpa da polícia", afirma o comandante. "As pessoas, às vezes, ficam indignadas com o nível de força, mas, se tivessem uma experiência semelhante, viam que, por exemplo, estar a dominar uma pessoa que não queira colaborar é muito difícil"

Mas também era o Intendente Iúri Rodrigues quem estava no terreno tanto no dia 20 como no dia 25 de outubro, quando a PSP decidiu avançar contra os manifestantes no Rossio. Se sobre o momento da reprimenda pública ocorrida na primeira intervenção as opiniões dividiram a polícia, quanto à carga policial que a Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI) está a investigar, os oficiais da PSP com quem o Observador falou têm uma visão consensual: a atuação foi necessária e proporcional, ainda que “ninguém esteja lá com vontade de fazer cargas”.

Os polícias estão “completamente disponíveis para serem escrutinados e para serem feitas as investigações que tiverem de ser feitas”, sustenta Iúri Rodrigues, que considera “lamentável” que a PSP tenha “tido” de “utilizar a força”, mas defende que “o uso de força maior se deveu à reação e à falta de colaboração” dos manifestantes. Em Lisboa, a carga policial de 20 de outubro resultou em 55 detidos. Cinco dias depois, 27 pessoas ficaram feridas na sequência de outra carga policial igualmente no Rossio. Além da IGAI, também a Provedoria de Justiça pediu informações sobre o sucedido a 25 de outubro e a Procuradoria-Geral da República (PGR) recebeu uma denúncia de um manifestante sobre ofensas à integridade física qualificadas, coação agravada e sequestro.

“Eu sublinho e faço minhas as palavras do Sr. Presidente da República. Não gostei do que vi, mas não foi por culpa da polícia“, afirma o comandante. “As pessoas, às vezes, ficam indignadas com o nível de força, mas, se tivessem uma experiência semelhante, viam que, por exemplo, estar a dominar uma pessoa que não queira colaborar é muito difícil.”

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A liderar a 1.ª Divisão Policial de Lisboa — e com ela o centro da capital e boa parte da sua criminalidade —, Iúri Rodrigues, de 43 anos, é um dos “oficiais mais novos” a ocupar o cargo. Na PSP, os colegas definem-no como “ponderado”, “culto” e dono de uma “lealdade à prova de bala”. É ele quem “tem às costas” outros casos duros da polícia, desde o episódio dos cerca de 60 imigrantes encostados à parede durante uma operação no Martim Moniz, ao processo dos agentes da Esquadra do Rato que estão a ser julgados por tortura e violação. “E um jovem oficial levar assim com isto tudo não deve estar a ser fácil”, aponta um colega da PSP. Mas é a esse mesmo oficial que cabe agora o papel de ‘ponta de lança’ da polícia nas negociações com a Acampada de Lisboa sobre a permanência do protesto e das tendas na Praça D. Pedro IV — e a resposta da PSP.

Iúri Rodrigues rejeita, contudo, o protagonismo. Diz não ser “justificada” a atenção centrada em si, lembrando “toda a equipa” que com ele opera no terreno e garante estar “bastante tranquilo” e “confiante” no seu desempenho. O momento tem sido “exigente”, como outros ao longo dos “25 anos de polícia” que já carrega. Mas “não há margem para falhar”.

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“Houve resistência ativa” a 25 de outubro, defende comandante. “Atuação irrepreensível”, dizem colegas oficiais

Vários oficiais com quem o Observador falou olham da mesma forma para a gestão que o comandante da 1ª Divisão da PSP tem feito dos protestos: uma “atuação irrepreensível”. Bruno Pereira, presidente do Sindicato Nacional de Oficiais de Polícia, diz que o comandante à frente das negociações no Rossio “soube ter uma interação que não é fácil” mas que entende como foi possível: “[Com o Iúri] Não vês, do outro lado, uma resposta conveniente. Vês uma resposta de alguém que te está a dizer exatamente aquilo que pensa.”

“Com três filhos, tem de ser sempre uma pessoa com muita paciência”, brinca outro colega, que crê que esse treino “tem dado jeito nos últimos dias” para gerir a tensão com os manifestantes no Rossio.

Dá jeito para termos mais paciência, acima de tudo para conseguirmos manter a tranquilidade, a calma. Quando tudo está quente, é nesse momento em que o Iúri, enquanto comandante, tem de estar calmo, aparentemente calmo, para que a decisão seja o mais acertada possível”, sublinha a mesma fonte.

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Outros colegas elogiam atos como o de “querer envolver o senhor deputado Fabian Figueiredo [Bloco de Esquerda] na ajuda para resolver a contenda”, e o facto de, “ao longo da semana”, [Iúri Rodrigues] ter “tentado falar com os promotores e alguns manifestantes com alguma liderança junto do grupo” — ainda que, até ao momento, tudo se tenha mostrado “ineficaz”.

Depois de uma manifestação que levou milhares de pessoas às ruas pelo direito à habitação, a PSP ordenou, na madrugada de domingo, 25, a retirada das tendas e a desmobilização de quem se mantinha nas praças de Lisboa e do Porto. A operação desmantelou as acampadas quase em simultâneo, com a polícia a dispersar os manifestantes e a empurrá-los para as artérias circundantes, com recurso a bastões e a cães.

A noite “aterrorizante” no Rossio, que acabou com carga policial, barricadas e vários feridos

Horas antes, na Praça D. Pedro IV em Lisboa, o deputado Fabian Figueiredo falava com Iúri Rodrigues. “O que eu lhe ia pedir era se nos poderia ajudar a que as pessoas pudessem retirar as tendas sem haver necessidade de intervenção policial”, pediu o comandante da PSP ao deputado. Apelo a que Fabian Figueiredo respondeu: “Repare, isso cabe a quem cá está.”

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O comandante retorquiu: “Pronto. Não consegue ajudar, não é?” O deputado respondeu que ajudaria, mas questionou várias vezes a necessidade de mobilizar aquele dispositivo perante pessoas “pacificamente” acampadas. “Podemos depois conversar sobre isto, não é este o momento. Estamos a perder tempo (…). Pode passar no meu gabinete para conversarmos”, repetia o comandante, enquanto repousava várias vezes a mão no braço e no ombro de Fabian Figueiredo. Na sequência da carga policial de 25 de outubro, o deputado bloquista afirmou em entrevistas televisivas ter sido agredido e ficado com dores na perna e no joelho direitos. Durante a intervenção policial, foi retirado do local pelo Intendente.

“A questão dos debates é uma coisa que quis evitar”, justifica o comandante ao Observador sobre a troca de palavras com o deputado. “Às vezes as pessoas tentavam instrumentalizar o facto de estar ali o representante do Estado para entrar num debate. Tentei sempre evitar isso. Eu gosto muito de fazer esse tipo de debates, mas não é ali o momento para o fazer. Fora das câmaras, em momentos mais calmos, até tive debates com algumas pessoas em que expliquei o ponto de vista da polícia e, sendo pessoas razoáveis e disponíveis para ouvir, acho que consegui passar a mensagem.”

Mas perto das 2h daquele domingo, a PSP decidiu deixar de “perder tempo”. Minutos depois do último aviso, às 2h05, a polícia avançou sobre os manifestantes, que usaram portas e tábuas de madeira como escudos para tentar permanecer. A força policial acabou por desfazer a linha de protesto. Segundo a PSP, que dois dias depois partilhou um vídeo em que se veem pessoas a arremessar objetos durante a carga policial, a operação resultou em 25 detenções.

Acampada. 8 minutos na linha da frente entre polícias e manifestantes

Sobre a violência do confronto, Iúri Rodrigues rejeita a ideia de uma atuação desproporcionada perante manifestantes passivos: “Houve resistência ativa. Não podemos achar que é ingénuo as pessoas terem portas, tarjas com contraplacado por trás e com pegas como se fossem escudos. Vimos garrafas a serem atiradas, vimos pontapés a serem desferidos contra os agentes.”

Aliás, para o comandante, “nota-se bem a diferença entre a ala esquerda — que avançou de costas para o Teatro D. Maria II e onde teve de existir um nível de força muito menor — e a ala direita, onde houve uma resistência muito grande. A medida é esta: a polícia não pode parar, não pode permitir que as pessoas resistam e que não possamos executar a ordem.”

Iúri Rodrigues garante ter “a convicção de que aqueles homens do Corpo de Intervenção estavam bem cientes da importância de utilizar o nível de força mínimo”. “Isso tinha sido muito bem conversado com a hierarquia deles e foi aquilo que vi tentar ser aplicado”, afirma ao Observador.

Quem falou com o comandante nos últimos dias de "pressão absolutamente esgotante e assassina", admite, no entanto, que o encontra "cansado". Mas com a certeza que "isso não vai demovê-lo". "Eu acredito que ele esteja no red line, só que [a diferença é que] os outros já tinham rebentado", diz outro polícia

Para explicar a diferença no nível de força aplicado entre os lados direito e esquerdo da linha dos manifestantes, recorre a um exemplo. “Muitas vezes os polícias podem ter tido a intenção de bater num ombro e, com o movimento dinâmico das pessoas, aquilo pode ter resvalado e batido na cabeça. Não quero branquear nada, e há de ser tudo analisado com detalhe, mas o contexto em que se está a decidir é muito complicado”, sublinha.

No dia 20 de outubro, durante a operação que retirou mais de 200 tendas e resultou em 55 detidos no Rossio, Iúri Rodrigues foi filmado a corrigir um agente de forma mais “enérgica”. “Tive essa atitude porque naquele momento senti que aquele agente — que nem conheço, é um polícia que não é da minha divisão, veio de reforço e que agradeço, mas que esteve a trabalhar desde as oito da manhã e estava cansado como todos nós — pudesse fazer um uso da força inadequado, porque estavam ali cidadãos detidos. Intervim para evitar que isso acontecesse, o que acho que é a minha obrigação como superior hierárquico.” Iúri Rodrigues lembra que “aquele polícia se emocionou com os insultos de que estava a ser alvo”.

Segundo Bruno Pereira, o comandante limitou-se a “exercer o seu dever como superior hierárquico”: “Porque viu que poderia haver ali uma intervenção que podia resvalar, ou que podia ser exagerada e teve prontidão de intervir para cessar exatamente essa interação e corrigir o comportamento. Isso chama-se supervisão, chama-se enquadramento, chama-se comando”, vinca.

Quem falou com o comandante nos últimos dias de “pressão absolutamente esgotante e assassina”, admite, no entanto, que o encontra “cansado”. Mas com a certeza que “isso não vai demovê-lo”. “Eu acredito que ele esteja no red line, só que [a diferença é que] os outros já tinham rebentado”, diz outro polícia.

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Ainda assim, é “muito raro encontrá-lo mal disposto. Está sempre motivado, na galhofa, a rir”. “Sabe contar piadas, sabe rir-se quando é para rir e sabe chorar quando é para chorar.” “E para gerir esta situação que se está a viver agora, ele é a pessoa certa”, frisa um oficial.

Mesmo “suspeito para falar” por serem amigos que “cresceram juntos” e ver no comandante “um exemplo”, “um líder” e uma pessoa que não se importava “de ter toda a vida ao lado”, um oficial garante que Iúri Rodrigues “é o melhor comandante para a primeira divisão neste momento”. Até porque, pergunta: “Acha que há algum comandante que queira assumir o lugar do Iúri na primeira divisão neste momento? Ninguém.” E a razão é simples: comandar aquela unidade é “uma tarefa muito difícil, porque é uma área de muitos problemas, e é uma área que está sempre no foco”.

“Ainda bem que não querem que assim ninguém me tira daqui”, responde Iúri Rodrigues, que considera que “ainda há muita coisa por fazer”. “Tenho uma equipa espetacular que me faz sentir bem onde estou. Sinto-me respeitado, sinto que as pessoas trabalham com vontade e, portanto, é fácil ser comandante numa divisão com pessoas assim”, conclui.

Os tempos no Carcavelos e a escola dos eventos desportivos para gerir “massas”

Em 2006, Iúri Rodrigues começou a exercer funções de comando na PSP de Oeiras. Enquanto lá esteve, foi o responsável por uma operação “complicada” que juntava o Grupo de Operações Especiais, o Corpo de Segurança Pessoal e a Investigação Criminal da PSP para travar um “grupo perigoso” suspeito de roubos, sequestros e violações na Marginal, entre Cascais e Oeiras. Passados 15 dias no terreno sem sucesso, Iúri Rodrigues foi o último a desmobilizar.

“Ao final de 15 dias é complicado, tanto que o Cometlis, a direção nacional, decide que não poderia manter aqueles meios todos no terreno, por mais tempo e ele pede-me a mim: ‘por favor, vamos manter-nos nós'”, recorda ao Observador um dos operacionais envolvidos na missão. Numa noite que se previa novamente sem sucesso, um subalterno tinha-lhe dito: “Comandante, vá descansar, eu fico cá. Se houver alguma novidade, eu transmito”. Horas depois, pelas “quatro ou cinco da manhã”, Iúri Rodrigues recebeu a chamada que esperava: tinha havido detenções.

Quando chegou à Divisão Policial de Oeiras, acabado de sair da licenciatura em Ciências Policiais pelo Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna, a maturidade impressionou os camaradas mais velhos que "às vezes até diziam, 'como é que alguém tão novo já tinha esta maturidade?'" Aliás, foi preciso pouco tempo para a equipa passasse a preferir os mais novos aos "velhos já cansados"

Porém, à porta da esquadra, familiares das vítimas tinham-se juntado para “linchar” os suspeitos. Os ânimos estavam exaltados, divididos entre a revolta das famílias e a “euforia de uma equipa que consegue pôr termo a um caso destes”. Nessas horas, Iúri Rodrigues apareceu e “acalmou toda a gente”. Além de “parabenizar o efetivo”, ajudou os arguidos com os procedimentos processuais e “conseguiu acalmar as vítimas”. “Sempre gerindo perfeitamente a pressão e o stress” e sem ser um “orador burlão”, recorda o mesmo operacional, que confessa ter “aprendido muito com ele” e que, no fim da conversa com o Observador, admite: “Gostava de ser ainda mais como ele.”

Quando chegou à Divisão Policial de Oeiras, acabado de sair da licenciatura em Ciências Policiais pelo Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna, a postura impressionou os camaradas mais velhos que “às vezes até diziam, ‘como é que alguém tão novo já tinha esta maturidade?'” Aliás, foi preciso pouco tempo para que a equipa passasse a preferir os mais novos aos “velhos já cansados”.

Entrou com tanta naturalidade que ao fim de algum tempo aquilo que se dizia entre o efetivo era, ‘olha, venham estes novos e que venham com vontade de ajudar do que termos cá os velhos que já estão cansados e que já não têm paciência para nos aturar'”, conta um dos mais velhos do efetivo que o viu chegar.

Em Oeiras, assumiu a liderança de operações “delicadas e sensíveis” em “bairros sociais complicados”. A postura no terreno levou um colega oficial da PSP a considerá-lo “um dos melhores comandantes que passaram por ali”. “Calmo, sereno e culto”, “sob pressão é daquelas pessoas que era o último a explodir”, conta ao Observador. “Frisava sempre que nós tínhamos de trabalhar dentro da legalidade, que se não trabalhássemos dentro da legalidade o processo não prestava”, sublinha outro colega.

É o mesmo operacional que recorda outro episódio “muito pesado” que o “marcou”: o momento em que um agente da equipa — ex-militar no Kosovo e na Bósnia, com sinais de stress pós-traumático — morreu. Nessa altura, Iúri Rodrigues “dedicou uma atenção muito grande à família” e “viajou várias vezes ao Norte”, terra natal do agente, “só para estar com eles”.

É por isso que o Intendente Iúri Rodrigues resiste a definir as últimas semanas como difíceis. “Se é difícil… O que é difícil é perder homens, como já me aconteceu, isso é que é difícil. O resto é tudo relativo.”

É uma pessoa muito pura, pura mesmo, muito assertivo, com enorme curiosidade”, resume um dirigente da PSP que o conhece desde a juventude. “Conheço-o desde os 18 anos, chegámos a dormir nas mesmas camaratas. É uma pessoa com muito altruísmo, camaradagem, e tenho nele uma confiança moral quase absoluta.”

Foi também ele quem geriu a transição de valências entre a GNR e a PSP, quando os agentes de Oeiras assumiram as zonas de Queijas e Porto Salvo, num processo sensível em que “a mudança de horários podia criar alguma resistência”. A adaptação acabou por ser “pacífica” graças à forma como “a mensagem era bem passada e explicada”: “Teve sempre ali uma componente bastante humana”, sintetiza um colega.

Antes de entrar para a escola de polícia, Iúri Rodrigues jogou no Carcavelos e mais tarde, durante grande parte da carreira, esteve ligado às operações policiais de eventos desportivos — um detalhe que os seus pares apontam para explicar o facto de "saber perfeitamente o que é o comportamento de massas" e, por isso, a capacidade que consideram estar agora a demonstrar na Praça D. Pedro IV

E isso era reconhecido até por superiores mais difíceis. Perante um comandante de divisão “mais velho e impulsivo”, o jovem oficial “ficava ali, se fosse preciso uma hora ou duas, a explicar” a sua posição até ouvir o “pronto, já me convenceste, então vá, sigam lá” do superior. No momento em que deixou a divisão, um louvor assinado por esse mesmo comandante — “que era tão exigente” — a reconhecer que “com aquela idade, ter a paciência que muitas vezes tinha tido, e aquela capacidade de resiliência, era um bocadinho incomum“.

Antes de entrar para a escola de polícia, Iúri Rodrigues jogou no Carcavelos e mais tarde, durante grande parte da carreira, esteve ligado às operações policiais de eventos desportivos — um detalhe que os seus pares apontam para explicar o facto de “saber perfeitamente o que é o comportamento de massas“.

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“Zona de exclusão” com tendas no Rossio foi “inadmissível”. Acampada deve voltar dia 31

É já este sábado, dia 31 de outubro, que os manifestantes tencionam voltar a montar tendas no Rossio, em Lisboa. Tanto advogados como juristas levantaram, entretanto, dúvidas sobre a lei usada pela polícia para, após a 0h30, pedir aos manifestantes que levantem as tendas.

“Tento falar com as pessoas como uma pessoa normal”, assume o Intendente. “Tentar evitar os chavões policiais e informar de forma que não abandone o rigor exigido — para que não haja dúvidas —, mas numa linguagem que as pessoas de facto entendam”, explica o comandante.

O objetivo passa por recorrer a uma abordagem “que não possa ser vista como agressiva, que não os obrigue logo a uma posição defensiva”, promovendo o diálogo para que “eles possam sentir que deste lado não está uma força repressora, mas sim uma força que quer que eles exerçam o seu direito da forma mais ordeira possível.”

O comandante lembra, ainda assim, que a flexibilidade teve limites: "Houve uma noite anterior em que as pessoas montaram tendas e eu fui falar com elas; as pessoas lá tiraram as tendas e ficaram na rua a dormir ao relento. Acho que não foi boa ideia, porque até estava frio e podiam constipar-se, mas não impedi isso"

É também por isso que o responsável tático pela operação no Rossio diz não querer “estar agarrado a uma linha que não possa ser transponível”, preferindo antes ser “razoável” — ainda que isso possa levantar dúvidas. “Muitas vezes às pessoas parece-lhes que há situações diferentes em casos idênticos. Percebo perfeitamente que sintam isso, mas para nós os casos nunca são iguais. Atendendo ao que temos bem noção sobre as consequências de uma atuação policial, queremos evitá-la ao máximo”, afirma.

Na visão do comandante, num primeiro momento, a estratégia da PSP passou por “esperar para ver como é que a coisa evoluía”. “E insistimos, insistimos e insistimos no discurso a tentar convencer. Falei com muita gente, com alguns dos senhores que agora são advogados e estão a defender as pessoas detidas, com vários promotores, com representantes, para ver se as pessoas de facto se apercebiam”, conta. “Mas o que começámos a notar foi que o fenómeno, em vez de estar a diminuir, estava ainda a aumentar.”

A questão das tendas, embora não seja o único motivo para além do ruído, simboliza um dos pontos centrais por trás da intervenção: “O problema das tendas é que o que foi aqui visível foi uma apropriação do espaço público e a criação de uma zona de exclusão em que os manifestantes estavam a exercer soberania sobre aquele espaço. Isto é inadmissível”, vinca Iúri Rodrigues. O comandante considera que ao longo das Acampadas, também se adaptou: “Houve uma noite anterior em que as pessoas montaram tendas e eu fui falar com elas; as pessoas lá tiraram as tendas e ficaram na rua a dormir ao relento. Acho que não foi boa ideia, porque até estava frio e podiam constipar-se, mas não impedi isso.”

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[Duarte Lima admite ter estado com Rosalina Ribeiro na noite em que a herdeira milionária desapareceu mas nega ter sido a última pessoa a vê-la com vida. Conta que, depois da reunião que tiveram, no Rio de Janeiro, levou a cliente até Maricá, para um encontro com uma mulher chamada Gisele. É uma versão que não bate certo com as primeiras provas recolhidas pelas autoridades brasileiras. Enquanto Duarte Lima se torna, para a polícia, o principal suspeito do homicídio, perde força a outra linha de investigação. Olímpia Feteira era inimiga assumida da antiga companheira do pai mas garante que nunca desejou a morte dela. E, ao contrário de Duarte Lima, disponibiliza-se para prestar todas as informações necessárias à polícia brasileira. Já pode ouvir o segundo episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]

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