Depois de ser noticiada a omissão de partes do poema “Ode Triunfal”, de Álvaro de Campos, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, num manual escolar de língua portuguesa do 12.º ano, a Porto Editora veio esta segunda-feira esclarecer que não se tratou de “qualquer censura”, mas sim de “uma preocupação didático-pedagógica”, tendo em conta que se tratam de três versos com “linguagem explícita e que se relacionam com a prática de pedofilia”.

Desta forma, diz a editora em comunicado, os versos em causa do manual intitulado “Encontros” estão apenas disponíveis na versão do professor que, “em função das características específicas de cada turma”, pode decidir se os aborda em contexto de aula ou não. “Nesta versão, as autoras sinalizam ao professor quais os versos que se encontram omitidos na edição do aluno. Assim, os docentes podem decidir se abordam em contexto de sala de aula — e de que forma — versos que têm linguagem explícita e se relacionam com a prática de pedofilia”, diz a Porto Editora em comunicado.

Os versos em causa são: “Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas” e “E cujas filhas aos oito anos — e eu acho isto belo e amo-o! — / Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada”. Segundo a declaração assinada pela equipa de autores, apesar de os três versos referidos terem sido omitidos do livro do aluno, “a indicação de que os versos foram cortados é visível tanto graficamente (linhas e tracejado) como através da numeração das linhas”.

O excerto do poema “Ode Triunfal” é apresentado desta forma no manual do professor

Segundo o jornal Expresso, que avançou a notícia, este é um livro utilizado em várias dezenas de escolas por todo o país. A informação chegou precisamente de uma dessas escolas, onde os alunos escutaram uma gravação do poema na íntegra enquanto acompanhavam a leitura no manual e notaram os versos omissos no livro.

A diferença entre livro do professor e livro do aluno assenta no pressuposto de que cada docente tem um papel central na preparação e na organização das suas aulas, em função das características específicas de cada turma. Os professores conhecem as suas turmas e conhecem o poema integralmente, pelo que saberão também se têm ou não condições para abordarem os referidos versos com o tempo e o cuidado necessários, uma vez que podem, obviamente, constituir fator de desestabilização ou de desvio da atenção dos alunos”, referiram ainda os autores do manual, Noémia Jorge, Cecília Aguiar e Miguel Magalhães.

Por considerar que é uma escolha do professor, a Porto Editora recusa que tenha existido “qualquer censura à obra de Fernando Pessoa”, mas sim uma “preocupação didático-pedagógica — seguida pela generalidade dos manuais existentes — que permite aos professores decidirem livremente sobre a abordagem mais adequada junto dos seus alunos”. A poesia de Fernando Pessoa, incluindo os heterónimos, faz parte do programa de língua portuguesa do ensino secundário, cabendo ao professor a escolha dos poemas a estudar.

Professores de Português contra a omissão dos versos de Álvaro de Campos no manual

Em declarações ao jornal Público, a presidente da Associação Nacional de Professores de Português, Rosário Andorinha, mostrou-se contra o corte dos três versos da Ode Triunfal de Álvaro de Campos no manual da Porto Editora. “Não consigo aceitar que um poema seja cortado, porque ao fazê-lo já não estamos perante o mesmo texto, nem a respeitar o seu autor”, afirmou a professora, que dá aulas no secundário.

“Estamos a falar de alunos do 12.º ano, que têm entre 17 e 18 anos. Não faz qualquer sentido estar a escamotear versos só porque alegadamente têm uma linguagem menos própria”, sublinha a professora. Rosário Andorinha afirma que a solução encontrada pela Porto Editora desvirtua o estudo de Álvaro de Campos, uma vez que este utiliza, precisamente, “uma linguagem que pretende agredir, chocar”.