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Ginástica

“Era invencível. Até deixar de ser”. A segunda vida de Katelyn Ohashi, a ginasta que encantou com uma nota 10

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Começou aos três na ginástica, não foi aos Jogos de 2012 pela idade, quebrou com as lesões, deixou o nível de elite, voltou a ser feliz nas provas universitárias. O percurso de Katelyn, a "nota 10".

Katelyn Ohashi conseguiu seis notas 10 nos últimos dois anos pela UCLA, as últimas quatro no exercício de solo

“Houve um tempo em que estava no topo do mundo. Era uma esperança olímpica. Era invencível. Até deixar de ser (…) Gostava de poder voltar a ser apenas uma miúda, I was broken [“estava quebrada”, na tradução mais aproximada da expressão que dificilmente encontra equivalente a não ser na sua língua]”. Katelyn Ohashi demorou poucas horas a tornar-se um fenómeno viral após novo exercício perfeito que mereceu nota 10. Mas para chegar ao sorriso com que começou e terminou o solo passou antes por muitas semanas em que lutou contra expetativas, contra lesões e contra si mesma. Seguiu o seu caminho. E ganhou.

Aos 21 anos, Katelyn atingiu o topo pelo seu caminho. Pelo menos o seu topo. Provavelmente num caminho que será seguido por mais atletas. Com apenas três anos já andava nos pavilhões de ginástica; aos nove, mudou-se para Missouri com a mãe e um dos irmãos, entrando no Great American Gymnastics Experience de Al Fong; aos 12, rumou ao Texas, integrando a World Olympic Gymnastics Academy liderada por Valeri Liukin, pai e treinador da medalha olímpica Nastia Liukin. Era uma vida de sentido único. Dirigida a um só objetivo. Com uma única virtude. A mesma que se acabou por tornar o seu maior pecado.

“Nunca ninguém soube o que estava a passar e também nunca podia dizer ou publicitar o que estava mal em mim. Estava feliz por estar lesionada, disseram-me que era uma vergonha como tinha ficado tão grande. Fui comparada com um pássaro que não conseguia voar. Isto eram coisas que ouvia ainda antes de me lesionar, quando era magra, e pensava o que diriam depois de ter ficado maior. Não me conseguia aceitar. A ginástica era o meu mundo, a minha vida”, contou numa reportagem feita em agosto para o The Players’ Tribune, recordando a forma como uma fratura nas costas e os constantes problemas nos ombros foram dizimando aquilo que parecia ser uma espécie de desígnio como uma das maiores entre as maiores.

Hoje falamos de Simone Biles como a maior ginasta de sempre nos Estados Unidos mas, anos antes, Katelyn competia e ganhava à menina prodígio com quatro ouros olímpicos e 20 medalhas em Mundiais (14 de ouro). Em 2010, com apenas 13 anos, ganhou a prova de barras assimétricas nos Campeonatos Nacionais de Juniores e ficou em segundo no all around; logo no ano seguinte, só não conquistou a trave na mesma competição; em 2012, voltou a dominar nas barras assimétricas e ganhou mais duas pratas. No all around, quedou-se pelo quinto lugar. Simone Biles, que apareceu então pela primeira vez, foi terceira. Em condições normais, integraria a equipa dos Estados Unidos nos Jogos de Londres mas, por meses, falhou a idade mínima. Não se ficou por aí e, em 2013, já como sénior, venceu o all around da American Cup, um das maiores competições de ginástica.

Pouco depois, Katelyn foi operada ao ombro e falhou o resto da temporada. Começou a recuperação, começaram os receios. Em 2015, uma lesão nas costas obrigou a nova intervenção cirúrgica e mais uma longa ausência. Foi aí que decidiu dar um passo atrás e abandonar o nível de elite, passando a integrar a UCLA Bruins, equipa feminina de ginástica da Universidade da Califórnia; foi aí que, como o tempo veio a provar, deu dois passos em frente. Na carreira e na vida.

“A Miss Val [treinadora] e a UCLA fizeram com que tivesse um novo objetivo e caminho para seguir, que me fizesse voltar a amar o desporto. Olhei muito para a minha treinadora. A minha mãe não estava propriamente contente por ter abandonado a ginástica profissional e ir para a faculdade mas depois viu como estava contente. Foi uma mudança que me fez sentir de novo uma pessoa. A ginástica pode ser um desporto demasiado brutal mas não acho que seja suposto ser um desporto tão brutal. Espero que nos próximos dez ou 20 anos não seja assim e que existam atletas a deixar o desporto sem ficarem tocados por ele. Esse devia ter sido o meu caminho, há muito tempo que não estava tão feliz. Agora não se trata de ganhar medalhas ou ir a pódios, é sair com um sorriso na cara, feliz comigo mesma. E isso vem primeiro”, contou no The Players’ Tribune, ciente de que era uma atleta que “estava no caminho para se tornar invencível mas, de repente, as costas cederam…”.

“O que demonstrei foi alegria. Ter gosto naquilo que se faz todos os dias é algo que trago sempre perto do coração porque sei bem o que é não ter isso. Acho que essa é a maior das mensagens que posso enviar. Uma pessoa pode conseguir fazer a diferença e vejo isso no feedback muito positivo que tenho recebido”, contou depois da nota 10 (que não foi nem a primeira nem a segunda nos últimos anos) conseguida no Campeonato Nacional de Ginástica Universitária à NBC, em resposta às várias solicitações que surgiram depois do brilharete que se tornou viral com ajuda das redes sociais.

Ao som de Tina Turner e Michael Jackson, Katelyn Ohashi provou que podia escrever outra letra sem deixar a sua música de sempre – a ginástica. E cumpriu a vontade de, aos 21 anos, voltar a fazer o que gostava como quando começou com apenas três anos. Ou, como resume a Time, a ginasta ganhou vida quando começou a ouvir a “Proud Mary” no início do exercício. Uma outra vida, tão boa ou melhor para si do que quando andava de pódio em pódio semana atrás de semana. “Acho que nunca vi alguém divertir-se tanto enquanto compete”, destacava o The Washington Post entre os comentários à atuação. E esse, além do talento natural de uma predestinada, acaba por ser o seu maior segredo.

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