António Costa deixou o desafio de Paulo Rangel sem resposta. À entrada para a Comissão Política do PS, e depois de o cabeça de lista do PSD acusar o ministro (e provável adversário) Pedro Marques de fazer uma “campanha dissimulada” e usar “recursos públicos” para se promover para as europeias, o secretário-geral socialista entrou mudo. Lá dentro, Costa defendeu a constituição de listas integralmente paritárias, defendeu a presença de “quadros” do partido nas diferentes áreas e empurrou a apresentação do cabeça-de-lista do PS para a próxima semana.

Horas antes de a Comissão Política do PS se reunir no Largo do Rato, Paulo Rangel tinha defendido que, “neste momento, subsiste a legítima suspeita de que houve o aproveitamento de um cargo ministerial para engendrar, lançar e promover um candidato”.

As baterias foram apontadas a Pedro Marques, ministro do Planeamento, que nas últimas semanas tem apresentado vários programas de investimento público. Rangel acusa o socialista de ser “um candidato disfarçado de ministro” e de estar aposta numa “campanha dissimulada”. E chamou Costa a terreiro. O primeiro-ministro “tem que esclarecer, quanto antes, se o Governo está a utilizar recursos públicos e aproveitar um cargo ministerial para promover um candidato”.

Mas ficou sem resposta. António Costa estava focado nas europeias, mas nada disse à entrada para a reunião. A mensagem da noite estava reservada para os dirigentes do PS, e à porta fechada. O líder socialista pediu luz verde à Comissão Política para escolher o cabeça-de-lista do partido às eleições de maio — num momento em que já se desenham reconfigurações no Governo com a saída de Pedro Marques — e reforçou os princípios que devem orientar a preparação das listas do partido.

  • Listas paritárias
  • Um equilíbrio regional
  • A presença garantida de nomes das regiões ultraperiféricas (Madeira e Açores) nos oito primeiros lugares das listas (e, portanto, em lugares elegíveis)
  • Equilíbrio nas diferentes áreas de trabalho do Parlamento Europeu

Costa considera que os eurodeputados do PS devem ser nomes de reconhecido mérito nas diferentes áreas, defendendo, por isso, uma continuidade dos quadros políticos em Bruxelas. Mas a composição final da lista às europeias só deverá ser aprovada pelo partido em março, quando os socialistas se reúnem em Comissão Nacional, no dia 9. A par da continuidade, e como tem sido princípio do PS, Costa defendeu a ideia de que é necessária uma “renovação” nas caras do partido e que os eurodeputados devem cumprir apenas dois mandatos.

Antes de toda a lista ser anunciada, o PS reúne-se em Gaia para uma convenção virada para as europeias. E já nesse encontro será anunciado o nome que o partido apresenta em primeiro lugar para concorrer ao Parlamento Europeu. A escolha, tudo indica, recairá sobre Pedro Marques, o nome que os vários adversários já colocaram debaixo de fogo. A formalização, contudo, está guardada para daqui a uma semana.

Costa aponta o dedo a “alguns” sindicatos “irresponsáveis”

Numa reunião da comissão política convocada para falar sobre europeias, Costa não escapou ao tema quente do momento: a greve dos enfermeiros. Mas, apesar de reconhecer alguma “agitação social” momentânea por parte dos sindicatos de professores, da Administração Pública e dos enfermeiros, o líder socialista terá admitido que espera um ano eleitoral “tranquilo”.

Costa voltou a traçar uma linha entre aquilo que são reivindicações aceitáveis e aquilo que vai para lá dos limites (no Parlamento, no último debate quinzenal, recorreu à ideia de que os enfermeiros não podem exigir ao Governo “o impossível”). No Rato, o líder socialista apontou o dedo à “irresponsabilidade” de “alguns” sindicatos”.

José Abraão não gostou de ouvir. O socialista, dirigente da Federação de Sindicatos da Administração Pública (FESAP) e membro da comissão política do PS, criticou a “falta de disponibilidade” do Governo para acatar as exigências de alguns grupos profissionais.

Até se conversa, mas, no fim, não há nada. O que nós queremos é acordos. O Governo negoceia, faz conversa, mas no final é como quer”, criticou Abraão.

Além de defender a ideia de que “não há sindicatos bons e sindicatos maus”, o dirigente da  FESAP contrapôs à expectativa de “tranquilidade” do primeiro-ministro a promessa de que 2019 será mesmo um “ano quente” em contestação social.