Os primeiros esclarecimentos do governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, sobre a sua passagem pela Caixa Geral de Depósitos não resistiram mais de três dias. Na sexta-feira, o responsável do supervisor dos bancos informou em comunicado que pediu escusa de participar em quaisquer deliberações do Banco de Portugal relacionadas com a auditoria da EY à Caixa Geral.

Esta segunda-feira foi preciso reforçar as explicações. Num novo (e curto) comunicado à imprensa, Carlos Costa diz que, afinal, este pedido de escusa tinha sido feito em novembro do ano passado, algo que a nota de sexta-feira não referia.

Carlos Costa foi administrador entre abril de 2004 e setembro de 2006, e durante esse período, terá participado na aprovação de operações ruinosas como o crédito a Vale do Lobo e créditos a Manuel Fino e Joe Berardo (como revelou a revista Sábado na passada quinta-feira). A auditoria da EY à Caixa Geral incidiu sobre o período entre 2000 e 2015.

No comunicado divulgado na sexta-feira, Carlos Costa sublinha que as suas responsabilidades estavam nas áreas de marketing e internacional da instituição. “Durante todo o período em que exerceu funções de administrador na CGD, o governador não teve responsabilidades nas áreas de crédito, risco, acompanhamento de clientes ou de controlo e auditoria interna”, garante o comunicado.

Ainda assim, pelo facto de o mandato ter coincidido com o período em que mais problemas se acumularam na Caixa, o governador “comunicou ao Conselho de Administração do Banco de Portugal a sua intenção de não participar nas decisões do Banco de Portugal decorrentes das conclusões desta auditoria, tendo o Conselho de Administração aceite este motivo de escusa”.

Só não dizia quando tinha sido feito esse pedido, deixando no ar a possibilidade de ter sido feito após a divulgação da reportagem da Sábado. O novo comunicado diz agora que este pedido foi feito em novembro.

“Em complemento do comunicado publicado em 8 de fevereiro 2019, o Governador esclarece que o pedido de escusa relativamente à participação em deliberações do Banco de Portugal sobre situações abrangidas pela auditoria da EY à CGD foi apresentado na ocasião da primeira deliberação tomada neste âmbito, em 6 de novembro de 2018, e nessa data aceite pelo Conselho de Administração”, indica a nota desta segunda-feira.

Este novo comunicado surge horas depois de o Bloco de Esquerda ter reiterado o pedido a exoneração de Carlos Costa, considerando que o governador do Banco de Portugal cometeu uma “falha grave” nesta matéria.

Carlos Costa termina o mandato em julho de 2020. O governador deverá ser chamado novamente ao Parlamento para esclarecer os deputados naquela que vai ser já a terceira comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos.