Os nomes e os milhões apagados da auditoria à Caixa. As 200 operações que provocaram perdas de 1.760 milhões /premium

06 Fevereiro 20198.244

O Observador mostra a versão sem cortes do relatório final da auditoria à CGD. Nas 263 páginas estão duas centenas de operações que custaram 1.760 milhões de euros aos contribuintes. Veja-as aqui.

A exposição da Caixa Geral de Depósitos aos créditos ruinosos que concedeu era, no final de 2015, de 4.926 milhões de euros. Ou seja, mais mil milhões de euros do que o valor total da recapitalização feita no banco público, que contou com 3.944 milhões de euros dos contribuintes. Só os 25 maiores devedores da CGD causaram perdas acumuladas de 1.310 milhões de euros.

São os números finais da auditoria da EY (antiga Ernst&Young) às operações de crédito da Caixa Geral de Depósitos entre 2000 e 2015. O relatório final foi entregue na sexta-feira aos deputados — supostamente uma versão truncada para proteger o sigilo bancário, ou seja o nome e o valor das dividas dos grandes devedores — mas os números sempre estiveram lá, no documento PDF que o parlamento disponibilizou (e depois apagou e substituiu) no seu site.

O Observador pegou no documento disponibilizado pelos serviços da Assembleia, eliminou as “caixas brancas” que foram usadas para ocultar números e nomes — em alguns casos toda a informação de quadros fundamentais para perceber o cenário de concessão de créditos — e coloca agora online uma versão “limpa”, sem cortes ou rasuras. Pode consultá-la aqui.

Se preferir, pode também ler na fotogaleria abaixo as 263 páginas do relatório final da Ernst&Young usando as setas.

As perdas potenciais da Caixa com 11 clientes

Se no relatório preliminar divulgado pela ex-deputada Joana Amaral Dias a 20 de janeiro já era possível ver quanto é que a Caixa tinha registado em empréstimos ruinosos a 46 clientes, na versão final “limpa” o quadro é ainda mais grave. É que a EY reservou para o relatório final a informação de quanto é que a CGD perdeu (e ainda se arrisca a perder) com uma multidão de devedores, e não só os grandes casos que até já saíram nas notícias.

No total, a exposição da Caixa a estes 196 clientes ascende a 4.926 milhões de euros, dos quais o banco dá já como potencialmente perdidos 1.760 milhões de euros, o custo de uma terceira travessia do Tejo (no eixo Chelas-Barreiro) incluindo componente ferroviária. Os quadros “limpos” permitem tirar outras conclusões. Deste total de perdas, 1.310 milhões de euros correspondem apenas a 25 dos 200 clientes com operações de crédito analisadas pela consultora. A auditoria final também permite saber com exatidão quanto é que a Caixa emprestou a estes 25 clientes: 2.676 milhões de euros em créditos iniciais, a maioria deles concedidos em três anos, entre 2006 e o final de 2008.

Alguns dos nomes são conhecidos e têm sido noticiados, mas não constam do relatório da auditoria final, rasurados ou não. Aparecem apenas como números C001 e seguintes. Neste caso, o Observador cruzou as imparidades registadas no documento final com as que tinham sido listadas na auditoria preliminar e analisou as notícias da época em que os créditos foram concedidos ou reestruturados. Foi desta forma que se chega à conclusão que o cliente C001 é a Artlant (La Seda), o C002 é a Investifino, o C003 é Joe Berardo ou o C004 é a Douro Litoral.

Até ao momento, o Observador conseguiu identificar 11 destes 25 clientes. Para cada um indicamos o crédito inicialmente concedido, as imparidades (ou seja, as perdas já reconhecidas pela Caixa em 2015) e  a exposição, ou seja o montante ainda em risco resultante dos empréstimos concedidos:

  1. Artlant (La Seda): 381 milhões de euros em duas operações de crédito, relacionadas com a construção de uma fábrica em Sines. Exposição de 351 milhões no final de 2015 a que correspondia uma imparidade (perda reconhecida) de 211 milhões de euros
  2. Joe Berardo: 350 milhões de euros para a aquisição de ações do BCP.
  3. Metalgest: 50 milhões para a holding de Joe Berardo, também para a aquisição de ações do BCP. No final de 2015, a exposição a estas duas operações do empresário madeirense ascendia a 321 milhões de euros, para uma imparidade registada de 152 milhões de euros.
  4. Manuel Fino/Investifino: 180 milhões para compra de ações no BCP. A Caixa tinha uma exposição de 138 milhões de euros no final de 2015 e imparidades de 133 milhões de euros.
  5. Finpro: 200 milhões de euros para várias aquisições em concessões e infraestruturas. O banco estava exposto em 114 milhões de euros, com uma perda então (2015) reconhecida de 40 milhões de euros. Esta sociedade foi entretanto declarada insolvente.
  6. Vale do Lobo: 194 milhões de euros para o financiamento da compra do resort e outros créditos. A exposição atingiu os 201 milhões de euros para uma perda registada de 81 milhões de euros.
  7. Autoestrada Douro Litoral: 152 milhões para um project finance de construção de uma autoestrada gerida pela Brisa. Este crédito foi vendido a fundos internacionais com um grande desconto. No final de 2015, era contabilizada uma exposição de 153 milhões de euros com imparidade de 123 milhões de euros
  8. Opway: 150 milhões de euros para a construtora que era controlada pelo Grupo Espírito Santo. Exposição de 90 milhões de euros e imparidades de 77 milhões de euros.
  9. Birchview: Empréstimo inicial de 35 milhões de euros para um projeto imobiliário a desenvolver em lotes na Quinta do Lago (nada a ver com a sociedade gestora). Para uma exposição de 89 milhões de euros no final de 2015 estava reconhecida uma imparidade de 27 milhões de euros.
  10. Júpiter: Financiamento original de 115 milhões de euros a uma sociedade inicialmente chamada Selenis que teve ligação ao grupo português Imatos Gil, com membros da família a desempenharem cargos na administração. O grupo ImatosGil afirmou em 2010 ter vendido a sua participação na Júpiter, sociedade que terá controlado uma participação na La Seda. A exposição no final de 2015 era de 89 milhões de euros, o mesmo valor da imparidade indicada. A sociedade foi liquidada em 2016.
  11. Always Special: Empréstimo de 55 milhões de euros a uma sociedade detida por acionistas do grupo Lena. De acordo com a ficha técnica do Jornal da Bairrada, a Always Special controla a Lena Comunicações e é detida por membros da família Barroca (Joaquim Barroca, vice-presidente do Grupo Lena, é acusado de ter corrompido José Sócrates). No final de 2015, a exposição da Caixa era de 44 milhões de euros para uma imparidade da mesma dimensão.

Em quase todos estes casos (com a exceção da Douro Litoral), a direção de risco da Caixa Geral deu um parecer condicionado à concessão do crédito inicial. Ou seja, indicou que o banco público deveria colocar condições adicionais à entidade que estava a aceder ao crédito, além das garantias que estavam (ou não) a ser dadas. Em todos os casos de parecer condicionado, as condições do parecer foram ignoradas, parcial ou totalmente, pelo órgão que aprovou, nomeadamente o Conselho Alargado de Crédito. A EY também indica que o órgão da Caixa que aprovou os créditos — apesar dos alertas e sinais vermelhos da direção de risco — não deu qualquer justificação para a aprovação.

O quadro abaixo é a primeira folha da listagem das 200 operações de crédito analisadas pela EY no âmbito da auditoria. Acrescentados a azul estão os nomes dos clientes já identificados pelo Observador. 

Pareceres negativos e condicionados do risco foram ignorados, na concessão e na renegociação

O documento da EY sinaliza 170 operações que estavam sujeitas a parecer da análise de risco — porque envolviam valores acima de 2,5 milhões de euros até 2005; e acima de 1,5 milhões de euros depois desse ano. Esta amostra foi recolhida nas operações da CGD, do banco Caixa BI (banco de investimento) e da sucursal de Espanha.

Mas foi na reestruturação e renegociação de créditos concedidos, e cujos clientes estavam já em dificuldades, que se verificaram os maiores prejuízos em operações aprovadas contra um parecer negativo da direção de risco. Numa amostra analisada de 130 operações reestruturadas, a auditoria encontrou 14 chumbos da direção de risco que resultaram em perdas de 499 milhões de euros. O caso de Berardo será um deles, como o Observador já noticiou.

Em 65 operações, o parecer foi favorável, mas com condições, sendo que terão sido aprovadas sem que todos esses requisitos fossem cumpridos. As perdas neste caso totalizaram 179 milhões de euros. Também neste caso houve pareceres positivos da área do risco que tiveram um resultado menos bom em nove operações: resultaram em perdas de 123 milhões de euros.

Uma das maiores fontes de prejuízos para a CGD nas operações analisadas foram os empréstimos concedidos para a compra de ações cotadas em bolsa, e que por regra, tinham como colateral apenas as ações. As 25 maiores operações desta natureza representaram uma exposição de 788 milhões de euros no final de 2015, a que correspondia uma perda reconhecida na mesa data de 526 milhões de euros, ou seja, 66% da amostra. Ou seja, por cada mil euros emprestados, perderam-se 660 euros, sobretudo por via desvalorização da cotação das ações dadas como garantia.

Ao contrário do que tem sido muitas vezes afirmado, não começaram na gestão liderada por Carlos Santos Ferreira. Segundo a auditoria, as concessões iniciais começaram em 2004 nos governos de Durão Barroso e Santana Lopes. Em 2004, CGD conheceu duas administrações — a liderada pela dupla António de Sousa e Mira Amaral e a dirigida por Vítor Martins. No entanto, e por ano de origem do crédito, as operações de maior dimensão ainda com impacto em 2015 tiveram origem no ano de 2007 — 567 milhões de euros. O último ano da gestão de Santos Ferreira e Armando Vara foi marcado pela guerra de poder no BCP em que a Caixa foi um dos grandes financiadores dos acionistas que apoiavam Paulo Teixeira Pinto, nomeadamente Joe Berardo e Manuel Fino.

Prejuízos milionários também nas participações financeiras da Caixa

Apesar de o principal foco desta auditoria estar nos devedores, a EY também passou a pente fino as participações financeiras da Caixa entre 2000 e 2015, bem como as decisões de negócios consideradas estratégicas. E o maior prejuízo registado pelo banco do Estado cruza estas duas componentes: uma participação financeira que resultou de uma decisão estratégica que foi imposta pelo acionista Estado.

O envolvimento da Caixa Geral de Depósitos no negócio Champalimaud conduziu à detenção de 8% do capital do BCP, porque o banco do Estado vendeu o Banco Pinto e Sotto Mayor e aceitou em pagamento ações do banco privado, em vez de dinheiro. Este investimento, que chegou a ser reforçado, desvalorizou 546 milhões de euros nos anos seguintes até a participação ser vendida totalmente no final de 2013. Deste negócio resultou ainda o controlo da Mundial Confiança, a seguradora do Grupo Champalimaud, e anos mais tarde, as seguradoras do BCP. Todas estas empresas foram integradas na Fidelidade que foi alienada em 2013, já nos anos da troika.

Entre as participações financeiras que correram mal voltamos a encontrar o grupo La Seda, promotor original da fábrica da Artlant em Sines. A Caixa entrou como acionista da empresa química de Barcelona em 2006 para garantir, concluiu a auditoria, que uma decisão de investimento vinha para Portugal, a unidade em Sines.

Entre as participações financeiras que correram mal voltamos a encontrar o grupo La Seda, promotor original da fábrica da Artlant em Sines. A Caixa entrou como acionista da empresa química de Barcelona em 2006 para garantir, concluiu a auditoria, que uma decisão de investimento vinha para Portugal, a unidade em Sines. Além de entrar no capital, acompanhada por grupos portugueses, a Caixa participou num empréstimo sindicado ao grupo La Seda. Segundo o relatório da EY, estas operações tiveram um resultado negativo de 131,4 milhões de euros.

Espanha surge aliás como uma das fontes importantes de perdas para o banco público. A operação espanhola apresentou ao longo dos anos analisados prejuízos acumulados de 583 milhões de euros. O Banco Caixa Geral sofreu uma forte reestruturação após a recapitalização de 2013 e depois de o último aumento de capital do Estado, já em 2016, a CGD teve mesmo de vender este negócio por imposição da Comissão Europeia, apesar de já apresentar resultados positivos.

A aposta “perdida” em Espanha. E como as filiais foram usadas para minimizar perdas

As perdas no mercado espanhol estão associadas a uma estratégia de concessão de crédito em projetos de maior dimensão de project-finance ou imobiliário, para ganhar escala, depois de o acionista Estado ter inviabilizado a compra do Banco Madrid ainda nos anos 1990. E as perdas só não terão sido maiores porque, sinalizam os auditores, em 2008, foram transferidos vários créditos em dificuldades do Banco Caixa Geral, o banco espanhol da Caixa, para a sucursal espanhola da CGD. Estes créditos totalizaram 2,6 mil milhões de euros.

As perdas no mercado espanhol estão associadas a uma estratégia de concessão de crédito em projetos de maior dimensão de project-finance ou imobiliário, para ganhar escala, depois de o acionista Estado ter inviabilizado a compra do Banco Madrid ainda nos anos 1990. E as perdas só não terão sido maiores porque, sinalizam os auditores, em 2008, foram transferidos vários créditos em dificuldades do Banco Caixa Geral, o banco espanhol da Caixa, para a sucursal espanhola da CGD. Estes créditos totalizaram 2,6 mil milhões de euros.

Aliás, também a sucursal francesa enviou créditos problemáticos para a filial espanhola da CGD com o objetivo, dizem os auditores da EY, de minimizar as perdas a nível do grupo CGD e evitar a constituição de imparidades em França por onde passaram importantes operações, nomeadamente de emissão de dívida do grupo bancário. Por outro lado, a sucursal francesa também recebeu empréstimo de outras sucursais, como Cayman (operação extinta recentemente pela CGD), com o intuito de limitar o impacto de algumas operações — a auditoria refere o financiamento de 503 milhões de euros ao Grupo José de Mello.

Outro caso analisado no capítulo do imobiliário, decisões estratégica, é o da Wolfpart, a sociedade criada para deter vários ativos do setor, entre os quais a participação de 25% na sociedade gestora do empreendimento de luxo Vale do Lobo. Entre 2000 e 2015, este investimento gerou perdas de 228 milhões de euros que resultam não só da participação financeira, mas também dos suprimentos (empréstimos) concedidos pela Caixa enquanto acionista. O relatório da EY assinala esta operação como apresentado “riscos elevados”, para o qual contribui também a circunstância de a CGD ser um credor subordinado, porque acionista, e com menos diretos que outros credores.

Paulo Macedo volta ao Parlamento esta quinta-feira. Menos de uma semana depois de, na sexta-feira passada, ter enfrentado um dia intenso: foi ao Parlamento entregar, em mãos e com direito a declarações, o relatório final da auditoria à gestão da Caixa Geral de Depósitos, e apresentou os primeiros lucros expressivos da Caixa em sete anos.

Na agenda da audição na comissão de Orçamento e Finanças, a realizar ao final da tarde após o plenário, está outra vez a auditoria independente à CGD, mas também um requerimento do Bloco de Esquerda para ouvir Paulo Macedo sobre as comissões bancárias. Os deputados já ouviram o ministro das Finanças sobre o tema, mas desta vez vão poder colocar perguntas concretas ao presidente da Caixa com base no conhecimento do relatório final, ainda que numa versão supostamente “expurgada” da informação que viole o segredo bancário.

Ainda que, e tal como o Observador noticiou na sexta-feira, a versão eletrónica do relatório final da auditoria à Caixa entregue na sexta-feira no Parlamento, permita espreitar números e nomes “apagados”. Este documento chegou a ser colocado no site do Parlamento durante alguns minutos, mas depois foi substituído por uma versão digitalizada do documento em papel que já não permite consultas sobre a informação escondida. Mas para quem descarregou a primeira versão, é possível ter acesso a mais.

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