Que Jardel e Fejsa estavam lesionados, já se sabia. Que Grimaldo, Pizzi (que cumpria uma série de 35 encontros consecutivos nas provas europeias) e Jonas tinham ficado em Lisboa, também já se sabia. Que poderiam existir algumas alterações no onze inicial, era mais ou menos provável que acontecesse. Ainda assim, Bruno Lage foi mais longe. Por necessidades óbvias de calendário (que ganharam outras “prioridades” nas últimas duas jornadas, em que os encarnados recuperaram quatro pontos ao FC Porto), por uma questão de statement: para inverter uma velha história com barbas, nada como lançar sangue novo de miúdos que ainda há pouco não tinham barba. Mais uma vez, ganhou a aposta. E, em certos momentos, pareceu demasiado fácil.

Bruno Lage assumiu o risco e lançou uma equipa nova pelas alas e pelo corredor central intermédio, mantendo apenas o guarda-redes (Vlachodimos), os centrais (Rúben Dias e Ferro) e os avançados (João Félix e Seferovic) e lançando novidades nas laterais (Corchia e Yuri Ribeiro), no meio-campo (Florentino Luís e Gedson Fernandes) e nas alas (Salvio e Cervi). Começando pelas estreias europeias, foram três – Ferro, Yuri Ribeiro e Florentino Luís; avançando para os jogadores formados no clube, voltaram a ser de início uma maioria, algo que não acontecia há anos (Rúben Dias, Ferro, Yuri Ribeiro, Florentino Luís, Gedson Fernandes e João Félix). Daqui nasceu o reforço de um statement que o Benfica quer fazer chegar também à Europa; daqui nasceu também parte das razões que explicaram a primeira vitória de sempre em solo turco, após quatro empates e três derrotas.

Apesar das alterações, o Benfica não perdeu qualidade. Foi superior em quase tudo ao Galatasaray. E ganhou uma opção que chegou para ficar: Florentino Luís. O jovem médio campeão europeu Sub-19 no último verão foi o melhor em campo, ao tomar conta do meio-campo para si fazendo algumas vezes lembrar (com as devidas distâncias, entenda-se) Manuel Fernandes quando dava os primeiros passos nos encarnados, com Camacho e Trapattoni. Do individual para o coletivo, Lage, que bateu outro registo histórico, teve o mérito de fazer aquilo que é mais complicado para um treinador – mexer em mais de meia equipa sem com isso se sentir problemas de entrosamento ou rotinas. Com isso, ganhou este jogo e começou já a ganhar o próximo.

Ficha de jogo

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Galatasaray-Benfica, 1-2

1.ª mão dos 16 avos de final da Liga Europa

Ali Sami Yen Spor Kompleksi, em Istambul

Árbitro: Jesús Gil Manzano (Espanha)

Galatasaray: Muslera; Linnes (Mariano, 73′), Luyindama, Marcão, Nagatomo; Ndiaye (Gümüs, 73′), Fernando, Belhanda; Onyekuru, Feghouli e Digne

Suplentes não utilizados: Cipe, Calik, Inan, Donk e Akgun

Treinador: Fatih Terim

Benfica: Vlachodimos; Corchia, Rúben Dias, Ferro, Yuri; Florentino, Gedson Fernandes (Samaris, 87′); Salvio (Gabriel, 48′), Cervi (Krovinovic, 81′); João Félix e Seferovic

Suplentes não utilizados: Svilar, André Almeida, Zivkovic e Jota

Treinador: Bruno Lage

Golos: Salvio (27′, g.p.), Luyindama (54′) e Seferovic (64′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Fernando (40′), Gedson Fernandes (41′), Ndiaye (50′), Gabriel (53′), Nagatomo (70′) e João Félix (90+4′)

 

Depois daqueles primeiros minutos muito típicos nos estádios da Turquia onde as equipas estão mais a desfrutar do ambiente infernal do que propriamente a perceber o que se vai passando em campo, o Benfica foi assumindo o encontro. Ou melhor, foi como quis, quando quis e onde quis, variando zonas de pressão entre posicionamentos mais altos que condicionavam a saída do Galatasaray e linhas mais baixas que tiravam a profundidade às unidades mais ofensivas do adversário. Faltava ainda assim a profundidade habitual e os movimentos diagonais que têm feito mossa no ataque, “disfarçados” por dois remates mais fracos de João Félix (12′, à figura de Muslera) e Cervi (13′, cruzado e na área mas ao lado da baliza turca).

O Galatasaray, ocupando o segundo lugar do Campeonato da Turquia à frente do Besiktas e do Fenerbahçe (que luta para não descer de divisão), é também um exemplo da visível queda qualitativa das equipas de Istambul. Se recuarmos uns anos, e não é preciso serem muitos, uma eliminatória com qualquer destes conjuntos com a primeira mão fora era vista como um desafio de aguentar ao máximo para depois tentar discutir o resultado em casa; agora, percebe-se que as coisas mudaram. Até no estilo da equipa de Fatih Terim, que aposta na velocidade e explosão dos avançados para criar perigo em transições – quando tem de jogar organizado com o adversário, é um problema. Depois, no meio das luas encarnadas, lá havia um eclipse que permitia algo mais aos turcos, como aquele que deu a possibilidade a Onyekuru de atirar a rasar o poste de Vlachodimos (20′).

Marcão, antigo central do Desp. Chaves, acabou por dar o empurrão que faltava para o Benfica assumir o comando também do marcador: num lance muito protestado pelos turcos (na Liga Europa não há VAR, ficando a dúvida sobre se o corte foi com o peito ou só com o braço – e se em algumas repetições parece que sim, noutras nem por isso), o espanhol Jesús Gil Manzano assinalou grande penalidade por corte com o braço e Salvio, que tinha falhado no Jamor frente ao Belenenses o único penálti desde que chegou à Luz, voltou a assumir a cobrança com sucesso, inaugurando o marcador aos 27′. Foi o terceiro golo na Europa, o quinto da temporada e com outro pormenor: o argentino, que até começou com algumas perdas de bola no arranque da partida, tornou-se o terceiro estrangeiro com mais golos em provas da UEFA pelo Benfica, atrás de Cardozo e Isaías.

A cerca de dez minutos do intervalo, quando Fernando (médio ex-FC Porto que tantos anos depois parece continuar a viver os jogos frente ao Benfica como se fossem um clássico) rematou para defesa segura de Vlachodimos, Florentino Luís era o único jogador que ainda não tinha falhado qualquer passe e Gedson Fernandes tinha mais desarmes sozinho do que toda a equipa turca. Ora, tendo em conta que grande parte dos jogos se decidem no centro do terreno… era só fazer as contas. E foi com o Benfica em vantagem que se chegou ao intervalo, sem que o Galatasaray mostrasse muito para inverter essa tendência.

No reatamento, o Benfica teve os dez piores minutos na partida. E por diferentes razões: primeiro perdeu Salvio por lesão, com o argentino a ser na altura da substituição o jogador com mais recuperações e intercepções (48′); depois, sofreu o golo do empate num lance atípico em que Luyindama, central que tinha ido à área contrária para uma bola parada, deixou-se ficar por ali e deu o melhor seguimento de cabeça a um cruzamento da esquerda, saltando mais alto do que Yuri Ribeiro que, tal como Vlachodimos explicou por gestos, acabou por “encolher-se” perante o poderio físico do congolês de 25 anos.

O Galatasaray ganhou uma nova alma, voltou a ser empurrado de forma mais estridente por um estádio cheio que acreditava na reviravolta mas acabou por dar um passo maior do que a perna esquecendo-se de tudo aquilo que tinha feito, ou não, até esse momento. E foi aproveitando esse deslumbramento que o Benfica, sempre mais rematador do que os turcos no decorrer da segunda parte, voltou à vantagem no marcador, com Seferovic a ser mais forte do que Marcão após um passe longo de Rúben Dias para ficar enquadrado com a baliza e rematar em jeito sem hipóteses para Muslera (64′).

Se João Félix não estava nos dias mais inspirados, Seferovic aproveitou a primeira grande oportunidade para revelar de novo a veia goleadora desde que Bruno Lage assumiu o comando, com uma média de um golo por jogo em dez partidas oficiais com o novo técnico. Se Gedson Fernandes, que entretanto caíra mais no lado direito após a saída de Salvio, já começava a perder algum gás, Florentino Luís continuava a ser um monstro no corredor central com mais recuperações (sete), desarmes (seis) e interceções (cinco) do que qualquer outro jogador dos encarnados. Assim de faz uma equipa que pode mexer as peças mas mantém a mesma ideia e filosofia de jogo – com o sucesso que está à vista. E só mesmo de bola parada o Galatasaray voltou a aproximar-se com perigo mas o cabeceamento de Luyindama foi travado com uma enorme intervenção por Vlachodimos (85′).