Quando o nosso editor nos pediu que fôssemos fazer o concerto dos Massive Attack por termos, citamos, “idade para isto”, esta crónica começou a escrever-se sozinha. Ainda não ter sequer chegado aos 40 e já ir ouvindo destas diz-nos três coisas:

1. Que a vida passa depressa;

2. Cada vez mais depressa;

3. Que o nosso editor vai pagá-las porque, no fundo, a culpa não é nossa, é antes mérito das grandes obras que atravessam 20 e mais anos sem dificuldade porque, na verdade, não pertencem a tempo algum na medida em que se dirigem ao eterno.

Bom, e esperando que este grande eufemismo tenha coberto todos os nossos cabelos brancos, falemos de “MezzanineXX1”, digressão dos Massive que celebra os 21 anos de Mezzanine.

Sim, recuemos a 1998, ano de grande colheita para a pop; de Moon Safari, dos Air; de Mutations, de Beck; de Deserter’s Song, dos Mercury Rev, e também de The Miseducation de Lauryn Hill, You’ve Come a Long Way, Baby, de Fatboy Slim, This is Hardcore, dos Pulp. Qualquer um continua soar tão bem em 2019 como então porque, na verdade, neles a energia do fim do século era já a força criativa do brotar do novo. Porque, como sabemos, o entusiasmo com estas coisas só existe antes de elas acontecerem – olhem para o primeiro de Janeiro. Quem é que está a festejar o ano novo no primeiro ou no segundo de janeiro? O novo só é incrível quando está à beirinha de começar. É assim com os anos e é ainda pior com os séculos. E a verdade é que pouca gente interpretou tão bem a mudança de linguagem para o século XXI como a banda de Robert Del Naja e Grant Marshall.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“MezzanineXX1” não é, sob qualquer forma, um espectáculo revivalista; é quanto muito a ligeira atualização de uma profecia. É a eletrónica, o trip hop, a música para depois da morte do rock, mas ainda cheia de guitarras, a lógica de colagem e pastiche que tão bem anteciparia a internet 2.0, o clamor iconoclasta desmontando imagens e mensagens, da política à publicidade, para nos tentar colocar de novo, debaixo do ruído, perante as perguntas essenciais.

Que tudo isto esteja marcado para as 20h30 de uma segunda-feira, é horário a que, porventura, o lisboeta não estará habituado, talvez por isso tarde em chegar, com o concerto a começar realmente já perto das 21, ainda com os sectores da bancada mais próximos do palco (e, portanto, com pior ângulo de visão) quase completamente vazios. Que aconteça numa praça de touros, com gente na arena em vez de gado bravo propriamente dito, é pormenor que, depois de estranhado, faz sorrir.

O que se segue é pouco mais de hora e meia daquilo que Naja (o mais forte candidato a identidade secreta de Banksy – e não é que inaugura, hoje mesmo, uma exposição de Banksy no Porto?) chamava ontem, em entrevista ao Público, “ópera destes tempos de incerteza”. São os temas de Mezzanine relidos e reinterpretados, intercalados por versões das bandas e músicos que o inspiraram, aqui assumidos sem cerimónia. De resto, como de costume, não há diálogo propriamente dito com o público, nenhuma palavra diretamente trocada, nenhuma proximidade física entre músicos e multidão, espontaneidade alguma; antes, todo o tempo, o diálogo preparado, criteriosamente pensado do lado de lá para produzir uma reação do público no lado de cá, sempre mais do que musical, visual, torrencial, reflexivo, provocador.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O público, solene, respeitador, adulto – todo ele, à vista desarmada, já adulto ou perto disso em 98 – escuta bem-comportado, quase sem um movimento de dança. Aplaude efusivamente os temas de “Mezzanine” (que são todos tocados, embora não pela ordem que têm no álbum), mas parece não reconhecer as versões. Começamos com uma intro a testar a potencial epilepsia da plateia e logo aterramos, inesperadamente, numa suave “I Found a Reason”, dos Velvet Underground. Seguimos para “Risingson” e vamos aos Cure, para “10:15 Saturday Night”. “Man Next Door”, com a presença de Horace Andy, arranca a primeira ovação e lança a fase mais quente da noite, que se prolonga por “Black Milk”, com Elizabeth Fraser, e “Mezzanine”, que desperta uma reação pronta ao primeiro acorde das teclas. “Bela Lugosi’s Dead”, dos Bauhaus, e “Exchange” passam ao lado e funcionam como interlúdio para idas ao bar e à casa de banho.

O regresso faz-se de novo com Andy e “See a Man’s Face”, “Dissolved Girl”, um dos momentos mais poderosos do concerto, mesmo sem voz visível, “Where Have All the Flowers Gone?”, de novo com Fraser, e “Inertia Creeps”. “Rockwrok”, dos Ultravox, é a cover que melhor recebida pela sala, provavelmente por causa da faceta mais interpelante do vídeo que a acompanha. E nisto, sem que a plateia se desse bem conta, estávamos já a caminho do fim, com “Angel” e “Teardrop” a arrancarem os momentos de maior comoção e uma breve incursão por “Levels”, de Avicii, a deixar o povo entre a confusão e o choque e assim, porventura, a não se preparar para receber uma magnífica “Group Four” como o final lógico para uma noite que, para os Massive Attack, era tudo menos sentimental.

Aqui, a missão era apresentar “MezzanineXX1” tão ou mais pertinente que no primeiro dia, e essa estava plenamente conseguida. Em boa parte também devido ao ensaio visual de Adam Curtis que acompanha, complementa e, às vezes, quase comanda o espectáculo, que nos dá Saddam Hussein entre as crianças, Bin Laden na imagem de sempre, Tony Blair tocando guitarra, jogos de computador simulando o 11 de Setembro, morphings de Christine Lagarde em Trump e de Trump em Putin, Britney Spears à procura do cartão de memória da câmara fotográfica, Kurt Cobain a arrancar o aplauso do povo, e múltiplas mensagens, quantas vezes em português, terminando pedindo-nos que deixemos de vez os fantasmas para trás e comecemos a construir o futuro.

No Campo Pequeno, o público não gostou de não haver encore. De serem 22h30 e já não haver concerto. Quanto ao futuro, continua já hoje, com a segunda dose, à mesma hora e no mesmo sítio.

Alexandre Borges é escritor e guionista. Assinou os documentários “A Arte no Tempo da Sida” e “O Capitão Desconhecido”. É autor do romance “Todas as Viúvas de Lisboa” (Quetzal).