Literatura

Dois dias para celebrar António Botto e Fernando Pessoa, amigos e poetas

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A 15 e 16 de março, vai realizar-se em Lisboa um colóquio dedicado às obras de Botto e Pessoa e às ligações existentes entre ambas. Fernando Cabral Martins e Anna Klobucka são dois dos oradores.

António Botto no final dos anos 40, pouco antes de ter emigrado para o Brasil, onde acabou por morrer

No final da próxima semana, Lisboa vai receber o colóquio internacional “António Botto & Fernando Pessoa: Poéticas em Diálogo”, que tem por objetivo “múltiplas conexões literárias entre as escritas bottiana e pessoana”. A iniciativa, organizada por Margarida Almeida Bastos e Nuno Ribeiro, surge no âmbito dos 60 anos da morte de António Botto, que morreu a 16 de março de 1959. No site de “António Botto & Fernando Pessoa”, o primeiro evento do género que se realiza em Portugal, é explicado:

“Com efeito, ao longo das obras de Botto e de Pessoa encontramos inúmeras referências explícitas e implícitas que nos permitem constatar o diálogo entre esses dois poetas e pensadores. No caso de Fernando Pessoa encontramos uma série de testemunhos – textos críticos, prefácios, posfácios e traduções – que evidenciam o interesse deste autor pelas diferentes facetas da produção bottiana. Por outro lado, encontramos também na obra poética e em prosa de Botto referências crítico-literárias à obra pessoana. Tendo por base todas estas evidências, o presente colóquio pretende constituir-se como o palco de debate em torno das conexões entre António Botto e Fernando Pessoa”.

Pessoa, que terá conhecido Botto por volta dos anos 20, acompanhou sempre de muito perto, e até à sua morte, o percurso literário do poeta nascido em Abrantes. António Botto foi, aliás, o escritor português sobre o qual o autor de Mensagem mais escreveu, reconhecendo-lhe desde cedo um talento que os seus contemporâneos, por causa da sua assumida homossexualidade, sempre tiveram dificuldades em aceitar. Fernando Pessoa chegou inclusivamente a envolver-se na polémica da chamada “Literatura de Sodoma”, que estalou no início de 1923 quando a Liga de Ação de Estudantes de Lisboa decidiu levar a cabo uma ação moralizadora contra os “livros torpes” que enchiam as livrarias da capital, entre os quais se contava as Canções de Botto.

O colóquio vai arrancar na sexta-feira, 15 de março, na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), continuando no dia seguinte, sábado, no Palácio Pimenta, no Campo Grande. A palestra de encerramento, “Pessoa leitor de Botto”, marcada para as 12h, estará a cargo da investigadora Anna Klobucka, autora do estudo O Mundo Gay de António Botto, publicado no ano passado pela Documenta. O livro, um ensaio com “pistas e sugestões” sobre “o escritor e criador único à escala nacional e europeia que foi António Botto”, foi considerado um dos melhores de 2018 pelo Observador.

No dia 16 de março, da parte da tarde, será exibido no Auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian o documentário “À Procura de António Botto”, realizado por Cristina Ferreira Gomes. A realizadora estará presente na apresentação, às 14h, assim como a autora Margarida Almeida Bastos. A entrada no evento é livro e não é necessário inscrição prévia.

Foi a 16 de março de 1959 que, uma semana depois de ter sido atropelado por um carro do governo brasileiro enquanto atravessava a Avenida Nossa Senhora da Copacabana, no Rio de Janeiro, que António Botto morreu, no Hospital Miguel Couto. O poeta vivia no Brasil, para onde tinha decidido emigrar por causa da insatisfação que sentia em relação ao meio cultural português, desde o final da década de 1940. Botto, nascido a 17 de agosto de 1897, tinha 61 anos.

Artigo atualizado às 10h33 de 6/3 com informação relativa à entrada no colóquio

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