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“O triunfo espiritual das suas Canções sobre a mentira moral dos preconceitos atingiu a eternidade.”
— Citação atribuída a Guerra Junqueiro

Há muito que António Botto passou para segundo plano na história da literatura portuguesa. Outrora um dos mais famosos poetas da primeira metade do século XX, ainda que nem sempre pelas melhores razões, a sua morte prematura e inesperada atirou-o para o esquecimento. Hoje, Botto não passa de uma nota de rodapé nos livros de literatura, surgindo geralmente associado a Fernando Pessoa, de quem era amigo pessoal. O poeta nascido em Abrantes foi, aliás, o escritor português sobre o qual Pessoa mais escreveu. Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, o autor de Mensagem foi capaz de reconhecer, desde o início, o valor literário e estético de Botto. E defendeu-o, com unhas e dentes, envolvendo-se até aos cabelos na polémica da chamada “Literatura de Sodoma”, que estalou no início de 1923 quando a Liga de Ação de Estudantes de Lisboa decidiu levar a cabo uma ação moralizadora contra os “livros torpes” que enchiam as livrarias da capital, entre os quais se contava Canções de António Botto. Mesmo depois disso, Fernando Pessoa continuou a escrever sobre o poeta, contribuindo para o reconhecimento da sua obra. Esse importante trabalho de divulgação duraria até ao final da sua vida.

Autor inovador, com uma abordagem literária única e uma coragem sem precedentes, Botto foi o primeiro português a assumir publicamente a sua homossexualidade e o primeiro escritor a fazê-lo sem véus, sem mensagens codificadas, num país ainda agarrado a todo o tipo de preconceitos. Isso por si só devia garantir-lhe um lugar de destaque na literatura portuguesa, europeia e talvez até mundial — o que António Botto fez na década de 1920 ainda ninguém tinha feito, mas o reconhecimento parece tardar em chegar. Foi por isso que Anna Klobucka, investigadora e professora no Departamento de Português da Universidade de Massachusetts Dartmouth, decidiu escrever um ensaio que oferecesse “pistas e sugestões” sobre “o escritor e criador cultural único à escala nacional, europeia e global que foi António Botto”. O trabalho, iniciado há 11 anos, saiu em livro no final do mês de maio, pela editora Sistema Solar. Chama-se O Mundo Gay de António Botto e a investigadora polaca admite que não é perfeito ou definitivo — é apenas um passo na direção de um melhor entendimento da obra e do homem por detrás dela.

Anna Klobucka descobriu António Botto como muitos outros leitores, “ao estudar Fernando Pessoa e o modernismo português”. “Botto fazia sempre parte daquele panorama, daquele horizonte mais alargado”, mas quando Klobucka se deparava com o nome do poeta era “sempre através de Pessoa, sempre por causa do Pessoa”. Até porque “foi o autor português vivo sobre o qual Fernando Pessoa mais se debruçou, mais escreveu, por quem mais se interessou. Há testemunhos, textos publicados. Projetos que não chegaram a ser realizados. Isso sempre esteve claro para mim”, afirmou a investigadora, que falou com o Observador por altura da sua passagem por Lisboa para o lançamento de O Mundo Gay de António Botto, na Casa Fernando Pessoa, em junho passado. Já o trabalho de investigação que deu origem ao ensaio — o primeiro a fazer um apanhado da crítica à obra bottiana e a divulgar alguns dos textos inéditos que fazem parte do espólio do poeta — surgiu “um pouco por acaso”, no final de um outro projeto, há 11 anos.

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