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O Bolton, que há dez anos andava pelas competições europeias, está à beira do precipício

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Penúltimo na Segunda Liga, sem dinheiro para comida e bebida no centro de treinos e sem segurança para poder jogar. O Bolton, que há dez anos andava pela Taça UEFA, está num beco sem saída.

Bolton está no penúltimo lugar do Championship, à beira da despromoção para o terceiro escalão inglês

Getty Images

Entre 2004 e 2007, o Bolton Wanderers terminou a temporada no oitavo lugar da Premier League em duas ocasiões, uma em sétimo e ainda outra em sexto, o melhor resultado de sempre do clube no principal escalão do futebol inglês. Pelo meio, a equipa de Manchester ainda chegou a uma final da Taça da Liga (onde perdeu com o Middlesbrough) e somou duas presenças na Taça UEFA, chegando aos oitavos de final em 2007/08 – onde caiu frente ao Sporting de Paulo Bento graças a um golo de Bruno Pereirinha em Alvalade. Enquanto elemento comum a essas quatro épocas, encontrava-se Sam Allardyce, o treinador que tinha jogado nos trotters ainda enquanto júnior e que passou oito anos no comando técnico do Bolton. Saiu em 2007, alegando uma licença sabática que depois se descobriu ser um contrato já assinado com o Newcastle: e o período negro do Bolton começou.

Allardyce, que entretanto foi selecionador nacional inglês e em maio do ano passado foi substituído por Marco Silva no Everton, é ainda hoje apontado como o pai de um quase período galáctico do Bolton. Afinal, as quatro temporadas entre 2004 e 2007 foram mesmo o espaço temporal mais bem sucedido da história do clube e os jogadores que Sam Allardyce conseguiu trazer para o modesto Reebok Stadium estavam bem acima das expectativas dos adeptos. Para além do português Ricardo Vaz Tê, o plantel do Bolton que foi a sensação da Premier League durante quatro anos – e que alcançou uma estabilidade de classificações que só Chelsea, Manchester United, Arsenal e Liverpool haviam conseguido – incluía Fernando Hierro, que acabou por terminar a carreira no clube, o nigeriano Jay-Jay Okocha, o ex-Real Madrid Iván Campo, Hidetoshi Nakata, considerado o melhor jogador japonês de sempre, os franceses Youri Djorkaeff e Nicolas Anelka e até Mário Jardel, que chegou a Inglaterra um ano depois de ser campeão com o Sporting e conquistar a Bota de Ouro mas nunca conseguiu afirmar-se.

Sam Allardyce com Nicolas Anelka, que marcou 23 golos em apenas temporada e meia no Bolton e saiu depois para o Chelsea de Avram Grant

A saída de Sam Allardyce para o Newcastle desnorteou o Bolton e retirou o farol a uma equipa que jogava, agia e atuava à imagem e semelhança do treinador. O clube sobreviveu à descida nos anos que se seguiram, terminando a temporada sempre na segunda metade da tabela, bateu o recorde de transferências com a chegada do sueco Johan Elmander (que custou mais de oito milhões de libras), mas acabou por cair para o Championship em 2012, no último dia da época. Desde esse ano, o clube não voltou a conseguir a promoção à Premier League e caiu mesmo para o terceiro escalão em 2016 – algo que não acontecia desde 1993 –, ainda que tenha subido logo na temporada seguinte. Aos fracassos desportivos depressa se aliaram os institucionais e financeiros, com o Bolton a chegar a dezembro de 2015 com mais de 170 milhões de libras em dívidas – acumuladas devido a gestões irregulares, falta de pagamento a fornecedores e o fim das receitas do naming do estádio, primeiro com a Reebok e depois com a Macron. Os pedidos de liquidação sucederam-se e o clube só escapou a ficar nas mãos de um administrador apontado pela justiça porque Edwin Davis, antigo presidente do Bolton e um dos homens mais ricos de Reino Unido, emprestou cinco milhões de euros para saldar uma das principais dívidas quatro dias antes de morrer.

Esta semana, numa altura em que o dono e presidente Ken Anderson garante que está a negociar com vários consórcios interessados na aquisição do Bolton, a precária situação financeira tornou-se dramática. Depois de ser tornado público que o clube falhou o pagamento dos salários relativos ao mês de fevereiro, o Telegraph revelou que o centro de treinos esteve fechado esta segunda-feira devido à falta de dinheiro para comprar comida e bebida para os jogadores. As más notícias prolongaram-se até terça-feira, quando o Bolton Safety Advisory Group, o grupo de entidades que regula e organiza a segurança da cidade, anunciou que o jogo do próximo sábado com o Millwall está em risco porque “não estão reunidas as condições legais para certificar a segurança do recinto”: o staff que normalmente trabalha em dia de jogo, incluindo os stewards que controlam as bancadas, estão a ponderar não aparecer no sábado em protesto com a falta de pagamento. O Bolton tem então até ao final desta quarta-feira para garantir que terá os requisitos exigidos para a realização do jogo – caso não o faça, o encontro será cancelado, o clube será multado e perderá pontos, complicando ainda mais a já difícil situação no Championship (está em penúltimo, a sete pontos da primeira equipa acima da linha de água).

Os pedidos de demissão de Ken Anderson têm-se sucedido e no jogo contra o West Bromwich Albion os adeptos chegaram mesmo a atirar bolas de ténis para dentro do relvado

O Bolton vai regressar a tribunal no dia 20 de março, para responder a um novo pedido de liquidação, e o presidente Ken Anderson emitiu esta quarta-feira um comunicado onde não comenta o encerramento do centro do treinos, não fala sobre o jogo com o Millwall e centra atenções naquilo a que chama “mal entendidos” divulgados pela comunicação social. Anderson, que tem concentrado forças num diferendo com o presidente do Forest Green Rovers, é contestado pelos adeptos e tem motivado inúmeros protestos a exigir a sua demissão, garante que o dinheiro para pagar os salários de janeiro saiu do próprio bolso e que o mesmo acontecerá com o mês de fevereiro. “É difícil aceitar pôr mais um milhão num clube que não me quer lá e que, pior ainda, torna perigoso o ato de eu me deslocar às instalações. (…) Ainda assim, decidi continuar a suportar financeiramente o clube até alguém aparecer”, afirmou o presidente do Bolton.

“Um número de manchetes sensacionalistas nos últimos dias estão factualmente incorretas na maioria dos casos. Suponho que ajude a vender jornais e mantenha os holofotes sobre os jornalistas. No que diz respeito às cartas que me chegam, não tenho qualquer problema com elas, já que compreendo perfeitamente os sentimentos expressados. Mesmo que alguns dos comentários não estejam corretos, interpreto-os como uma forma de expressão daquilo que é lido ou ouvido. Assim sendo, acredito que a comunicação social e as redes sociais desempenham uma grande papel em influenciar e promover os protestos mais recentes — tudo isso, em conjunto com ameaças vis e abusivas em relação a mim e a à minha família, levou a polícia a aconselhar-me de que pode não ser seguro para mim e para a minha família assistir aos jogos”, acrescentou Ken Anderson no comunicado, onde dedica longos parágrafos à crítica à comunicação social inglesa.

O Bolton, que há menos de dez anos chegava aos oitavos de final da Taça UEFA e estava confortavelmente nos primeiros dez classificados da Premier League, corre o sério risco de voltar a cair para o terceiro escalão do futebol inglês, vê-se a braços com dívidas monstruosas que provocam o encerramento do centro de treinos e ainda pode perder um jogo devido à ausência de segurança. Tudo isto, contudo, são medidas singelas e pouco relevantes se se confirmar aquilo que se vai tentando, a todo o custo, evitar: a liquidação do Bolton e a atribuição da gestão do clube a um administrador nomeado pelos tribunais ingleses.

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