O polémico referendo à independência da Catalunha foi já no dia 1 de outubro de 2017. Quase um ano e meio depois, Carles Puigdemont permanece em Bruxelas, vários políticos catalães continuam presos e o assunto faz ainda manchetes na imprensa espanhola de forma regular. No pré-referendo e no período conturbado que se sucedeu, a eventual independência da região motivou várias antecipações daquilo que aconteceria no panorama político, no panorama social, económico e ainda desportivo. Além do Barcelona, muito se falou sobre o que aconteceria à seleção espanhola, que perderia vários jogadores habitualmente titulares para a seleção catalã. A independência da Catalunha permanece congelada; mas, pelo menos no prisma desportivo, o assunto está longe de se tornar monótono.

A seleção de futebol da Catalunha existe desde 1904. Ainda assim, não é reconhecida nem pela FIFA nem pela UEFA, não podendo, por isso mesmo, participar nos Campeonatos do Mundo ou da Europa. Desde a fundação, a Catalunha jogou mais de 200 encontros particulares com outras seleções, nacionais ou regionais, ou até com clubes, e as partidas tornaram-se mais frequentes desde 1997. Como a seleção não integra qualquer organismo de regulação do futebol europeu e mundial, os critérios de elegibilidade consoante o local de nascimento não se aplicam à Catalunha e a equipa adquiriu o hábito, ao longo dos anos, de convocar jogadores ditos convidados, na sua maioria do Barcelona ou do Espanyol. Exemplos disso mesmo são Iniesta, Stoichkov, Neeskens e até Cruyff, que foi também selecionador da Catalunha entre 2009 e 2013.

Piqué, Busquets e Xavi são frequentemente convocados para a seleção da Catalunha

O não reconhecimento da seleção catalã por parte da FIFA ou da UEFA indicava ainda que a Catalunha dificilmente jogaria nas janelas previstas durante a temporada para os compromissos internacionais das seleções: já que praticamente todos os jogadores, ou pelo menos os mais relevantes, estariam ao serviço da seleção espanhola. Desta vez, porém, a seleção catalã decidiu marcar um jogo particular para a próxima segunda-feira, dia em que se realizam partidas da qualificação para o Euro 2020. O encontro, que será no Estadi Montilivi, em Girona, contra a seleção da Venezuela, está desde logo envolto em polémica: mas o enredo engrossou ainda mais nos últimos dias.

Gerard Piqué, central do Barcelona que foi campeão europeu e mundial ao serviço da seleção espanhola, anunciou após o Mundial da Rússia que não voltaria a vestir a camisola da La Roja. Ainda assim, o jogador de 32 anos aceitou a convocatória da Catalunha e vai estar presente no encontro contra a Venezuela, assim como Marc Bartra (Betis), Aleix Vidal (Sevilha), Bojan Krkic (Stoke City) e ainda Xavi, o médio ex-Barcelona que representa agora o Al-Sadd do Qatar. A convocatória, contudo, não foi fácil de fechar. Gerard López, o selecionador catalão que treinou a equipa B do Barcelona até 2018, explicou esta quarta-feira que três clubes recusaram a ida de jogadores à seleção — ainda que tenham alegado motivos desportivos.

O central Marc Bartra ao serviço da seleção catalã, durante um particular com Cabo Verde, em 2013

A conferência de imprensa de Gerard López começou mesmo depois da hora marcada, já que a equipa técnica ainda estava à espera de receber as últimas confirmações por parte dos clubes. Esta terça-feira, o Valladolid adiantou-se e anunciou que Masip e Alcáraz não compareceriam à convocatória para permanecer com o grupo, sublinhando a fase crucial da temporada em que o clube se encontra; decisão reiterada pelo Huesca, que minutos antes da conferência de imprensa de López tornou oficial que Enric Gallego e Gallar não jogariam pela seleção, assim como o Rayo Vallecano. A lista do selecionador catalão fica então reduzida a 20 jogadores e a equipa técnica vai ainda deliberar para preencher os lugares vagos.

A partida desta segunda-feira entre Catalunha e Venezuela vai estar sob os olhos do mundo do futebol — e da política, da economia e da sociedade, já que são mais do que previsíveis as demonstrações de apoio aos políticos catalães que estão presos. Xavi, que deixou a seleção espanhola logo após o final do Mundial 2014, vai realizar o último jogo pela Catalunha e será homenageado. Pelo meio, Piqué está sob fogo da opinião pública espanhola, Valladolid, Huesca e Rayo Vallecano estão sob fogo da generalidade da opinião pública catalã e Gerard López tem apenas 20 jogadores para defrontar a seleção venezuelana.