A receção do Benfica ao Eintracht Frankfurt era um daqueles jogos um tanto ou quanto românticos que motivavam regressos e reencontros de jogadores, sítios e clubes. Neste caso, era Luka Jovic que voltava a Lisboa e enfrentava o clube a que ainda pertence, já que está emprestado aos alemães, e Seferovic que reencontrava a equipa que representou durante três temporadas. Sérvio e suíço, que são os melhores marcadores das respetivas equipas, tiveram sortes diferentes no que diz respeito a ser opção para o jogo desta quinta-feira: Jovic foi titular, Seferovic assistiu ao apito inicial a partir do banco de suplentes.

E não foi o único. Bruno Lage voltava a deixar subentendido — ainda que o refira sempre nas conferências de imprensa de antevisão e rescaldo — que a grande prioridade do Benfica é a conquista do Campeonato. O treinador encarnado poupava não só Seferovic mas também Pizzi, que é um dos mais utilizados da equipa, e ainda o capitão André Almeida, que nem sequer integrou a convocatória. Corchia ocupava então a direita da defesa, Cervi fazia de Pizzi junto ao corredor e João Félix estava sozinho na frente, com Gedson a jogar no apoio direto ao ataque e Fejsa a render o lesionado Gabriel. Do outro lado, notava-se a ausência de Haller, avançado francês que costuma ser titular ao lado de Jovic e que não estava sequer no banco de suplentes. Gonçalo Paciência, português ex-FC Porto, começava no banco.

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Ficha de jogo

Benfica-Eintracht Frankfurt, 4-2

Primeira mão dos quartos de final da Liga Europa

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro: Anthony Taylor (Inglaterra)

Benfica: Vlachodimos, Corchia (Pizzi, 66′), Rúben Dias, Jardel, Grimaldo, Fejsa, Samaris (Zivkovic, 85′), Gedson, Rafa (Seferovic, 60′), João Félix, Cervi

Suplentes não utilizados: Svilar, Yuri Ribeiro, Florentino, Jota

Treinador: Bruno Lage

Eintracht Frankfurt: Trapp, Hasebe, Abraham, Hinteregger, N’Dicka, Da Costa, Rode (Gacinovic, 86′), Gelson Fernandes, Kostic, Rebic (Paciência, 68′), Jovic (De Guzmán, 60′)

Suplentes não utilizados: Ronnow, Falette, Willems, Torro

Treinador: Adi Hütter

Golos: João Félix (gp 21′, 43′, 54′), Jovic (40′), Rúben Dias (50′), Gonçalo Paciência (72′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Jovic (4′), a Rebic (26′), a Samaris (82′); cartão vermelho direto a N’Dicka (20′)

O Benfica encontrava então um Eintracht que ainda não tinha perdido no ano civil de 2019 (nove vitórias, seis derrotas) e que trazia dos oitavos de final o balanço de ter eliminado o Inter Milão. Na Bundesliga, a equipa de Frankfurt está no quarto lugar — já longe do topo da classificação, que vai ser discutido entre Bayern Munique e Borussia Dortmund — com possibilidades ainda de chegar à terceira posição que é agora do RB Leipzig. Quer isto dizer que com a Liga dos Campeões praticamente garantida na próxima temporada, o Eintracht tem agora como objetivo real avançar na Liga Europa e sonhar com uma presença na final e com a primeira conquista europeia da história do clube.

Os alemães começaram melhor, com uma pressão muito alta que estava a provocar erros dos jogadores encarnados e que abria autênticas auto-estradas para os elementos do conjunto de Adi Hütter. Logo aos cinco minutos, Jardel falhou a abordagem a uma bola pelo ar e Jovic ficou praticamente isolado em direção a Vlachodimos mas valeu a dobra de Grimaldo, que acelerou e chegou a tempo de aliviar para canto. O Eintracht estava a jogar muito perto das linhas mais recuadas do Benfica — entrou na Luz com um sistema de 3x1x4x2, com um meio-campo muito reforçado que alavancava o ataque — e os encarnados mostravam alguma dificuldade na construção para lá do setor intermédio. O primeiro lance mais rápido da equipa de Bruno Lage só apareceu mesmo aos 13 minutos, quando Cervi surgiu em velocidade na esquerda e tentou assistir João Félix no meio.

A estratégia do Eintracht estava a resultar, estava a provocar erros de Fejsa, Jardel e Rúben Dias e tinha em Jovic uma seta apontada à baliza de Vlachodimos. Tudo foi por água abaixo aos 20 minutos, quando Gedson — que durante a primeira parte apareceu muito móvel em terrenos que não costumam ser os seus, a jogar quase como falso “10” e nas costas de Félix — foi carregado em falta no interior da grande área por N’Dicka. Para além da grande penalidade, o árbitro da partida expulsou o homem que estava a jogar mais na esquerda na defesa dos alemães e deixou o Eintracht a jogar com menos um elemento. Na conversão, João Félix calçou as botas de Seferovic e estreou-se a marcar nas competições europeias.

Depois de o Benfica inaugurar o marcador, os alemães recuaram de forma compreensível e tentaram reajustar o modelo de jogo ao facto de estarem a atuar com dez. Do outro lado, os encarnados viam-se em vantagem aos 20 minutos e também não queriam arriscar muito nem provocar um desgaste adicional a uma equipa que está ainda a sofrer com sobreposição de jogos. Existia, porém, um problema: os erros na primeira fase de construção que aconteceram até ao golo de João Félix não desapareceram com o inaugurar do resultado nem com a vantagem numérica. Depois de uma primeira ameaça em valeu novamente Grimaldo a fazer a dobra aos centrais, Fejsa perdeu a bola ainda no meio-campo defensivo dos encarnados, Rebic lançou-se em velocidade na esquerda e à saída de Vlachodimos tocou para Jovic, que rematou para a baliza deserta e empatou (40′).

Mesmo com mais um elemento, o Benfica estava empatado a poucos minutos do intervalo e já tinha sofrido um golo em casa. Mas foi nesta altura que apareceu o rapaz de cabelo comprido e aparelho nos dentes que até nem tem feito grandes exibições nos últimos jogos e que tem andado fugido das capas de jornais que há um mês eram suas quase todos os dias. João Félix, que esta quarta-feira não era avançado, não era “10”, não era médio mas era tudo isto e ainda mais alguma coisa, apareceu com a bola controlada a partir da esquerda, trouxe para a faixa central e rematou rasteiro, encostado ao poste e fora do alcance de Trapp. Mais do que colocar o Benfica novamente em vantagem, Félix fazia história e tornava-se o mais novo de sempre a bisar pelo Benfica nas competições europeias. Até ao intervalo, Cervi ainda esteve perto do terceiro e o Eintracht ainda voltou a colocar a bola dentro da baliza — mas o lance foi anulado por fora de jogo.

A segunda parte começava sem alterações mas o Benfica tinha as estatísticas a seu favor: nos 93 jogos das competições europeias em que os encarnados saíram em vantagem ao intervalo na Luz, nunca perderam. Rúben Dias deu um empurrão aos dados e aos números e fez o terceiro da equipa de Bruno Lage, ao aproveitar um desvio de João Félix depois de um canto batido na direita. O momento da noite, contudo, estava guardado para daí a quatro minutos. A história estava feita na primeira parte, a vitória parecia algo garantida, as manchetes, as capas, as fotografias, os destaques na imprensa internacional: João Félix já tinha tudo isso. Mas quis mais. Quis fazer mais história, agarrar mais a vitória, fazer mais manchetes, estar em mais capas, protagonizar mais fotografias e ser um destaque ainda maior na imprensa internacional.

Grimaldo arrancou na esquerda, cruzou atrasado para Félix e jovem avançado rematou forte e rasteiro por entre as pernas de Kevin Trapp. João Félix selou o primeiro hat-trick da carreira e não conteve as lágrimas ao ajoelhar-se junto à linha de fundo. Ao minuto 54, tornou-se o primeiro jogador do Benfica a marcar três golos num jogo das competições europeias em 27 anos (o último tinha sido Pacheco, em 1992). Mas fez muito mais do que isso. Aos 19 anos, João Félix é o jogador mais novo de sempre a marcar um hat-trick na Liga Europa.

O jogo caiu em ritmo e qualidade a partir do quarto golo do Benfica e o Eintracht até tirou Jovic para reforçar o meio-campo com De Guzmán. A partida passou a ser muito disputada no meio-campo, Seferovic entrou para o lugar de Rafa, Pizzi substituiu um lesionado Corchia e o português Gonçalo Paciência foi lançado para o ataque alemão. O avançado ex-FC Porto entrou no relvado sob uma chuva de assobios e respondeu menos de cinco minutos depois (72′), ao cabecear após um pontapé de canto batido na direita. Nesta altura, o Benfica parecia ter adormecido um pouco e o Eintracht forçava através de passes verticais e transições pelos corredores, com Kostic a ficar perto do terceiro dos alemães ao aparecer quase sozinho já no interior da grande área (78′).

Bruno Lage percebeu que o facto de estar a jogar com menos um elemento não significava que o Eintracht fosse recuar e desistir do encontro. o Benfica passou a jogar mais fechado e com os setores mais juntos, João Félix recuou para trás da linha da bola pela primeira vez na partida e os encarnados jogavam agora apenas no contra-ataque com o objetivo de não sofrer mais nenhum golo e levar para a segunda mão na Alemanha a vantagem de dois golos. A saída de Samaris a cinco minutos do apito final provocou um desequilíbrio no meio-campo encarnado que originou alguma quebra na partida e permitiu ao ataque do Eintracht uma mobilidade que ainda causou calafrios à defesa do Benfica mas acabou por não se materializar em mais nenhum golo.

O Benfica venceu o Eintracht Frankfurt na primeira mão dos quartos de final da Liga Europa e está em boa posição para avançar para as meias-finais (onde vai encontrar o vencedor da eliminatória disputada entre o Slavia Praga e o Chelsea). Ainda assim, os alemães marcaram dois golos fora e podem surpreender em casa. Mas resultados, eliminatórias e contas de mercearia são pormenores algo secundários se olharmos para tudo aquilo que aconteceu na Luz na noite desta quinta-feira. João Félix tem 19 anos e marcou três golos num jogo das competições europeias. João Félix tem 19 anos e é o primeiro jogador do Benfica a assinar um hat-trick na Europa em 27 anos. João Félix tem 19 anos e tornou-se o jogador mais novo de sempre a marcar três golos num jogo da Liga Europa.