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Julian Assange

Semanas sem tomar banho e fezes nas paredes. Como Assange esgotou a paciência do Equador

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O fundador do WikiLeaks perdeu o estatuto de asilado político após sete anos fechado na embaixada do Equador. Além das motivações políticas, comportamento e falta de higiene levaram à decisão.

Julian Assange no interior da carrinha policial que o transportou quando foi detido na última quinta-feira

STRINGER/EPA

Após quase sete anos fechado na embaixada do Equador em Londres, Julian Assange viu o seu asilo político ser revogado por aquele país latino-americano e foi detido pelas autoridades britânicas. A verdade é que o presidente equatoriano, Lenín Moreno, já vinha repetindo que não iria permitir que Assange continuasse durante muito mais tempo nas instalações diplomáticas, contrariando a posição do seu antecessor, Rafael Correa. Mas imagens e testemunhos agora divulgados mostram o comportamento de Assange que esgotou a paciência do país que o protegeu.

Um vídeo partilhdo pelo jornal espanhol El País mostra duas situações captadas pelas câmaras de vigilância da embaixada que contribuíram para o degradar das relações entre o fundador do WikiLeaks e os funcionários da embaixada equatoriana. Numa das filmagens, é possível ver Assange em calções e t-shirt a andar de skate numa divisão da embaixada. Noutra, vê-se um conjunto de pessoas que o australiano convidou para uma reunião na embaixada, mas que os funcionários da missão diplomática quiseram expulsar por se tratar de um fim de semana. A polícia foi chamada a intervir e é possível ver o pirata informático a tentar fotografar os seguranças.

Mas as revelações não ficam por aqui. De acordo com a Associated Press, além da frequência com que Assange andava de skate durante a noite na embaixada e das agressões físicas a funcionários da missão diplomática, questões de higiene estiveram na origem dos problemas. Julian Assange chegou mesmo a espalhar as suas próprias fezes nas paredes da embaixada do Equador, país que gastou perto de um milhão de dólares (880 mil euros) por ano com as despesas do fundador do WikiLeaks.

Assange andava frequentemente em roupa interior na embaixada, ouvia música com o volume alto e passava semanas sem tomar banho. A falta de higiene levou-o a ter problemas dentários, sempre com o governo equatoriano a sustentar despesas médicas. Além disso, eram frequentes as agressões físicas e verbais aos funcionários da embaixada, acusando-os de serem espiões norte-americanos.

Julian Assange foi detido na quinta-feira pelas autoridades britânicas e presente a um juiz, que o considerou culpado do crime de violação da medida de coação. Assange está acusado de crimes em três países: na Suécia, onde é suspeito de dois crimes sexuais; no Reino Unido, onde não compareceu em tribunal após as autoridades britânicas o terem intimado a fazê-lo para cumprir o mandado de detenção europeu emitido pela Suécia na sequência da investigação a uma queixa de violação; e nos Estados Unidos da América, onde é acusado de conspiração, por ter divulgado documentos confidenciais pelo WikiLeaks.

Presidente do Equador acusa Assange de usar a embaixada como centro de espionagem

Lenín Moreno, Presidente do Equador, acusou Julian Assange de interferir constantemente nos assuntos internos de outros países, noticiou o jornal The Guardian. “É lamentável que, a partir do nosso território e com a permissão das autoridades do governo anterior, tenham sido fornecidas instalações dentro da embaixada equatoriana em Londres para interferir nos processos de outros estados”, disse o Presidente numa crítica ao antecessor, Rafael Correa, que concedeu asilo a Assange.

Rafael Correa, por sua vez, acusa Moreno de estar a cometer um “crime que a humanidade nunca vai esquecer” e descreve o seu anterior aliado como “o maior traidor da história do Equador e da América Latina”. Mais, Correa acusa Moreno de ter negociado com os Estados Unidos por causa da dívida do páis. O Presidente equatoriano nega as acusações.

O WikiLeaks divulgou um site anónimo onde o irmão de Moreno é acusado de ter criado uma empresa offshore e revelou fotografias privadas do Presidente e da família. Lenín Moreno nega que tenha negado o asilo político a Assange como forma de represália pela informação divulgada e prefere justificar que o Equador não pode admitir que a embaixada tenha sido usada para desestabilizar outros países.

“Ele era um convidado a quem foi oferecido um tratamento digno, mas não teve o princípio básico de reciprocidade para o país que soubre recebê-lo, ou a disposição para aceitar os protocolos do país que o acolheu. A retirada do asilo ocorreu em estrita adesão ao direito internacional. É uma decisão soberana. Nós não tomamos decisões com base em pressões externas de qualquer país”, disse numa resposta por email ao jornal britânico.

O Presidente equatoriano reforçou que a falta de higiene, as agressões aos funcionários da embaixada, os processos contra o Equador e as constantes violações das normas e protocolos tornaram incomportável continuar a garantir asilo ao pirata informático. Lenín Moreno acrescentou que procurou garantir que Assange não seria deportado para um país onde o julgamento pudesse resultar numa pena de morte.

Assange disponível para colaborar com as autoridades suecas

Assange vai ser novamente ouvido em tribunal, no Reino Unido, no dia 2 de maio. Este domingo, a sua advogada, Jennifer Robinson, disse que fundador do WikiLeaks está preparado para cooperar com as autoridades suecas caso peçam a sua extradição, sublinhando que a prioridade é evitar uma extradição para os Estados Unidos.

O cidadão australiano de 47 anos foi detido devido a um mandado de extradição norte-americano por “pirataria informática”, que será analisado numa audiência judicial a 2 de maio, e a um mandado emitido em junho de 2012 pela justiça britânica por não-comparência em tribunal, um crime passível de ser punido com um ano de prisão.

Ele vai “contestar e combater” o pedido de extradição, declarou à imprensa, após a sua comparência em tribunal, a sua advogada Jennifer Robinson, para quem a detenção de Julian Assange “cria um perigoso precedente para os órgãos de comunicação social e os jornalistas” em todo o mundo.

Atualizado com a reação do Presidente Lenín Moreno, no dia 15 de abril, às 8h40

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